Uma carta de Saramago

Na década de 70, durante o regime militar, o filho do poeta argentino Juan Gelman foi assassinado aos 20 anos pela polícia política. A nora, de 18 anos, estava grávida e conheceu a mesma sorte, dois meses depois de dar à luz uma menina que viria a ser registada como filha legítima de um chefe de polícia uruguaio. Muitos anos depois, o avô haveria de a encontrar e a neta lutou na Justiça para ganhar o direito de usar o apelido Gelman. Entre os intelectuais que se manifestaram durante este processo estava José Saramago. A carta que enviou ao Presidente do Uruguai, Julio Sanguinetti, a 20 de Outubro de 1999, pode ser lida aqui, no site da Fundação José Saramago, que também disponibiliza vídeos da vinda de Juan Gelman a Lisboa, em 2010.

Todos os vandalismos são estúpidos, mas há vandalismos que são mais estúpidos do que outros

Que raça de energúmenos é que se diverte a destruir painéis evocativos da obra de um dos nossos maiores escritores?

‘Blimunda’ #3

Sobre uma relação literária transatlântica: José Saramago e Jorge Amado. Para descarregar aqui.

Dia Jorge Amado na Fundação Saramago

A festa começa às 18h00. Toda a informação aqui.

Fragmentos de ‘José e Pilar. Conversas Inéditas’

No próximo dia 18 será lançado o livro, com chancela da Quetzal, que reúne as muitas conversas entre José Saramago e Pilar del Río que o realizador Miguel Gonçalves Mendes não conseguiu incluir no seu documentário José e Pilar. Até lá, e a partir de hoje, o blogue O Caderno de Saramago publicará diariamente excertos da obra.

Prognóstico para logo à tarde

Cordilheira, de Daniel Galera (Caminho, 2010).

Primeiros parágrafos

«Por entre os véus oscilantes que lhe povoavam o sono, Silvestre começou a ouvir rumores de loiça mexida e quase juraria que transluziam claridades pelas malhas largas dos véus. Ia aborrecer-se, mas percebeu, de repente, que estava acordando. Piscou os olhos repetidas vezes, bocejou e ficou imóvel, enquanto sentia o sono afastar-se devagar. Com um movimento rápido, sentou-se na cama. Espreguiçou-se, fazendo estalar rijamente as articulações dos braços. Por baixo da camisola, os músculos do dorso rolaram e estremeceram. Tinha o tronco forte, os braços grossos e duros, as omoplatas revestidas de músculos encordoados. Precisava desses músculos para o seu ofício de sapateiro. As mãos, tinha-as como petrificadas, a pele das palmas tão espessa que podia passar-se nela, sem sangrar, uma agulha enfiada.»

[in Claraboia, de José Saramago, escrito em 1953 e editado pela Caminho em 2011]

Saramago na Best books of the month da Amazon

Na escolha dos «melhores livros» de Outubro feita pela equipa editorial da Amazon constam nomes como Haruki Murakami, Jeffrey Eugenides, Michael Ondaatje e José Saramago, com a edição norte-americana de Caim.

Um bom candidato

O documentário José e Pilar é o candidato português aos Óscares de 2012. E eu gostava muito que o seu autor, Miguel Gonçalves Mendes, não só ganhasse a estatueta como aproveitasse para falar um pouco do Nobel português ao público do Kodak Theatre e às centenas de milhões de espectadores que assistem à cerimónia pelo mundo fora.

Saramago lembrado na Feira do Livro de Sevilha

A Feira do Livro de Sevilha, que decorrerá entre 19 e 30 de Maio, vai ser este ano dedicada a José Saramago.

Then we drank to Saramago

Um tributo a José Saramago, escrito à sua maneira (com «long, elegant sentences») por Dionne Brand, na revista Brick.

Micro-obituário de Harold Bloom sobre José Saramago

Na última edição do ano passado, a revista Time disse adeus a 25 figuras que morreram em 2010, entre as quais J.D. Salinger, Dennis Hopper, Richard Holbrooke, Tony Curtis, Arthur Penn e Bobby Thomson (o jogador de basebol que foi autor do home run descrito por Don DeLillo nas páginas iniciais de Submundo). Europeus, apenas quatro: Éric Rohmer, Louise Bourgeois, Alexander McQueen e José Saramago. Eis o textinho sobre o Nobel português, assinado por Harold Bloom:

«José Saramago, whom I remember with great affection, will be a permanent part of the Western canon. He was the first Portuguese-language writer to win the Nobel Prize and is probably best known now for Blindness — an interesting antitotalitarian allegory. His many novels have astonishing variety and sensitivity and a versatile range that embraces tragicomedy and something close to old-fashioned quest romance.
My own favorites among his books include the darkly comic The Gospel According to Jesus Christ and the frightening Blindness. But I have more pleasure in returning to his deeply comic works, such as The Stone Raft, The History of the Siege of Lisbon and, most of all, The Year of the Death of Ricardo Reis.
In all of his wonderful meditations upon the ruefulness of our lives, there is always the spirit of laughter beckoning us in the art of somehow going on. His achievement is one of the enlargements of life.»

Choque de titãs

Para perceber como funciona o Google Books Ngram Viewer (neste caso tomando como ponto de partida o corpus de livros mais vasto do Google Books, o de língua inglesa), lembrei-me dos seguintes duelos literários: José Saramago vs. António Lobo Antunes; Luís Vaz de Camões vs. Fernando Pessoa; Mario Vargas Llosa vs. Gabriel García Márquez.
Eis os resultados:

José Saramago vs. António Lobo Antunes

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(clique para aumentar esta imagem e as seguintes)

No início dos anos 80, Saramago e Lobo Antunes andavam mano a mano. Depois, em 1988, uma década antes do Nobel, Saramago descola. Não deixa de ser curioso que o auge das referências a Saramago, em livros escritos na língua inglesa, tenha acontecido em 2003.

Luís Vaz de Camões vs. Fernando Pessoa

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Na década de 40, Camões estava em grande. Depois, veio por ali abaixo, com picos ocasionais. Já Pessoa começa a subir na década de 80 (coincidindo com o centenário e com a internacionalização da sua obra). A tendência é para que a curva do Camões propriamente dito e a curva do putativo «super-Camões» fiquem cada vez mais próximas.

Mario Vargas Llosa vs. Gabriel García Márquez

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Quanto a uma das maiores rivalidades literárias do século passado, a que opôs Vargas Llosa a García Márquez, é nítido que a ligeira vantagem do segundo se acentuou a partir de 1982, quando o colombiano ganhou o Nobel. Infelizmente, os dados disponíveis terminam em 2008. Seria interessante verificar se Llosa, ao ganhar o Nobel este ano, já recuperou da desvantagem e passou de novo para a frente, como no final da década de 60.

Rio vs. Rio

Pelos vistos, é mais fácil dar o nome de José Saramago a uma rua no Rio de Janeiro do que no Porto de Rui Rio.

Logo à tarde (2)

Às 18h30, a Fundação José Saramago organiza, na Biblioteca Municipal Palácio Galveias (Lisboa), uma sessão comemorativa dos 12 anos da atribuição do Prémio Nobel ao seu patrono. Participam Carlos Reis, Viriato Soromenho Marques, Carlos Vaz Marques, Jorge Couto, Zeferino Coelho e Pilar del Río.
Serão ainda celebrados os 62 anos da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

‘José e Pilar’ (trailer)

O documentário de Miguel Gonçalves Mendes estreia na próxima quinta-feira, dia 18.

Mês de Saramago

No mês em que José Saramago faria 88 anos (dia 16), sucedem-se as homenagens ao Nobel da Literatura português:

15 de Novembro (18h00)
Biblioteca Municipal Palácio Galveias
Lançamento do livro José Saramago nas Suas Palavras, com intervenções de Fernando Gómez Aguilera, autor desta antologia de entrevistas, e de Clara Ferreira Alves. Pedro Lamares lerá excertos do livro.

16 de Novembro (12h30)
Inauguração da Sala José Saramago na Biblioteca Municipal Palácio Galveias

16 de Novembro (22h00)
Cinema São Jorge, Sala 1
Ante-estreia do filme José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes

18 de Novembro (18h00)
Palácio Galveias
“León Tolstoi e José Saramago – Dois Aniversários”
Leitura do romance Anna Karenina, na tradução de José Saramago

18 de Novembro (24h00)
Lux – Frágil
Concerto de apresentação da banda sonora do filme José e Pilar

Mais informações no site da Fundação José Saramago.

Caminho José Saramago, na entrada do CCB

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Inaugurado ontem, ao início da tarde, por António Mega Ferreira, director do Centro Cultural de Belém, e Violante Saramago Matos, filha do escritor.

Ler J. S.

Ontem à tarde, na Sala Almada Negreiros do CCB, diante de umas 150 pessoas, lemos excertos de alguns livros de José Saramago. O anfitrião, António Mega Ferreira, começou por lembrar o Saramago poeta, recuperando três dos Poemas Possíveis (de 1966). Depois, Violante Saramago Matos leu uma passagem brutal do Ensaio Sobre a Cegueira (1995) e João Céu e Silva partilhou algumas cenas soltas do Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991). Seguiu-se uma conversa de Mega Ferreira com Zeferino Coelho, sobre as relações entre escritor e editor, após a qual foi a minha vez de ajeitar o microfone e aclarar a voz.
Comecei pelo poema que abre o livro Provavelmente Alegria (1970):

POEMA PARA LUÍS DE CAMÕES

Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho pára,
Na figura do corpo está a escala do mundo.
Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
São as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da última razão, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das estátuas jazentes, repousando,
Não mortas, não geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta.
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as mãos presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na lágrima comum. Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.

Eram estas a grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
Já não fosse este canto.

Depois li um excerto de seis páginas de Memorial do Convento (1982), aquela sequência em que se descreve magistralmente o estranho poder de Blimunda (o de ver por dentro dos corpos e da terra). Começa na página 75 (tenho a 15.ª edição, de 1985), com este parágrafo:

«Dorme Baltasar no lado direito da enxerga, desde a primeira noite aí dorme, porque é desse lado o seu braço inteiro, e ao voltar-se para Blimunda pode, com ele, cingi-la contra si, correr-lhe os dedos desde a nuca até à cintura, e mais abaixo ainda se os sentidos de um e do outro despertaram no calor do sono e na representação do sonho, ou já acordadíssimos iam quando se deitaram, que este casal, ilegítimo por sua própria vontade, não sacramentado na igreja, cuida pouco de regras e respeitos, e se a ele apeteceu, a ela apetecerá, e se ela quis, quererá ele. Talvez ande por aqui obra de outro mais secreto sacramento, a cruz e o sinal feitos e traçados com o sangue da virgindade rasgada, quando, à luz amarela do candil, estando ambos deitados de costas, repousando, e, por primeira infracção aos usos, nus como suas mães os tinham parido, Blimunda recolheu da enxerga, entre as pernas, o vivíssimo sangue, e nessa espécie comungaram, se não é heresia dizê-lo ou, mais ainda, tê-lo feito. Meses inteiros se passaram desde então, o ano é já outro, ouve-se cair a chuva no telhado, há grandes ventos sobre o rio e a barra, e, apesar de tão próxima a madrugada, parece escura noite. Outro se enganaria, mas não Baltasar, que sempre acorda à mesma hora, muito antes de nascer o sol, hábito inquieto de soldado, e fica alerta a ver retirar-se devagar a escuridão de cima das coisas e das pessoas, a sentir aquele grande alívio que levanta o peito e é o suspiro do dia, o primeiro e impreciso traço grisalho das frinchas, até que um leve rumor acorda Blimunda e outro som começa e se prolonga, infalível, é Blimunda a comer o seu pão, e depois que o comeu abre os olhos, vira-se para Baltasar e descansa a cabeça sobre o ombro dele, ao mesmo tempo que pousa a mão esquerda no lugar da mão ausente, braço sobre braço, pulso sobre pulso, é a vida, quanto pode, emendando a morte. Mas hoje não será assim. Um dia e outro dia perguntou Baltasar a Blimunda por que comia todas as manhãs antes de abrir os olhos, perguntou ao padre Bartolomeu Lourenço que segredo era este, ela respondeu-lhe uma vez que se acostumara a isso em criança, ele disse que se tratava de um grande mistério, tão grande que voar faria figura de pequena coisa, comparando. Hoje se saberá.»

E termina na página 81, com estas palavras:

«(…) pela salvação da tua alma te peço, Baltasar, leva-me para casa, dá-me de comer, e deita-te comigo, porque aqui adiante de ti não te posso ver, e eu não te quero ver por dentro, só quero olhar para ti, cara escura e barbada, olhos cansados, boca que é tão triste, mesmo quando estás ao meu lado deitado e me queres, leva-me para casa, que eu irei atrás de ti, mas com os olhos baixos, porque uma vez jurei que nunca te veria por dentro, e assim será, castigada seja eu se alguma vez o fizer.»

Li ainda a versão curta desta crónica.
O momento mais alto da sessão, porém, foi a leitura que Pedro Lamares apresentou de O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Seleccionando apenas algumas situações e personagens, cosendo-as muito bem e cerzindo tudo com a voz, como disse Mega Ferreira, Lamares conseguiu resumir o essencial do melhor romance de Saramago em 45 minutos. E disse-o com a arte, o ritmo e a precisão vocal de um excelente actor. Só para ouvir isto, valeu a pena organizar esta homenagem ao nosso Nobel da Literatura.

Dia José Saramago no CCB

É hoje.

‘Embargo’ (trailer)

O novo filme de António Ferreira, inspirado num conto de José Saramago, estreia no próximo dia 30.

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26 de Setembro é Dia José Saramago no Centro Cultural de Belém.

O editor pára-raios

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Correspondência 1959-1971
Autores: José Saramago e José Rodrigues Miguéis
Editora: Caminho
N.º de páginas: 316
ISBN: 978-972-21-2112-5
Ano de publicação: 2010

Organizado por José Albino Pereira, o volume Correspondência 1959-1971 reúne 166 cartas trocadas entre José Saramago e José Rodrigues Miguéis, num período em que o primeiro era «director literário» da Estúdios Cor e o segundo o nome mais forte da editora, tanto em vendas como em prestígio – um ano antes, em 1958, ganhara o prémio Camilo Castelo Branco, com Léah e Outras Histórias. A separá-los, o Atlântico e uma razoável diferença de idades: ao tempo das primeiras cartas, Saramago tem 36 anos; Rodrigues Miguéis, 57.
A correspondência começa por ser quase exclusivamente sobre questões editoriais – relatórios das vendas, apuramento de direitos de autor, envio de cheques (ou reclamações quando estes se atrasavam), contratos, pormenores técnicos (as gralhas, a mancha de texto, o tipo de letra, o grafismo das capas, etc.) – mas depressa os formalismos se dissipam, dando lugar a declarações de amizade e afecto que nascem da admiração mútua.
Não faltam, porém, desentendimentos, equívocos, mal-entendidos e crispações. Se Miguéis vê em Saramago o «cordão umbilical» que o liga à pátria distante, nem sempre parece compreender que não é humanamente possível ao seu interlocutor, afundado em «trabalho até aos gorgomilos», responder com a rapidez e regularidade desejáveis. Exilado há mais de duas décadas em Nova Iorque, Miguéis ressente-se do afastamento físico. Abundam os queixumes sobre a solidão, sobre os silêncios prolongados que o deixam sem notícias de Portugal, ou ainda sobre os sucessivos problemas de saúde que lhe reduzem a qualidade de vida e limitam a produção literária. Por vezes, o tom é ríspido, «cortante», digno de uma prima-dona impaciente. A falta de atenção magoa-o e ele não se coíbe de invocar, como quem puxa da carta de trunfo, o estatuto de autor mais vendido: «Oxalá os meus amigos tivessem meia dúzia como eu.» Outras vezes, instala-se o desânimo e o autor de Escola do Paraíso chega a pôr em dúvida a qualidade das obras em curso (por exemplo, depois de ler Rayuela, de Cortázar, diz-se com «ganas de rasgar quanto tenho escrito»).
Com uma paciência de Job, Saramago dá-lhe alento e vai resolvendo como pode as questões burocráticas. É ele que dá a cara pela editora, é ele o «pára-raios», o homem dos «equilíbrios na corda bamba» – função da qual retira «mais aborrecimentos que alegrias», em troca de um «ordenado miserável». Em 1971, a insatisfação chega ao limite e bate com a porta (será substituído por Natália Correia, apalavrada pelos superiores hierárquicos nas suas costas), interrompendo a troca de cartas numa altura em que até se permitia fazer confidências sobre a sua instável vida amorosa.
Além de mostrar o funcionamento do mundo editorial português na década de 60, esta correspondência vale pelo retrato nítido que nos dá de dois artistas com trajectórias inversas: um escritor então no auge da fama (Miguéis) e entretanto esquecido; outro ainda por revelar (Saramago), mas já no interior da crisálida de que haveria de sair, uns anos mais tarde, o romancista destinado a ser o primeiro Nobel da língua portuguesa.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no número 93 da revista Ler]

O livro inacabado de Saramago

Da entrevista a Pilar del Río, viúva de José Saramago, publicada ontem pelo Diário de Notícias:

«Ainda há muito espólio literário para revelar?
Não.

Só o último livro que estava a escrever?
Sim. Mas não é um livro.

Não será publicado?
Sim, será publicado. Creio que é um texto maravilhoso, cheio de humor, com uma profundidade e uma carga que merece que seja publicado. Mas não é um livro porque não ainda estava acabado. Não vamos enganar ninguém.

É o princípio de um livro?
Claro, e ao qual os leitores têm direito. Como? Quando? De que maneira? Isso, logo veremos como acontecerá. E não é para fazer negócio.

Não há mais nada desconhecido na arca de Saramago?
O que havia não publicado viu-se na exposição A Consistência dos Sonhos. Não há mais, lamento. Saramago não era um autor que escrevesse e fosse metendo em gavetas para o futuro. Foi um autor tardio, e aquilo que escrevia ia publicando. Existe, sim, uma obra da juventude, de que já falámos mil vezes – Clarabóia – e da qual disse “não a quero ver publicada em vida”. Mas como não proibiu que o fosse depois, assim irá acontecer um dia. Evidentemente, será apresentado como uma obra de juventude, como o foi Terra do Pecado.

Quando se prevê essa publicação?
Ainda não houve tempo para se pensar no assunto.

Para este último “romance” já existe uma data de publicação?
Ainda não falámos com os editores nem com a agente literária. Não há pressa.

Quantas páginas tem?
Teria de as ter contado mas nem sequer as tenho numeradas no meu computador. Mas não serão muitas, cerca de 50.»

A entrevista completa pode ser lida aqui, aqui e aqui.

Saramago na ‘Lire’ (número de Julho/Agosto)

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[Agradeço a dica e a digitalização do texto à leitora Joana Valente]

A literatura vende

Toda a gente que trabalha na imprensa sabe que as newsmagazines (tipo Visão ou Sábado) fazem ciclicamente capas com a palavra sexo ou corpos despidos porque esses números vendem sempre mais do que os números com outros temas quaisquer. É por isso interessante constatar como uma revista erótica soft, não deixando de exibir uma mulher nua na capa (como lhe compete), soube homenagear um grande escritor recentemente desaparecido.
A Sara Figueiredo Costa deu-se mesmo ao trabalho de comprar este último número da Playboy portuguesa e não lhe poupa elogios: «(…) o facto é que a homenagem é séria e justa, e não perde seriedade nem justeza pela exposição de partes habitualmente resguardadas do corpo feminino. Além disso, à produção fotográfica de encenação bíblica segue-se uma longa entrevista feita a Saramago por Humberto Werneck, antigo editor-chefe da Playboy Brasil, em 1995. Saber enquadrar uma homenagem merecida na linha editorial de uma publicação, eis o rasgo certeiro da Playboy portuguesa.»

Registo

Ontem, li seis páginas de O Ano da Morte de Ricardo Reis (da 85 à 90, na minha edição: a 8.ª, de 1986) na maratona saramaguiana que começou ao meio-dia na Casa Fernando Pessoa. Às três da tarde, com Portugal a jogar contra o Brasil na África do Sul, estavam na sala 35 pessoas (33 eram mulheres).
A última frase da minha leitura, logo após um momento de embaraço entre Ricardo Reis e Lídia (a empregada que lhe leva o pequeno-almoço ao quarto), foi esta: «São assim os labirintos, têm ruas, travessas e becos sem saída, há quem diga que a mais segura maneira de sair deles é ir andando e virando sempre para o mesmo lado, mas isso, como temos obrigação de saber, é contrário à natureza humana.»

Cinco poemas de José Saramago

PAISAGEM COM FIGURAS

Não há muito que ver nesta paisagem:
Alagadas campinas, ramos nus
De salgueiros e choupos eriçados:
Raízes descobertas que trocaram
O natural do chão pelo céu vazio.
Aqui damos as mãos e caminhamos,
A romper nevoeiros.
Jardim do paraíso, obra nossa,
Somos nele os primeiros.

***

PROTOPOEMA

Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos nós cegos, puxo um fio que me aparece solto.
Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos.
É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo vivo.
É um rio.
Corre-me nas mãos, agora molhadas.
Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de repente não sei se as águas nascem de mim, ou para mim fluem.
Continua a puxar, não já memória apenas, mas o próprio corpo do rio.
Sobre a minha pele navegam barcos, e sou também os barcos e o céu que os cobre e os altos choupos que vagarosamente deslizam sobre a película luminosa dos olhos.
Nadam-me peixes no sangue e oscilam entre duas águas como os apelos imprecisos da memória.
Sinto a força dos braços e a vara que os prolonga.
Ao fundo do rio e de mim, desce como um lento e firme pulsar de coração.
Agora o céu está mais perto e mudou de cor.
É todo ele verde e sonoro porque de ramo em ramo acorda o canto das aves.
E quando num largo espaço o barco se detém, o meu corpo despido brilha debaixo do sol, entre o esplendor maior que acende a superfície das águas.
Aí se fundem numa só verdade as lembranças confusas da memória e o vulto subitamente anunciado do futuro.
Uma ave sem nome desce donde não sei e vai pousar calada sobre a proa rigorosa do barco.
Imóvel, espero que toda a água se banhe de azul e que as aves digam nos ramos por que são altos os choupos e rumurosas as suas folhas.
Então, corpo de barco e de rio na dimensão do homem, sigo adiante para o fulvo remanso que as espadas verticais circundam.
Aí, três palmos enterrarei a minha vara até à pedra viva.
Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se juntarem às mãos.
Depois saberei tudo.

***

Estou onde o verso faço, e erro o verso
Porque a fuga do tempo, ao núcleo escasso,
Tira a carne do fruto até ao osso.
Rilho no fel o dente e o desafio,
Tal, vagaroso, o bicho em jaula morde,
No travor do caroço, a memória do mel.

***

Aqui a pedra cai com outro som
Porque a água é mais densa, porque o fundo
Tem assento e firmeza sobre os arcos
Da fornalha da terra.
Aqui reflecte o sol, e tange à superfície
Uma ruiva canção que o vento espalha.
Nus, na margem, acendemos convulsos
A fogueira mais alta.
Nascem aves no céu, os peixes brilham,
Toda a sombra se foi, que mais nos falta?

***

Tenho um irmão siamês
(Há quem tenha, mas o meu,
Ligado à sola dos pés,
Anda espalhado no chão,
Todo mordido da raiva
De ser mais raso do que eu.)

Tenho um irmão siamês
(É a sombra, cão rafeiro,
Vai à frente ou de viés
Conforme a luz e a feição,
De modo que sempre caiba
Nos limites do ponteiro.)

Tenho um irmão siamês
(Minha morte antecipada,
Já deitada,
À espera da minha vez.)

[in Provavelmente Alegria, Caminho, 1987, 3.ª edição; 1.ª edição, Livros Horizonte, 1970]

Da dignidade institucional (ou sua falta)

No jogo de hoje contra a Coreia do Norte, os jogadores da selecção portuguesa vão usar um fumo negro no braço, em memória de José Saramago. Quer isto dizer que até a Federação de Futebol, a nossa tão parola Federação de Futebol, revela maior consciência dos seus deveres institucionais (isto é, dos deveres associados a quem representa o país) do que o Presidente da República. Felizmente, não sou só eu que me escandalizo com a indiferença de Cavaco Silva, entretido a mostrar aos netinhos as belezas naturais dos Açores e incapaz de interromper as férias, como era sua obrigação. Dois comentadores políticos à direita (aliás, muito à direita) também consideram que este é um erro grave. Carlos Abreu Amorim vai mesmo ao ponto de dizer: «Concorde-se ou não com a figura humana, com o passado ideológico de Saramago, a atitude do Presidente é a de um homem minúsculo que não foi capaz de um gesto de grandeza institucional.»
Homem minúsculo, sim, menos que minúsculo. Homem politicamente liliputiano.

Uma maratona de leitura em homenagem a Saramago

Na próxima sexta-feira, dia 25, a Casa Fernando Pessoa organiza uma leitura integral, em voz alta, do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago. Segundo Inês Pedrosa, directora da CFP, esta iniciativa surge «porque acreditamos que a voz dos grandes escritores só morre quando a nossa voz os deixa morrer». A maratona começa às 12h00 e está aberta a todos os que se quiserem associar à homenagem.

Muitas presenças para uma ausência

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Estive no cemitério do Alto de São João, na despedida a José Saramago. Vi escritores, vi compagnons de route, vi políticos, vi muitos leitores com livros de Saramago erguidos no ar (como flores, como punhos), vi milhares de rostos anónimos, o povo de Lisboa agradecido ao grande escritor. Só não vi o Exmo. Senhor Presidente da República Portuguesa, incapaz de interromper as férias familiares nos Açores para honrar a memória do único Prémio Nobel da Literatura no universo da língua portuguesa. No fundo, é uma questão de coerência, já que foi uma decisão absurda de um governo liderado por Cavaco Silva (alguém que nunca se importou de exibir as suas limitações culturais) a empurrar Saramago para Espanha. Mas não deixa de ser uma vergonha.

Carta de José Saramago para José Rodrigues Miguéis

«Parede, 20 de Março de 1966

Querido Miguéis,

Tanta amizade, tanta compreensão, tanta bondade – como lhe hei-de agradecer tudo isso? Um homem que tem mil razões para estar magoado, e escreve assim! Valente amigo!…
Um dia lhe contarei talvez o que têm sido, para mim, estes últimos meses. O menor dos meus males, afinal, ainda é a editora. O maior será provavelmente a imaginação… Mas que posso eu fazer contra esta doida? Discipliná-la? Quem dera. Mas ela pode mais do que eu. Um nada me deita a terra, um nada me levanta, e levo a vida neste cai-não-cai, à espera não sei de quê, de um sentido, de um norte – e nada, a não ser confusão, tenho diante de mim. E o tempo passa, foge, e tudo é miserável, mesquinho e anti-humano. Sou sibilino, bem vejo, mas um dia serei mais claro, se tiver paciência para me ouvir. A não ser que a consciência da insignificância essencial de tudo isto (dos meus problemas) acabe por se impor e tornar mínimo o que hoje assume proporções de catástrofe…
(…) Gostei (o verbo é pobre) de saber que vem. Mas antes não viesse, se pensar nas razões que o fazem vir. Deixe lá os nossos Intelectuais: tirante morder, o mais que fazem, o futuro julgará, e esta porca sociedade de elogio mútuo ou este permanente ajuste de contas de gangs rivais, não merecem mais que desprezo. Neste triste país, o sage é o homem calado que não quer conhecer ninguém nem quer que o conheçam. Há dias fui ao jantar de entrega do Prémio Camilo à Isabel da Nóbrega: é de morrer. Tanta impostura, tanta falsidade, tanto esforço para parecer mais inteligente que o vizinho, e sobretudo mais célebre. E tudo isto sob a capa de modéstia jesuítica, uma capa cheia de buracos de orgulho e de inveja. E esta gente é a nata, e esta gente conduz, orienta, dá entrevistas, pontifica, tem opiniões acerca de tudo e de coisa nenhuma. E todos, seja qual for a cor da epiderme, têm um lema: «Hors l’église (notre église) pas de salut!» E com medo de não nos salvarmos, lá vamos para a sombra do campanário que mais sólido parece, mas sempre com o olho no campanário do vizinho, não vá acontecer que a salvação não esteja afinal onde a supúnhamos. Há excepções, claro, há gente digna, sem dúvida, mas a balbúrdia não deixa que as suas vozes se oiçam, e quando, através da confusão, do burburinho, se ouve uma voz honesta, responsável, logo a irmandade se faz, logo os campanários afinam os rebates – e enquanto o intruso não se cala, justos céus, é ver quem mais bate.
Mas venha, já que tem de vir. Tem aqui um amigo que o receberá com os braços e o coração aberto, um amigo que lhe fará companhia mas que não imporá a sua presença. Conversaremos, falar-me-á de si, eu falar-lhe-ei de mim, das suas e das minhas coisas. A mim sei eu que me fará bem a sua vinda.
(…) Um grande e apertado abraço do seu

José Saramago»

[in Correspondência 1959-1971, de José Rodrigues Miguéis e José Saramago, organização e notas de José Albino Pereira, Caminho, 2010]

Imprensa cor-de-asco

Há a imprensa cor-de-rosa e há a imprensa cor-de-asco. Exemplo: a edição de hoje do Correio da Manhã. Na capa, a morte de José Saramago foi remetida para um espacinho mínimo, perdido no caos dos 15-destaques-15 de primeira página. Mas mais triste do que ver Saramago posto quase ao mesmo nível do professor que «mostra pénis e dá aulas», é a chamada em si mesma. Para o Correio da Manhã, o desaparecimento de um grande escritor português (Nobel, etc.) não tem a mínima importância; o que importa é que o Estado paga a viagem de avião que trouxe o corpo do escritor de regresso ao seu país. Lamentável, lamentável, lamentável, mil vezes lamentável. Já disse que isto é digno de uma imprensa cor-de-asco, mas chamar-lhe cor-de-asco parece-me agora um eufemismo.

Uma lenda grega

Das várias dezenas de depoimentos publicados hoje na imprensa portuguesa sobre a morte de José Saramago, parece-me que o melhor foi o da escritora Hélia Correia, no modo como escapa ao inevitável esquematismo (e consequente banalidade) dos elogios fúnebres:

«Diz a lenda o que a história não confirma: que, no tempo em que Sófocles morreu, a Atenas que tanto o venerou e que tão venerada foi por ele se encontrava cercada pelos espartanos. A aldeia natal do dramaturgo encontrava-se então fora de portas, inacessível aos atenienses. O deus do teatro apareceu então nos sonhos de Lisandro, o general das tropas sitiantes. Ordenava que abrissem alas para dar passagem ao cortejo funerário. Lisandro obedeceu sem hesitar. Todos, atenienses e espartanos, se inclinaram com vénia e com lamento, ante o corpo do grande criador. Não consigo fazer elogios fúnebres. Digo “não” ao louvor de circunstância. Palavras e palavras vão cair com um grande barulho neste dia e todas elas ficarão aquém da grandeza deste homem. Que houve entre nós um luminoso afecto é coisa que me diz respeito a mim e sobre a qual não tenho que escrever. Que tenho um pensamento de triunfo é o que eu gostaria de explicar. Porque há aqui triunfo: a plenitude de um cidadão inteiramente dedicado à sua polis e aos seus contemporâneos. E a plenitude de um “poeta”, daquele que faz obra e é por ela tornado glorioso. É o homem na sua existência absoluta. O homem que, sabendo-se mortal e não acreditando num Além, se empenha soberbamente em viver e criar com um fulgor e com uma coragem que os crentes desconhecem ou receiam.
Para além do meu preito pessoal, que não se há-de resumir a depoimento, eu imagino aqui uma cidade que o leva em ombros – e os inimigos a abrirem caminho e a curvarem-se. Se os gregos inventaram esta lenda, é para que a memória a active quando um homem como Saramago nos deixa.»

Luto

Em reunião extraordinária do Conselho de Ministros, o Governo decretou dois dias de luto nacional (sábado e domingo) pela morte de José Saramago. Na ilha de Lanzarote, onde o escritor passou a viver, nos anos 90, depois do célebre veto de Sousa Lara à candidatura de O Evangelho segundo Jesus Cristo a um prémio literário europeu, o luto será de três dias.

Cerimónias fúnebres

Da Fundação José Saramago, recebi este comunicado:

«A Fundação José Saramago comunica que o corpo do Escritor se encontra hoje na Biblioteca José Saramago, em Lanzarote. Na sala José Saramago da Fundação César Manrique, em Arrecife (Lanzarote), leitores da sua obra procederão a leituras espontâneas. Amanhã, dia 19 de Junho, um avião do Estado português transportará o corpo para Lisboa, estando prevista a sua chegada ao Aeroporto de Figo Maduro pelas 12h30, de onde seguirá em cortejo para o Salão Nobre da Câmara Municipal de Lisboa. Aí permanecerá em câmara ardente até às 12h00 de Domingo, dia 20 de Junho, de onde sairá para o Cemitério do Alto de São João, onde será cremado.»

Morreu José Saramago

Acabei de saber que José Saramago morreu hoje, na sua casa de Lanzarote, aos 87 anos. Como não vou poder actualizar o blogue nas próximas horas, justamente por causa desta infeliz notícia, assinalo para já o meu desgosto e a minha tristeza pela perda de um grande, de um imenso escritor.

O elefante de Saramago viajou para o Reino Unido…

capa_saramago_uk

… e agora olha de frente os leitores britânicos, nesta bela capa da Vintage Books.

O que aí vem (Caminho)

correspondencia

Com organização e notas de José Albino Pereira, este livro reúne as cartas trocadas entre José Rodrigues Miguéis e José Saramago (1959-1971), 12 anos em que o segundo foi editor do primeiro, na Estúdios Cor. Segundo a Caminho, esta correspondência abarca um «período fecundo da actividade literária de José Rodrigues Miguéis e nela estão reflectidos todos os problemas que neste campo surgem – os contratos de edição, a editora que atrasa a edição do livro, o autor que atrasa a entrega do novo original, a circulação das provas, a definição da mancha gráfica, a escolha do papel, as capas, a promoção do livro e a falta dela, a boa ou má colocação do livro nas livrarias, as contas, os pagamentos…» Mas não só. Também há «apreciações literárias sobre livros próprios e alheios, aspectos relativos à Censura, comentários políticos (assassinato de Kennedy, assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores), dúvidas e certezas de Miguéis sobre os seus livros, dúvidas e certezas de Saramago sobre os seus poemas, aspectos relevantes sobre a vida pessoal, etc.», tendo sempre «como pano de fundo a amizade entre dois homens que se respeitavam e se admiravam».

Depois do ‘Caderno’, os ‘Cadernos’

José Saramago deixou de escrever posts no seu blogue, mas a presença do Nobel na blogosfera não esmorece. Fechado o Caderno que já deu dois livros (este e este), abrem-se os Outros Cadernos de Saramago, onde «irão aparecendo anotações ou fragmentos já acabados das várias obras», mas «também poemas ou breves reflexões escritas no caminho» e «declarações que o nosso autor um dia proferiu e que o explicam e nos explicam».

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«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges