O céptico hedonista

Erros Individuais
Autor: José Miguel Silva
Editora: Relógio d’Água
N.º de páginas: 67
ISBN: 978-989-641-186-2
Ano de publicação: 2010

Poeta do quotidiano, atento à entropia social, à fragilidade da beleza e ao poder da linguagem vernácula, José Miguel Silva acentua, em Erros Individuais (Relógio d’Água), o seu desencanto com o estado do mundo em geral, e com o nosso país em particular. Na «era da ironia», é preciso cultivar uma certa distância em relação ao que nos fascina ou agride, até porque para ser condenado à morte basta estar vivo.
Assumindo-se como um «céptico hedonista e quezilento», JMS começa por deambular em Florença, entre palácios e obras-primas da arte sacra. Mas o espectáculo da fé alheia enerva-o: incréu, não encontra «firme carne onde ferrar o pensamento». Ao sublime religioso prefere a vaidade dos burgueses, «emissários do real» que pediam aos pintores a imortalidade numa tela. E se Tarkovski, florentino honorário, foi conduzido «à ilusão de ter a alma, ou lá o que é», o sujeito poético, mais espirituoso do que espiritual, contenta-se com a promessa das «coisas leves» (pão, iogurte, compota de castanha) que se podem comprar num mini-mercado, ou com o jogo nem sempre inocente da contemplação. Contemplação em que cabem um franciscano a olhar para as pernas das turistas em vez de ler a Bíblia, «demonstrando / como é dura a castidade neste século / de carne ao desafio»; as vozes imaginárias que se erguem das campas, «apanhadas do chão» na Igreja de San Miniato al Monte; a harmonia urbanística de Siena; as bicicletas de Lucca; ou os «belos muros» de Pisa, «parapeitos do privado, da ventura / de viver mais para ver do que para ser visto».
Difícil é depois «regressar a horizontes de betão / e eucalipto, a frustrados atoleiros / de automóveis à deriva, ao fanico / de salários sobrevivos, mordaçantes, / ao cajado da lisonja e da preguiça». Isto é, ao Portugal do comodismo, da mesquinhez e da renúncia, onde a geração zapping se prepara para trepar, à bruta, um «precipício / de cristão capitalismo». Há realmente um lado feio e triste do país, um lastro antigo que a Europa não redime. E José Miguel Silva, com a sua verve truculenta, é um dos seus melhores cronistas.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 98 da revista Ler]

Três poemas de José Miguel Silva

SAN MINIATO AL MONTE

Em San Miniato caminhamos sobre mortos,
epitáfios, tristes portas a que batemos, sem
saber, com um descuido de volúveis, ociosos
tacões, enquanto farejamos, de nariz no ar,
a gostosa patranha da Ressurreição. Como se
não estivesse em nossas mãos, em nossos olhos,
operar o milagre possível: ceder uma fatia
do nosso juízo a estes apelos que de baixo
nos lançam os desapossados, os que já nada
têm a perder excepto o olhar de quem passa.
A esmola duma pausa para articular o nome
de Luigi Nardi, Angela Ferraresi, Anunzziata
de Fabris, Alamanno Biagi, Teresa Puggi…

***

5.

Há quem olhe para as coisas e veja formas,
cores, colmeias de melífluo sentido.
Eu nunca vi senão prefácios à destruição.
Nas linhas dum rosto via medo farpado,
na curva dum ombro, o peso que suporta.
Encarava com descrença o sorriso das praças,
na cabeça dum menino lia o mapa do inferno
e no amor o combustível da ganância.
Não sei como foi, eu nunca soube fechar
os olhos e dormir como os demais.
E se olhava para dentro de mim, era ainda
pior: uma paisagem abjecta entre colunas
de mercúrio, de enxofre, de metais pesados
como a consciência. Fui, em suma, um triste,
um homem estacado na fronteira entre
verdade e pânico, e desconfiado, sempre,
de qualquer ideia de consolação. Retirado,
no final, para um respiro de montanha,
esforcei-me por manter a ilusão de ser
o último elo na cadeia antropológica,
o nec plus ultra da insanidade.

***

AGORA A SÉRIO

Nem cínicos nem tontos
o bastante para as guerras
mundiais da mercadânsia,
são simpáticos, os «tugas»,
como todos os inábeis.

Se dão pouco, menos pedem,
desafogam-se em abraços
de convívio quintaleiro,
com o mundo num chinelo
e o chinelo ao pé da porta.

Sem mudanças nem conflitos,
são amáveis com os factos,
obedecem aos estreitos
razoados da renúncia,
não se levam muito a sério.

No lagar da contingência,
reconhecem quase a gosto
a astenia da azeitona,
fazem migas do orgulho,
fazem figas, queimam velas

de tamanho não-te-rales
e que se lixe o candeeiro
do futuro. Malnascidos,
comoventes como ratos
na gaveta da cozinha,

com as patas num trapézio
de suspiros cauteloso,
atilados como filhos
primogénitos da fome,
são apáticos, mas giros:

piedosos quanto baste,
confiantes quando podem,
inocentes como poldros,
pés de salsa ao regadio
da vidina providência.

Faço meus os seus defeitos
(a preguiça, a timidez,
a vocação do remedeio)
e agradeço ter nascido
bem pequeno, com espaço

(quer dizer) para crescer
um pouco mais. Pois
não há pior destino
que nascer acabadinho,
já montado na carroça

triunfante da fiúza,
vendo o mundo p’lo binóculo
invertido do umbigo,
com a alma metralhada
de paixão e cupidez.

[in Erros Individuais, Relógio d’Água, 2010]

Dois poemas inéditos de José Miguel Silva

Aqui (S. Miniato al Monte) e aqui (Galleria dell’ Accademia).

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges