Mais do que boas intenções, diz o Nobel
Sobre a campanha “Uma Jangada de Pedra a caminho do Haiti”, explicada no post anterior, José Saramago escreveu o seguinte:
«As minhas palavras serão de agradecimento. A Fundação José Saramago teve uma ideia, louvável por definição, mas que poderia ter entrado na história como uma simples boa intenção, mais uma das muitas com que dizem estar calcetado o caminho para o inferno. Era a ideia editar um livro. Como se vê, nada de original, pelo menos em princípio, livros é o que não falta. A diferença estaria em que o produto da venda deste se destinaria a ajudar as vítimas sobreviventes do sismo do Haiti. Quantificar tal ajuda, por exemplo, na renúncia do autor aos seus direitos e numa redução do lucro normal da editora, teria o grave inconveniente de converter em mero gesto simbólico o que deveria ser, tanto quanto fosse possível, proveitoso e substancial. Foi possível. Graças à imediata e generosa colaboração das entidades que participam na feitura e difusão de um livro, desde a fábrica de papel à tipografia, desde o distribuidor ao comércio livreiro, os 15 euros que o comprador gastará serão integralmente entregues à Cruz Vermelha para que os faça seguir ao seu destino. Se chegássemos a um milhão de exemplares (o sonho é livre) seriam 15 milhões de euros de ajuda. Para a calamidade que caiu sobre o Haiti 15 milhões de euros não passam de uma gota de água, mas A Jangada de Pedra (foi este o livro escolhido) será também publicada em Espanha e no mundo hispânico da América Latina. Quem sabe então o que poderá suceder? A todos os que nos acompanharam na concretização da ideia primeira, tornando-a mais rica e efectiva, a nossa gratidão, o nosso reconhecimento para sempre.
José Saramago»
Uma ‘Jangada’ inteira para apoiar as vítimas do sismo no Haiti

Na próxima sexta-feira, chega às livrarias uma nova edição do romance A Jangada de Pedra, de José Saramago, destinada a contribuir para a ajuda humanitária às vítimas do sismo no Haiti. A iniciativa é explicada no seguinte comunicado da LeYa, emitido ontem ao fim da tarde:
«O Grupo Leya, a Editorial Caminho e a Fundação José Saramago lançam hoje, junto com vários parceiros, a campanha “Uma Jangada de Pedra a caminho do Haiti”, acção de solidariedade para com as vítimas do sismo no Haiti. A ajuda será dada através da venda de uma edição especial do livro “A Jangada de Pedra”, disponível nas livrarias portuguesas a partir da próxima sexta-feira. Os 15 euros do valor do livro serão directamente doados, na sua totalidade, para o Fundo de Emergência da Cruz Vermelha Portuguesa.
No seguimento de uma ideia da Fundação José Saramago, a Leya mobilizou a sua estrutura, bem como todo um conjunto de entidades, de modo a tornar possível esta campanha, inédita em Portugal e operacionalizada em tempo recorde. A grande disponibilidade demonstrada pelos parceiros permitiu colocar em marcha esta acção. Estão envolvidos na campanha as seguintes empresas: Agfa, Eigal, Plásticos Pando, JDC, Ibero Fibra, Torras Papel, Inapa, Gráfica 99 e Ideias com Peso. Das entidades que aceitaram prontamente colaborar fazem também parte as livrarias e grandes superfícies que ofereceram os seus espaços para a venda do livro: Almedina, Bertrand, Sonae, Fnac, Auchan e Press Linha, bem como muitas outras das principais livrarias um pouco por todo o país serão os locais onde o livro poderá ser encontrado. Todos se disponibilizaram para trabalhar gratuitamente em prol do sucesso desta iniciativa.
As editoras de José Saramago em Espanha e na América Latina vão avançar com campanhas semelhantes nos respectivos países.
Ao empenho de todos os parceiros envolvidos, junta-se agora o desejo de que a comunidade corresponda, dirigindo-se às livrarias e adquirindo esta edição especial, sabendo que ao fazê-lo estará a realizar um donativo directo, no valor de 15 euros, para a Cruz Vermelha que, por sua vez, o aplicará no seu esforço de apoio às vítimas do sismo no Haiti.
Trata-se da primeira campanha na qual o valor total de um livro reverte na íntegra para uma causa humanitária. É também a primeira vez que editoras, papeleiras, gráficas, transportadoras e o retalho se unem neste tipo de acção.
A campanha “Uma Jangada de Pedra a caminho do Haiti” prolongar-se-á até 28 de Fevereiro de 2010.»
70%
Presente no Museu Municipal de Penafiel para a atribuição do Prémio que ostenta o seu nome, José Saramago insistiu nesta ideia: «Tal como o corpo humano é composto por 70% de água, a literatura compõe-se de 70% de linguagem.» Após um discurso improvisado e longo, cheio de derivas e referências aos clássicos (Padre António Vieira, D. Francisco Manuel de Melo), Saramago dirigiu-se por fim a João Tordo, dizendo-lhe (talvez com menos entusiasmo do que seria de esperar) que gostou de As Três Vidas, obra que revela raros dotes de efabulação: «Ele não perde nunca o pé na narrativa, nunca se afoga.» E depois deixou um conselho: «Caro João, cuide sempre da linguagem, defenda-a, proteja-a. Não se esqueça: ela é 70% da arte literária.»
Quanto a João Tordo, afirmou ser este um prémio que premeia o futuro e não o passado. «É para o que ainda se vai fazer, não para o que já se fez.»
Primeiro parágrafo do novo romance de José Saramago
«Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de rugidos e mugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama.»
[in Caim, Caminho, 2009]
Água
Em Caim, José Saramago grafa os nomes das personagens, sejam elas figuras bíblicas ou o próprio Deus, em caixa baixa. A regra não se estende à dedicatória, com Pilar a ser poupada à razia das maiúsculas (e algum significado haverá nisto). Seja como for, é uma bela dedicatória:
«A Pilar, como se dissesse água»
Uma notícia falaciosa
Na edição de ontem do Diário de Notícias, foi publicada uma notícia sobre a suposta «polémica» entre mim e José Saramago. O texto, assinado por um antigo camarada de redacção, era tão confuso e infeliz que preferi não o comentar, para que não aumentasse ainda mais o ruído em torno de um assunto que não merece tamanho bruaá. Acontece que muitas pessoas me telefonaram, enviaram SMS ou e-mails, perplexas e curiosas com o «caso Saramago» que o DN divulgara e que elas, naturalmente, não conseguiam compreender lá muito bem.
Para colocar uma pedra sobre o assunto, publico agora a dita notícia (já que não encontrei o respectivo link na edição online do jornal), seguida de breves comentários aos seus equívocos:
Título: ‘Tiro’ de Saramago fere ‘blogger’
Pós-título: Polémica. José Mário Silva responde ao texto do Nobel após publicação de crítica sobre ‘O Caderno’
Legenda da foto (capa de ‘O Caderno’): O livro de Saramago em causa
Texto: «A crónica que ontem José Saramago publicou neste jornal (e no seu blog) provocou uma rápida e polémica resposta no blogue do visado, José Mário Silva, pois o crítico do Expresso não aceitou a quebra de um hábito do Nobel, de “não responder e nem sequer comentar qualquer apreciação feita ao meu trabalho”. Mas Saramago comentou e o crítico ripostou em longo texto às suas críticas e sobre o direito de ambos à indignação, referindo que ela é “um dever” e que “pode funcionar como uma arma poderosa que ao atingir o alvo também pode provocar danos colaterais”, principalmente se “a carregar no imaginário gatilho está uma figura com a influência e o poder mediático de um Prémio Nobel”. O “tiro” de Saramago, diz, “tornou-o num blogger de pleno direito” e pôs fim a uma das críticas feitas por Mário Silva. As outras, esperam-se os próximos capítulos.»
Assinatura: João Céu e Silva
Para que conste:
- O título é um disparate: nem Saramago disparou qualquer “tiro” sobre mim (mesmo supondo que o projéctil sairia da “arma”-indignação), nem eu me senti ferido. A violência da imagem, com um cheirinho a pólvora e tudo, pretendeu apenas alimentar a ideia de uma animosidade que nunca existiu no meu diálogo com Saramago. Parece-me óbvio o intuito de criar polémica à força – percepção corroborada por todas as pessoas que me falaram da peça. Na gíria jornalística, costuma-se dizer que certas notícias só são feitas “se houver sangue”. Não havendo sangue, como neste caso, inventa-se o sangue.
- João Céu e Silva sugere que eu não aceitei a «quebra de um hábito do Nobel»: o de não responder a quem escreve sobre as suas obras. Mas por que carga de água é que eu não aceitaria um gesto nobre e generoso como este, ainda por cima inédito? Então o nosso Prémio Nobel dispõe-se a discutir com um interlocutor quase 50 anos mais novo e o interlocutor quase 50 anos mais novo ia assim, sem mais nem menos, torcer o nariz à iniciativa do consagrado? Caberá isto na cabeça de alguém? Na minha não cabe. Na sua, caro leitor, creio que também não.
- Há também uma citação truncada. E poucas coisas me exasperam mais do que uma citação truncada. Onde eu escrevi «(…) convém não esquecer que a indignação pode funcionar como uma arma. Uma arma poderosa, mas que ao atingir o alvo (através das denúncias do que está mal no mundo, por exemplo) também pode provocar danos colaterais», João Céu e Silva transcreveu «pode funcionar como uma arma poderosa que ao atingir o alvo também pode provocar danos colaterais», aproximando dois «pode» que estavam a uma razoável distância um do outro (e subitamente deixaram de estar). Nestes casos, costuma-se assinalar os cortes com o tradicional parêntesis com reticências lá dentro. Não custa nada (até recorri a um, lá mais para cima), mas Céu e Silva esqueceu-se de o usar. Foi pena.
- Quanto às duas últimas frases, são tão crípticas que dispensam comentários. Quem quiser (e tiver paciência), que leia o texto de Saramago, depois a minha réplica, e tire as suas próprias conclusões.
Resposta a uma resposta
Antes do mais, deixem-me confessar o meu espanto. Sabendo que José Saramago nunca se pronuncia sobre os comentários à sua obra, descobrir as palavras que hoje me dedica (ainda por cima em duplicado, na blogosfera e na imprensa) foi mais do que uma surpresa. Diria que representou uma espécie de choque eléctrico (ainda sinto as chispas na ponta dos dedos). Primeira reacção: incredulidade. Será isto a brincadeira de um hacker? Ou estará o Prémio Nobel a dirigir-se de facto a este humilde crítico literário e a pedir, «por favor», que eu esclareça um dos meus juízos? Não, não era brincadeira de um hacker. E sim, Saramago decidiu-se mesmo a interpelar, com veemência mas bons modos, o autor de uma crítica que lhe pareceu, num determinado aspecto, injusta.
À primeira leitura, foi assim que interpretei o texto. E já me preparava para lhe responder (como responderei mais à frente), quando me apercebi do verdadeiro objectivo da interpelação, um propósito claríssimo que estava mesmo ali, por baixo do meu nariz, meio escondido nas entrelinhas e interstícios da prosa, mas que me escapou por completo. Mais do que uma defesa do seu livro, ou do modo como o escreveu, o que Saramago quis fazer foi um bem achado exercício de ironia. Reparem que o escritor começa por me dar razão: tal como sugeri, ele admite que nunca interage com a restante blogosfera, pelo que não deve ser considerado um verdadeiro blogger. Acontece que Saramago faz esta observação no seu blogue, em resposta a um interlocutor que ele sabe ser um elemento activo da blogosfera. Ou seja, é no preciso momento em que se assume como não-blogger que ele se torna um blogger de pleno direito, estabelecendo finalmente o diálogo com os seus pares na «página infinita da internet» – condição nunca cumprida de um estatuto (o de blogger) que era, pelo menos até agora, abusivo atribuir-lhe.
Com tudo isto, não pretendo deixar para segundo plano as questões concretas que Saramago me dirige, sobre o simplismo das suas análises e o alegado excesso de indignação. Convém recuperar, do meu texto, a passagem em causa:
Há nestas diatribes um excesso de indignação, um certo simplismo na análise dos problemas? Talvez. O certo é que Saramago nos atira à cara os lados mais negros da realidade, vergonhas inadmissíveis que outros preferem esconder ou ignorar.
Em primeiro lugar, não afirmo que há excesso de indignação e simplismo. Admito que exista (isto é, a meu ver existe) mas o «talvez» está lá para sublinhar que se trata da minha percepção – e, estou certo disso, da percepção de muitos leitores. Para outros, a resposta à pergunta seria, estou igualmente certo disso, um rotundo «não». O «talvez» instaura ainda uma ambiguidade que a frase seguinte desfaz. Por muito que haja excessos de indignação e fragilidades argumentativas, Saramago confronta-nos com «vergonhas inadmissíveis que outros preferem esconder ou ignorar». A importância e o impacto das denúncias não está em causa, apenas o modo como elas são feitas.
Exemplifiquemos. Quando me referi ao «simplismo na análise dos problemas», tinha em mente alguns comentários que, lidos à letra, caem no pecado mortal da generalização grosseira (e, por isso, perigosa). Veja-se, nas páginas 27/28, este excerto de um texto sobre Berlusconi:
«Salvo o que é do conhecimento geral, sei pouquíssimo da vida e milagres de Silvio Berlusconi, il Cavalieri. Muito mais do que eu há-de saber com certeza o povo italiano que uma, duas, três vezes o sentou na cadeira de primeiro-ministro. Ora, como é costume ouvir dizer, os povos são soberanos, e não só soberanos, mas também sábios e prudentes, sobretudo desde que o continuado exercicio da democracia facilitou aos cidadãos certos conhecimentos úteis sobre como funciona a política e sobre as diversas formas de alcançar o poder. Isto significa que o povo sabe muito bem o que quer quando o chamam a votar. No caso concreto do povo italiano, que é dele que estamos falando, e não de outro (já chegará sua vez), está demonstrado que a inclinação sentimental que experimenta por Berlusconi, três vezes manifestada, é indiferente a qualquer consideração de ordem moral. Realmente, na terra da mafia e da camorra, que importância poderá ter o facto provado de que o primeiro-ministro seja um delinquente? Numa terra em que a justiça nunca gozou de boa reputação, que mais dá que o primeiro-ministro faça aprovar leis à medida dos seus interesses, protegendo-se contra qualquer tentativa de punição dos seus desmandos e abusos de autoridade? (…) O que não estará nada bem é que o povo italiano venha a chegar uma quarta vez às pousadeiras de Berlusconi a cadeira do poder.» (negritos meus)
Mesmo tendo em conta o registo irónico, se um escritor italiano se referisse a Portugal nos termos em que Saramago se refere a Itália, pondo em causa a sua Justiça e o seu sistema democrático, que reacções não se levantariam por cá? Eu, não sendo italiano, mas conhecendo muitos italianos que odeiam a odiosa figura de Berlusconi tanto ou mais (muito mais, porque o sofrem na pele) do que Saramago, contorci-me todo na cadeira ao ler aquele venenoso e abusivo «na terra da mafia e da camorra».
Outro exemplo. Abrir nas páginas 50/51:
«Vivemos numa sociedade que parece ter feito da violência um sistema de relações. A manifestação de uma agressividade que é inerente à espécie que somos, e que em tempos pensámos, pela educação, haver controlado, irrompeu brutalmente das profundidades nos últimos vinte anos em todo o espaço social, estimulada por modalidades de ócio que viraram as costas ao já simples hedonismo para se transformarem em agentes condicionadores da própria mentalidade do consumidor: a televisão, em primeiro lugar, onde imitações de sangue, cada vez mais perfeitas, saltam em jorros a todas as horas do dia e da noite, os video-jogos que são como manuais de instruções para alcançar a perfeita intolerância e a perfeita crueldade, e, porque tudo isto está ligado, as avalanchas de publicidade de serviços eróticos a que os jornais, incluindo os mais bem-pensantes, dão as boas-vindas, enquanto nas páginas sérias (são-no algumas?) abundam hipocritamente em lições de boa conduta à sociedade. Que estou a exagerar? Expliquem-me então como foi que chegámos à situação de muitos pais terem medo dos filhos, desses gentis adolescentes, esperanças do amanhã, em quem um “não” do pai ou da mãe, cansados de exigências irracionais, instantaneamente desencadeia uma fúria de insultos, de vexames, de agressões. Físicas, para que não fiquem dúvidas. Muitos pais têm os seus piores inimigos em casa: são os seus próprios filhos. Ingenuamente, Ruben Darío escreveu aquilo da “juventud, divino tesoro”. Não o escreveria hoje.»
Mesmo que exista alguma verdade nesta visão dantesca da juventude actual, creio que «exagero» e «simplismo» só não definem bem esta tese por serem, neste caso, eufemismos. E era a isto que me referia com o «excesso de indignação». Não tanto indignação em excesso – até porque a indignação nunca é demais, precisamos realmente dela como de pão para a boca –, mas indignação que leva a excessos. Excessos de retórica e excessos no julgamento das realidades, sejam elas o sistema democrático ocidental (com todos os seus defeitos) ou a suposta agressividade dos jovens de hoje, que a mim me parecem tão agressivos como os jovens de outras décadas, embora talvez tivessem mais razões para o serem.
A pergunta que Saramago me coloca é muito concreta: «Há limites para a indignação?» E eu respondo: não, claro que não há limites. Mais do que um direito (como defendeu, noutras circunstâncias, Mário Soares), a indignação é um dever. Dito isto, convém não esquecer que a indignação pode funcionar como uma arma. Uma arma poderosa, mas que ao atingir o alvo (através das denúncias do que está mal no mundo, por exemplo) também pode provocar danos colaterais. E mais ainda quando, a carregar no imaginário gatilho, está uma figura com a influência e o poder mediático de um Prémio Nobel da Literatura.
Uma resposta de José Saramago (com uma pergunta lá dentro)
O seguinte texto foi publicado hoje, tanto no blogue O Caderno de Saramago como na edição em papel do Diário de Notícias:
«Diz José Mário Silva na crítica a O Caderno, publicada no Actual do último Expresso que não sou um verdadeiro bloguer. Di-lo e demonstra-o: não faço links, não dialogo directamente com os leitores, não interajo com a restante blogosfera. Já o sabia eu, mas a partir de agora, se mo perguntarem, tomarei como minhas as razões de José Mário Silva e arrumarei definitivamente o assunto. De todo o modo, não venho queixar-me de uma crítica que é bem-educada, pertinente, elucidativa. Dois pontos, porém, me levam a sair à estacada, quebrando, pela primeira vez, uma decisão que até hoje foi por mim cumprida à risca, a de não responder nem sequer comentar qualquer apreciação feita ao meu trabalho. O primeiro ponto tem que ver com um suposto simplismo das análises dos problemas que me caracterizaria. Poderia responder que o espaço não dá para mais, mas quem, de verdade, não dá para mais sou eu próprio, uma vez que me faltam as habilitações indispensáveis a um analista profundo, como os da Escola de Chicago, que, apesar de tão dotados, deram com os burrinhos na água, pois nunca passou pelos seus privilegiados cérebros a hipótese de uma crise arrasadora que qualquer análise simplista seria capacíssima de prever. O outro ponto é mais sério e justifica, só por si, esta em alguns aspectos inopinada intervenção. Refiro-me aos meus alegados excessos de indignação. De uma pessoa inteligente como José Mário Silva esperaria eu tudo menos isto. A minha pergunta será portanto tão simples como as minhas análises: há limites para a indignação? E mais: como se pode falar de excessos de indignação num país em que precisamente, com as consequências que estão à vista, ela vem faltando? Meu caro José Mário, pense nisto e ilustre-me com a sua opinião. Por favor.»
Responderei à «inopinada intervenção» de Saramago – e à pergunta que me dirige – já a seguir.
Crónicas de um blogger que não o chega a ser
O Caderno
Autor: José Saramago
Editora: Caminho
N.º de páginas: 221
ISBN: 978-972-21-2042-5
Ano de publicação: 2009
Uma vez restabelecido do «colapso orgânico total» que quase lhe custou a vida, em Dezembro de 2007, o octogenário José Saramago regressou ao trabalho – esse «remédio universal» – com uma energia de fazer inveja a muitos rapazes. Entre os afazares da sua Fundação, a agenda muitíssimo preenchida e a escrita de dois romances (A Viagem do Elefante, já publicado; e outro entretanto entregue ao editor), Saramago estreou-se como blogger, escrevendo um texto por dia, cinco dias por semana, naquela a que chama «a página infinita da internet» (endereço: caderno.josesaramago.org/). Em O Caderno, primo dos cinco Cadernos de Lanzarote publicados na década de 90 (mas muito menos autocentrado do que esses diários pré-Nobel), reúnem-se todos os textos surgidos durante os seis primeiros meses de actividade do blogue, de Setembro de 2008 a Março de 2009.
Na verdade, Saramago está nos antípodas dos verdadeiros bloggers. Não faz links, não dialoga directamente com os leitores, não interage com a restante blogosfera. Limita-se a escrever as prosas breves que outros depois colocam online – o que já não é pouco. Na sua própria definição, no blogue cabem «comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice». Das qualidades que se pedem a quem escreve neste novo meio, o escritor pode orgulhar-se de possuir duas das mais importantes: a constância e o esmero estilístico. Mesmo não sendo este um Saramago vintage, reconhecemos sempre, em cada parágrafo, em cada frase, em cada linha de raciocínio, o seu estilo tão característico. E reconhecemos também alguns dos seus ódios de estimação (George W. Bush; Berlusconi; a Igreja Católica), bem como várias das suas causas (a memória das vítimas do franquismo ou a luta dos palestinianos contra Israel). Não haverá exagero se dissermos que o tema central deste livro, e de quase toda a escrita opinativa de Saramago, é o desconcerto do mundo.
Pessimista, o escritor revolta-se com as mentiras que circulam «impunemente por toda a parte», aponta o dedo aos políticos que considera responsáveis pela hecatombe mundial, preocupa-se com a falta de reacção das esquerdas, e disseca longamente esse crime contra a humanidade que é a crise financeira nascida da cupidez e desvergonha dos banqueiros. Há nestas diatribes um excesso de indignação, um certo simplismo na análise dos problemas? Talvez. O certo é que Saramago nos atira à cara os lados mais negros da realidade, vergonhas inadmissíveis que outros preferem esconder ou ignorar.
Os melhores textos, porém, não são os de pendor político. São os outros. Aqueles em que Saramago se liberta da pose de intelectual empenhado e evoca escritores (Eduardo Lourenço, Jorge Amado, Carlos Fuentes) ou figuras que admira (Rita Levi-Montalcini, Federico Mayor Zaragoza, Baltasar Garzón), fala dos seus cunhados ou de Susi (a «elefanta solitária» e triste do jardim zoológico de Barcelona), reflecte a partir de um mote («como serão as coisas quando não estamos a olhar para elas?») ou demonstra uma surpreendente generosidade (ao antever, por exemplo, um futuro Nobel da Literatura para Gonçalo M. Tavares).
Mesmo quando aparentemente desdenha do valor ou importância destes textos escritos em cima do momento, sem rede nem recuo, Saramago não ignora que eles traçam um retrato intelectual, psicológico e por vezes sentimental do homem que ele é, aos 86 anos, diante de um mundo que considera perdido, caótico, rompendo-se pelas costuras, talvez sem saída, mas que continua, no seu jeito oblíquo, a amar. «Creio que todas as palavras que vamos pronunciando, todos os movimentos e gestos, concluídos ou somente esboçados, que vamos fazendo, cada um deles e todos juntos, podem ser entendidos como peças soltas de uma autobiografia não intencional que, embora involuntária, ou por isso mesmo, não seria menos sincera e veraz que o mais minucioso dos relatos de uma vida passada à escrita e ao papel.» Talvez não seja exagerado ver, neste Caderno feito justamente de «peças soltas», um capítulo dessa «autobiografia não intencional» que continuará a crescer, esperemos, ainda por muitos e bons anos.
Avaliação: 6,5/10
[Versão longa de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]
Agustina por Saramago
«Não é diminuí-la dizer que a vastíssima e poderosa obra de Agustina Bessa-Luís tem, entre todas as mais leituras, uma leitura sociológica. Cada um no seu terreno, cada um no seu tempo, cada um segundo as suas especificidades pessoais e artísticas, Balzac e Agustina Bessa-Luís fizeram o mesmo: observar e relatar. O século XIX francês compreender-se-á melhor lendo Balzac. A luz que irradia da obra de Agustina ajudar-nos-á a ver com mais nitidez o que foi a mentalidade de certa classe social no século XX. E também, já agora, a do final do nosso século XIX.»
Texto completo aqui.
Lançamento de ‘O Caderno’ (resumo)
Palavras
«Não pode haver conferência de imprensa sem palavras, em geral muitas, algumas vezes demasiadas. Pilar insiste em recomendar-me que dê respostas breves, fórmulas sintéticas capazes de concentrar longos discursos que ali estariam fora de lugar. Tem razão, mas a minha natureza é outra. Penso que cada palavra necessita sempre pelo menos outra que a ajude a explicar-se. A coisa chegou a um ponto tal que, de há tempos a esta parte, passei a antecipar-me às perguntas que supostamente me farão, procedimento facilitado pelo conhecimento prévio que venho acumulando sobre o tipo de assuntos que aos jornalistas mais costumam interessar. O divertido do caso está na liberdade que assumo ao iniciar uma exposição dessas. Sem ter de preocupar-me com os enquadramentos temáticos que cada pergunta específica necessariamente estabeleceria, embora não fosse essa a sua intenção declarada, lanço a primeira palavra, e a segunda, e a terceira, como pássaros a que foi aberta a porta da gaiola, sem saber muito bem, ou não o sabendo de todo, aonde eles me levarão. Falar torna-se então numa aventura, comunicar converte-se na busca metódica de um caminho que leve a quem estiver escutando, tendo sempre presente que nenhuma comunicação é definitiva e instantânea, que muitas vezes é preciso voltar atrás para aclarar o que só sumariamente foi enunciado. Mas o mais interessante em tudo isto é descobrir que o discurso, em lugar de se limitar a iluminar e dar visibilidade ao que eu próprio julgava saber acerca do meu trabalho, acaba invariavelmente por revelar o oculto, o apenas intuído ou pressentido, e que de repente se torna numa evidência insofismável em que sou o primeiro a surpreender-me, como alguém que estava no escuro e acabou de abrir os olhos para uma súbita luz. Enfim, vou aprendendo com as palavras que digo. Eis uma boa conclusão, talvez a melhor, para este discurso. Finalmente breve.»
[in O Caderno, de José Saramago, Caminho, 2009]
Sobre a edição italiana de ‘O Caderno’
Após a recusa da Einaudi em publicar O Caderno (por causa dos ataques violentos de Saramago a Berlusconi, proprietário da editora milanesa), já se sabia que o livro seria publicado por outra editora importante: a Bollati Boringhieri. Mas ontem Pilar del Río deu uma notícia, julgo que em primeira mão: em Outubro, a obra de Saramago será apresentada por três pesos-pesados da literatura italiana. Em Turim, cidade onde fica a sede da Bollati Boringhieri, será Claudio Magris a falar do livro. Em Milão, Umberto Eco. E, em Roma, o também Prémio Nobel (de 1997) Dario Fo.

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Me, Isabel and Saramago (3)
Quando alguém fala com José Saramago, o mais difícil é interrompê-lo. Feita a pergunta, o escritor lança-se em longos raciocínios que se estendem sempre um pouco mais para a frente, numa cadência que raras vezes permite a intromissão da pergunta seguinte. Durante a sessão de ontem, Pilar del Río murmurou várias vezes, «faça-lhe a pergunta, faça-lhe a pergunta», mas nem sempre tive coragem de interromper as elaboradas divagações – por vezes semelhantes, em estilo e forma, aos exercícios digressivos dos seus narradores.
Na verdade, Saramago falou sempre como aquilo que é: um escritor. Não um blogger (ou bloguista, ou blogueiro, ou o que quiserem chamar-lhe), mas um escritor. O que lhe interessa é a escrita, a escolha das palavras certas, o prazer de comunicar o que pensa sobre o mundo, as pessoas, os actos, os gestos ou os livros dos outros. Fazê-lo através de um blogue não passa de uma contingência, quase um acaso, uma prova do seu amor por Pilar, que o empurrou gentilmente para um meio (a Internet) que não é o seu. Em duas das perguntas, chamei a atenção para o facto de faltar ao blogue de Saramago quase tudo o que faz com que um blogue seja um blogue: os links são raríssimos, não há blogroll, nem comentários, nem qualquer tipo de interacção com os leitores ou com a restante blogosfera. Saramago assume o solipsismo: ele escreve o que escreve, quem quiser lê, quem não quiser não lê, ponto final. «Eu estou apenas emprestado à Internet», disse, evocando o seu individualismo e a necessidade de não perder mais do que uma hora por dia, ou hora e meia, com as actividades online. Não por acaso, o seu interesse pelo Facebook, Twitter e redes afins é nulo.
Conclusão: como supúnhamos, Saramago tem uma relação problemática com a tecnologia, resolvida por Pilar del Río (que o incentiva a escrever) e pelo apoio técnico de alguns elementos da Fundação Saramago. Em sentido estrito, chamar-lhe blogger é um exagero. Os seus textos no blogue não são posts; são crónicas breves que alguém coloca online, com o imediatismo que a blogosfera permite. E isso já é muito. Que o digam os seus admiradores espalhados pelo planeta, entre os quais aquele leitor, lembrado por Pilar, que todos os dias traduz as prosas saramaguianas para lituano.
Por falar nisto, deixo-vos um episódio que se passou minutos antes do início da sessão. Na sala ao lado, Saramago mantinha uma conversa de circunstância, comigo e com a Isabel Coutinho. Entra um elemento do staff técnico, prende um microfone de lapela ao casaco de Saramago, sai e nós continuamos a inocente charla. Daí a nada, aparece Pilar, a sorrir: «É só para avisar que devem ter cuidado com o que dizem. Telefonaram-me agora, tanto de Lanzarote como da Argentina, a dizer que estão a ouvir a vossa conversa através da Internet.»
Lançamento de ‘O Caderno’ (imagens)

Da esquerda para a direita: Zeferino Coelho (editor da Caminho), Isabel Coutinho, José Saramago, eu e Pilar del Río (presidenta da Fundação José Saramago)
Fotografias: Vítor Dinis Silva
Me, Isabel and Saramago (2)
A sessão foi longa, eu não consegui acesso à net (e mesmo que tivesse conseguido, era impossível conversar e blogar ao mesmo tempo), a audiência pareceu gostar, pelo menos as cem pessoas presentes na sala (a que se deverão somar outras mil e tantas que assistiram online, segundo números provisórios do portal Sapo), mais tarde tentarei resumir aqui as minhas impressões sobre o encontro.
Entretanto, vale a pena ler o relato feito pela Sara Figueiredo Costa e a reportagem do Público (por enquanto sem link), assinada por Joana Amaral Cardoso, que curiosamente oblitera o «quem?» da checklist mental que qualquer jornalista vai riscando enquanto escreve uma notícia, fazendo passar a ideia (errada) de que Saramago falou sozinho.
Me, Isabel and Saramago
Se não houver problemas técnicos, a partir das 18h30 esta janela aqui em baixo começará a transmitir o lançamento do livro O Caderno, de José Saramago (Caminho), durante o qual o Nobel da Literatura 1998 responderá às perguntas da Isabel Coutinho, às minhas e às dos internautas espalhados pelo mundo inteiro.
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Espero que funcione.
Pilar del Río sobre ‘O Caderno’
«O Caderno não é um livro de crónicas jornalísticas, é um livro de vida. Aí Saramago conta cada dia o que o motiva, o que o indigna ou o que lhe apetece. Comenta o minuto, mas também recupera uma declaração de amor a Lisboa. Fala dos seus autores preferidos, com humor define as calças sempre impecavelmente vincadas de Carlos Fuentes, mas também o universo turbulento dos turcos de Jorge Amado descobrindo a América. Fala de Obama, sim, mas também de Bush, e do Papa, e de Garzón, e de Pessoa, e de Sigifredo López e Rosa Parks, de tantos lutadores pacíficos que conseguiram mudar o mundo ou o estão tentando, embora haja quem prepare receitas para matar um homem ou para condená-lo à fome, à miséria, a um estádio em que o humano acaba por desaparecer. E Saramago emociona-se com gente, com amigos, com pormenores… São seis meses de vida em que Saramago opta e conta com pinceladas que bem poderiam ser versos, reflexiona na companhia de quem o lê, propõe e não se cansa. Seis meses de cartas inteligentes para leitores inteligentes, sem artifícios e com tudo o que tem para dizer. Porque Saramago não se cala, expõe, entra, derruba montanhas ou aponta com o dedo se nesse dia não pode com a escavadora, ou são necessários mais para manejá-la, então diz que essa encosta é um impedimento, uma rémora, um obstáculo na vida de muita gente e avançamos para a deitar abaixo porque poderemos, se somos muitos.»
O texto completo da presidenta da Fundação José Saramago pode ser lido aqui.
Perguntas para Saramago
Logo à tarde (18h30) vou participar, com a Isabel Coutinho, na apresentação do livro O Caderno, de José Saramago, que reúne textos publicados pelo Nobel da Literatura português no seu blogue, aberto em Setembro de 2008. A editora Caminho tem apelado aos bloggers para transformarem o lançamento num happening digital, com transmissão em directo na Internet, quer através de um streaming de vídeo (que eu colocarei aqui, no Bibliotecário de Babel, num post só para esse fim, por volta das 18h00), quer através de perguntas feitas a Saramago pelo público que não estará presente (endereço: pergunteasaramago@sapo.pt).
Quem quiser colocar questões directas ao autor de O Ano da Morte de Ricardo Reis, pode também fazê-lo na caixa de comentários deste post (e do outro, o que abrirá uma janela para o vídeo), mesmo durante a sessão, uma vez que levarei o meu computador portátil para a mesa e estarei atento a todas as reacções que os leitores do Bibliotecário de Babel forem registando por aqui.
Lançamento d’ ‘O Caderno’ de José Saramago
Na próxima quinta-feira, dia 25, pelas 18h30, na Sala Coimbra B do Tiara Park Atlantic Hotel (antigo Méridien), em Lisboa, vou participar na apresentação multimédia do mais recente livro de José Saramago: O Caderno, recolha de posts publicados pelo Prémio Nobel no seu blogue, durante cerca de seis meses.
À conversa com Saramago, estarei eu e Isabel Coutinho, jornalista do Público e autora do Ciberescritas. Haverá transmissão vídeo em directo, através do portal SAPO Vídeos e quem estiver interessado pode fazer perguntas directas a Saramago, enviando-as para o endereço pergunteasaramago@sapo.pt.
Os bloggers em geral, e os que acompanham a vida literária em particular, estão convidados a participar no lançamento, comunicando o que por lá for acontecendo, em tempo real, para a blogosfera (e twittosfera, e facebookosfera, etc.).
‘Uma longa viagem com José Saramago’ no Brasil
O livro Uma Longa Viagem com José Saramago, de João Céu e Silva (Porto Editora), acaba de chegar ao mercado brasileiro, «com representação da Horizont e distribuição da Loyola Distribuidora de Livros». A obra, que reúne várias entrevistas feitas pelo jornalista do Diário de Notícias ao Prémio Nobel da Literatura de 1998, já estava disponível em Angola e Moçambique.
Seguir o elefante
Poucos meses após o lançamento de A Viagem do Elefante, o mais recente romance do nosso Nobel, a Fundação José Saramago decidiu responder, in loco, às seguintes perguntas:
«Que Portugal viu o elefante Salomão? Que caminhos percorreu, que rios teve que cruzar, em que águas se banhou, que aldeias o acolheram, que pedras, desde então, nos esperam?»
As respostas começam a ser dadas a partir de hoje, dia 17, numa viagem em grupo, com Saramago como cicerone, pela «rota portuguesa de Salomão»: da cerca de Belém, em Lisboa, até à fronteira com Espanha, em Figueira de Castelo Rodrigo, passando por Constância, Castelo Novo, Fundão, Sortelha, Sabugal e Cidadelhe.
«Será uma viagem por uma paisagem que a mão do homem foi modificando, ainda que as serras e os rios, os campos e o sol sejam os mesmos, e por vilas e aldeias que conservam monumentos que nem o tempo nem tão pouco a mão do homem podem fazer desaparecer. Desses monumentos, naturais ou arquitectónicos, vamos aproximar-nos, para ver se certos recantos de rios, ou campos abertos, ou certas igrejas, ou castelos, ou restos de fortificações conservam memórias dos passos do elefante, esse bicho insólito de que se chegou a discutir se era Deus, embora os reis de Portugal tivessem claro que era apenas uma oferta para fortalecer laços entre monarquias europeias.»
O trajecto desta excursão pode ser acompanhado a par e passo, com textos e fotografias, no blogue A Viagem do Elefante – Rota Portuguesa.
A Feira segundo Saramago
«Este ano não irei à Feira do Livro de Lisboa. Que não é como a de Frankfurt, ou a de Guadalajara, no México, nem sequer como a de Madrid, mas que é a nossa e está num lugar bonito, onde antes havia uma colina e agora menos, porque a fúria urbanística reduziu encostas, mas ainda assim vê-se o rio ao fundo, e há uma bela imagem da cidade pombalina, a que ia ser moderna e racional e o foi, basta passear por ela para ver que a razão esteve presente quando se desenhou, embora logo tivessem vindo outros que preferiram o obscurantismo às luzes e quase deram cabo dela.
Dizem-me que faz bom tempo e que a Feira este ano está mais animada, como se por esse mundo fora não lavrassem coisas terríveis, crise, pobreza, depressão. Diz-se que em épocas de crise se lê mais, e parece que os contabilistas comprovam esta afirmação. A mim agrada-me pensar que em épocas de crise as pessoas querem saber por que chegámos a isto e acercam-se aos livros como se estes fossem fontes de água fresca e os leitores gente sedenta.»
O resto da crónica, aqui.
O que é que José Saramago e Barack Obama têm (ou vão ter brevemente) em comum?
Memorial de Salomão

A Viagem do Elefante
Autor: José Saramago
Editora: Caminho
N.º de páginas: 258
ISBN: 978-972-21-2017-3
Ano de publicação: 2008
Dez anos após o Prémio Nobel da Literatura, e prestes a completar 86 anos [aniversário que entretanto se cumpriu, a 16 de Novembro], José Saramago dá mostras de uma extraordinária vitalidade criativa. Não só se desdobra em acções promovidas pela sua Fundação, presidida por Pilar del Rio, como começou recentemente a escrever na blogosfera, dando um passo que outros romancistas, alguns bem mais novos, ainda não se atreveram a dar. Cereja em cima do bolo é a publicação de A Viagem do Elefante, o romance em que regressa à melhor forma literária, depois de uma sequência de alegorias menores sobre os malefícios da globalização (A Caverna, 2000), as fragilidades da democracia (Ensaio sobre a Lucidez, 2004) e o mais antigo dos temores metafísicos (As Intermitências da Morte, 2005).
Salvaguardadas as devidas distâncias, se há livro com o qual A Viagem do Elefante pede comparação, tanto em termos de estrutura como de fôlego narrativo, é Memorial do Convento (1982). Não há aqui um convento a servir de metáfora do país, nem instrumentos musicais no fundo de poços, nem voos de passarola, nem personagens tão fortes como Baltasar e Blimunda. Mas há a mesma capacidade de fixar um momento da nossa História, construindo à sua volta um universo verbal («porque tudo isto são palavras, e só palavras, fora das palavras não há nada»), um universo que se expande e vai abarcando as várias faces da experiência humana.
Na sua simplicidade, o título não podia ser mais literal. A história do livro confunde-se com a de Salomão, o elefante indiano que D. João III resolveu oferecer, em 1551, ao arquiduque austríaco Maximiliano II, então regente de Espanha. A odisseia do «bruto paquiderme» através da Europa é longa e difícil: do cercado em Belém à corte de Viena, passando por Figueira de Castelo Rodrigo, Valladolid (onde é entregue aos cuidados do arquiduque) e pelos terríveis Alpes, onde a passagem do Isarco ou o desfiladeiro de Brenner se assemelham a armadilhas de neve e gelo.
Saramago é especialmente eficaz a descrever a forma como a caravana se organiza e desloca, perturbando a ordem dos lugares por onde passa, fascinando as gentes e alimentando mitos (entre eles o do falso milagre de Pádua, mesmo a jeito da Contra-Reforma que se preparava ali tão perto, em Trento). No fim, o animal e a sua extenuante jornada são apenas um «pretexto, nada mais». Um pretexto para o narrador, tipicamente saramaguiano (isto é, metaliterário, auto-irónico e com tendência para abusar dos anacronismos), cumprir a sua missão: a de nos prender aos sortilégios da literatura.
Avaliação: 8,5/10
[Texto publicado no número 74 da revista Ler]
Lançamento mundial de ‘A Viagem do Elefante’
O lançamento mundial do novo romance de José Saramago, A Viagem do Elefante, acontecerá hoje em São Paulo (20h30 locais), no SESC de Pinheiros/Teatro Paulo Autran, com organização da Companhia das Letras, editora brasileira de José Saramago. A actriz Sandra Corveloni lerá trechos do livro. Depois de assistir ao lançamento, o Prémio Nobel da Literatura de 1998 assistirá, amanhã, à inauguração da mostra “José Saramago – A Consistência dos Sonhos”, no Instituto Tomie Ohtake, onde a exposição que pôde ser vista no Palácio da Ajuda há uns meses ficará até 15 de Fevereiro de 2009.
O lançamento nacional está marcado para dia 3 de Dezembro (18h30), no Centro Cultural de Belém, com apresentação de António Mega Ferreira e Manuel Maria Carrilho.
Apresentação de ‘A Viagem do Elefante’
O romance de José Saramago será apresentado, dia 3 de Dezembro (18h30, Grande Auditório do Centro Cultural de Belém), numa conversa entre o autor, António Mega Ferreira e Manuel Maria Carrilho. A entrada fica condicionada à lotação da sala, informa a Editorial Caminho.
‘A Viagem do Elefante’ (booktrailer)
Dentro do nevoeiro
«A caravana de homens, cavalos, bois e elefante foi engolida definitivamente pela bruma, nem sequer se distingue a mancha do extenso vulto do ajuntamento que formam. Vamos ter de correr para alcançá-la. Felizmente, considerando o pouco tempo que ficámos a assistir ao debate dos hércules da aldeia, o pessoal não poderá ir muito longe. Em situação de visibilidade normal ou de bruma menos parecida com puré que esta, bastaria seguir os rastos das grossas rodas do carro de bois e do carro da intendência no chão amolecido, mas, agora, nem mesmo com o nariz a roçar a terra se conseguia descobrir que por aqui passou gente. E não só gente, também animais, como ficou dito, alguns de certo porte, como os bois e os cavalos, e em particular o paquiderme conhecido na corte portuguesa como salomão, cujos pés, só por si, teriam deixado no solo a marca de umas pegadas enormes, quase circulares, como as dos dinossauros de pés redondos, se alguma vez existiram. Já que estamos falando de animais, o que parece impossível é que ninguém em lisboa se tenha lembrado de mandar trazer dois ou três cães. Um cão é um seguro de vida, um rastreador de rumos, uma bússola com quatro patas. Bastaria dizer-lhe, Busca, e em menos de cinco minutos o teríamos de volta, com o rabo a abanar e os olhos a brilharem de felicidade. Não há vento, porém a névoa parece mover-se em lentos turbilhões como se o próprio bóreas, em pessoa, a estivesse soprando desde o mais recôndito norte e dos gelos eternos. O que não está bem, confessemo-lo, é que, em situação tão delicada como esta, alguém se tenha posto aqui a puxar o lustro à prosa para sacar alguns reflexos poéticos sem pinta de originalidade. A esta hora os companheiros da caravana já deram com certeza pela falta do ausente, dois deles declararam-se voluntários para voltar atrás e salvar o desditoso náufrago, e isso seria muito de agradecer se não fosse a fama de poltrão que o iria acompanhar para o resto da vida, Imaginem, diria a voz pública, o tipo ali sentado, à espera de que aparecesse alguém a salvá-lo, há gente que não tem vergonha nenhuma. É verdade que tinha estado sentado, mas agora já se levantou e deu corajosamente o primeiro passo, a perna direita adiante, para esconjurar os malefícios do destino e dos seus poderosos aliados, a sorte e o acaso, a perna esquerda de repente duvidosa, e o caso não era para menos, pois o chão deixara de poder ver-se, como se uma nova maré de nevoeiro tivesse começado a subir. Ao terceiro passo já não consegue nem sequer ver as suas próprias mãos estendidas à frente, como para proteger o nariz do choque contra uma porta inesperada. Foi então que uma outra ideia se lhe apresentou, a de que o caminho fizesse curvas para um lado ou para o outro, e que o rumo que tomara, uma linha que não queria apenas ser recta, uma linha que queria também manter-se constante nessa direcção, acabasse por conduzi-lo a páramos onde a perdição do seu ser, tanto da alma como do corpo, estaria assegurada, neste último sorte mofina, sem um cão para lhe enxugar as lágrimas quando o grande momento chegasse. Ainda pensou em voltar para trás, pedir abrigo na aldeia até que o banco de nevoeiro se desfizesse por si mesmo, mas, perdido o sentido de orientação, confundidos os pontos cardeais como se estivesse num qualquer espaço exterior de que nada soubesse, não achou melhor resposta que sentar-se outra vez no chão e esperar que o destino, a casualidade, a sorte, qualquer deles ou todos juntos, trouxessem os abnegados voluntários ao minúsculo palmo de terra em que se encontrava, como uma ilha no mar oceano, sem comunicações. Com mais propriedade, uma agulha em palheiro. Ao cabo de três minutos, dormia. Estranho animal é este bicho homem, tão capaz de tremendas insónias por causa de uma insignificância como de dormir à perna solta na véspera da batalha. Assim sucedeu. Ferrou no sono, e é de crer que ainda hoje estaria a dormir se salomão não tivesse soltado, de repente, em qualquer parte do nevoeiro, um barrito atroador cujos ecos deveriam ter chegado às distantes margens do ganges. Aturdido pelo brusco despertar, não conseguiu discernir em que direcção poderia estar o emissor sonoro que decidira salvá-lo de um enregelamento fatal, ou pior ainda, porque isto é terra de lobos, e um homem sozinho e desarmado não tem salvação ante uma alcateia ou um simples exemplar da espécie. A segunda chamada de salomão foi mais potente ainda que a primeira, começou por uma espécie de gorgolejo surdo nos abismos da garganta, como um rufar de tambores, a que imediatamente se sucedeu o clangor sincopado que forma o grito deste animal. O homem já vai atravessando a bruma como um cavaleiro disparado à carga, de lança em riste, enquanto mentalmente implora, Outra vez, salomão, por favor, outra vez. E salomão fez-lhe a vontade, soltou novo barrito, menos forte, como de simples confirmação, porque o náufrago que era já deixara de o ser, já vem chegando, aqui está o carro da intendência da cavalaria, não se lhe podem distinguir os pormenores porque as coisas e as pessoas são como borrões indistintos, outra ideia nos ocorreu agora, bastante mais incómoda, suponhamos que este nevoeiro é dos que corroem as peles, a da gente, a dos cavalos, a do próprio elefante, apesar de grossa, que não há tigre que lhe meta o dente, os nevoeiros não são todos iguais, um dia se gritará gás, e ai de quem não levar na cabeça uma celada bem ajustada. A um soldado que passa, levando o cavalo pela reata, o náufrago pergunta-lhe se os voluntários já regressaram da missão de salvamento e resgate, e ele respondeu à interpelação com um olhar desconfiado, como se estivesse diante de um provocador, que havê-los já os havia em abundância no século dezasseis, basta consultar os arquivos da inquisição, e diz, secamente, Onde é que você foi buscar essas fantasias, aqui não houve nenhum pedido de voluntários, com um nevoeiro destes a única atitude sensata foi a que tomámos, manter-nos juntos até que ele decidisse por si mesmo levantar-se, aliás, pedir voluntários não é muito do estilo do comandante, em geral limita-se a apontar tu, tu e tu, vocês, em frente, marche, o comandante diz que, heróis, heróis, ou vamos sê-lo todos, ou ninguém. Para tornar mais clara a vontade de acabar a conversa, o soldado içou-se rapidamente para cima do cavalo, disse até logo e desapareceu no nevoeiro. Não ia satisfeito consigo mesmo. Tinha dado explicações que ninguém lhe havia pedido, feito comentários para que não estava autorizado. No entanto, tranquilizava-o o facto de que o homem, embora não parecesse ter o físico adequado, deveria pertencer, outra possibilidade não cabia, pelo menos, ao grupo daqueles que haviam sido contratados para ajudar a empurrar e puxar os carros de bois nos passos difíceis, gente de poucos falares e, em princípio, escassíssima imaginação. Em princípio, diga-se, porque ao homem perdido no nevoeiro imaginação foi o que pareceu não lhe ter faltado, haja vista a ligeireza com que tirou do nada, do não acontecido, os voluntários que deveriam ter ido salvá-lo. Felizmente para a sua credibilidade pública, o elefante é outra coisa. Grande, enorme, barrigudo, com uma voz de estarrecer aos menos timoratos e uma tromba como não a tem nenhum outro animal da criação, o elefante nunca poderia ser produto de uma imaginação, por muito fértil e dada ao risco que fosse. O elefante, simplesmente, ou existiria, ou não existiria. É portanto hora de ir visitá-lo, hora de lhe agradecer a energia com que usou a salvadora trombeta que deus lhe deu, se este sítio fosse o vale de josafá teriam ressuscitado os mortos, mas sendo apenas o que é, um pedaço bruto de terra portuguesa afogado pela névoa onde alguém, quem, esteve a ponto de morrer de frio e abandono, diremos, para não perder de todo a trabalhosa comparação em que nos metemos, que há ressurreições tão bem administradas que chega a ser possível executá-las antes do passamento do próprio sujeito. Foi como se o elefante tivesse pensado, Aquele pobre diabo vai morrer, vou ressuscitá-lo. E aqui temos o pobre diabo desfazendo-se em agradecimentos, em juras de gratidão para toda a vida, até que o cornaca se decidiu a perguntar, Que foi que o elefante lhe fez para que você lhe esteja tão agradecido, Se não fosse ele, eu teria morrido de frio ou teria sido comido pelos lobos, E como conseguiu ele isso, se não saiu daqui desde que acordou, Não precisou de sair daqui, bastou-lhe soprar na sua trombeta, eu estava perdido no nevoeiro e foi a sua voz que me salvou, Se alguém pode falar das obras e feitos de salomão, sou eu, que para isso sou o seu cornaca, portanto não venha para cá com essa treta de ter ouvido um barrito, Um barrito, não, os barritos que estas orelhas que a terra há-de comer ouviram foram três. O cornaca pensou, Este fulano está doido varrido, variou-se-lhe a cabeça com a febre do nevoeiro, foi o mais certo, tem-se ouvido falar de casos assim. Depois, em voz alta, Para não estarmos aqui a discutir, barrito sim, barrito não, barrito talvez, pergunte você a esses homens que aí vêm se ouviram alguma coisa. Os homens, três vultos cujos difusos contornos pareciam oscilar e tremer a cada passo, davam imediata vontade de perguntar, Onde é que vocês querem ir com semelhante tempo. Sabemos que não era esta a pergunta que o maníaco dos barritos lhes fazia neste momento e sabemos a resposta que lhe estavam a dar. O que não sabemos é se algumas destas coisas estão relacionadas umas com as outras, e quais, e como. O certo é que o sol, como uma imensa vassoura luminosa, rompeu de repente o nevoeiro e empurrou-o para longe. A paisagem fez-se visível no que sempre havia sido, pedras, árvores, barrancos, montanhas. Os três homens já não estão aqui. O cornaca abre a boca para falar, mas torna a fechá-la. O maníaco dos barritos começou a perder consistência e volume, a encolher-se, tornou-se meio redondo, transparente como uma bola de sabão, se é que os péssimos sabões que se fabricam neste tempo são capazes de formar aquelas maravilhas cristalinas que alguém teve o génio de inventar, e de repente desapareceu da vista. Fez plof e sumiu-se. Há onomatopeias providenciais. Imagine-se que tínhamos de descrever o processo de sumição do sujeito com todos os pormenores. Seriam precisas, pelo menos, dez páginas. Plof.»
[in A Viagem do Elefante, de José Saramago, págs. 88-94, Caminho, 2008]
Nem todos os paquidermes se deixam abater
Símbolo dos republicanos, o elefante está hoje na mó de baixo. Amanhã, porém, volta a animar-se, quando a capa amarela e roxa do novo romance de José Saramago (A Viagem do Elefante) começar a invadir as livrarias portuguesas. Em entrevista ao Diário de Notícias, o escritor explica como é que os gravíssimos problemas de saúde sofridos no último ano não o impediram de escrever «um livro feliz e irónico» (aqui, aqui e aqui).
Tal como eu intui durante a leitura do livro, Saramago confessa ter sublimado a experiência de estar à beira da morte numa passagem em que um homem anónimo se perde da caravana, fica perdido no nevoeiro, «a ponto de morrer de frio e abandono», e só regressa ao ouvir os bramidos do elefante, que mais ninguém ouve, para logo desaparecer no ar como uma bola de sabão.
Já que falo nisto, aproveito para transcrever a dita passagem. Esperem só um bocadinho.
O novo Saramago
Por razões logísticas que não vêm agora para o caso, li A Viagem do Elefante ainda antes de o livro existir materialmente. Para já, posso adiantar que se trata do melhor romance publicado por José Saramago na última década (pelo menos para mim, como tento explicar no número de Novembro da revista Ler).
Um blogger com quase 86 anos
Dentro do blogue da Fundação Saramago, há agora um espaço que não é escrito por Pilar del Rio (ou um dos seus colaboradores) mas efectivamente pelo autor de Ensaio sobre a Cegueira. Segundo a equipa que actualiza a página, Saramago terá perguntado: “E eu posso participar? Porque gostaria de fazer algumas sugestões…”
São essas sugestões e outras “expressões várias do dia a dia” que se podem encontrar, a partir de hoje, n’ O Caderno de Saramago. O primeiro texto é este:
«Quando em Fevereiro de 1993 nos instalámos em Lanzarote, conservando sempre a casa de Lisboa, meus cunhados María e Javier, que já ali viviam há alguns anos, junto a Luis y Juanjo, recém-chegados, ofereceram-me um caderno que deveria servir de registo dos nossos dias canários. Punham uma só condição: que de vez em quando fizesse menção das suas pessoas. Nunca escrevi nada no tal caderno, mas foi desta maneira, e não por outras vias, que nasceram os Cadernos de Lanzarote, que durante cinco anos veriam a luz. Hoje, sem esperar, encontro-me numa situação parecida. Desta vez, porém, as causas motoras são Pilar, Sérgio e Javier, que se ocupam do blog. Disseram-me que reservaram para mim um espaço no blog e que devo escrever para ele, o que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice. Muito mais disciplinado do que frequentemente pareço, respondi-lhes que sim, senhor, que o faria desde que não me fosse exigida para este Caderno a assiduidade que a mim mesmo havia imposto nos outros. Portanto, pelo que isso possa valer, contem comigo.»
O segundo post pode ser lido aqui (com vídeo acoplado). E assim se assiste ao nascimento de um inesperado blogger octogenário, capaz de aderir com entusiasmo às novas tecnologias, ao contrário do que acontece com escritores muito mais novos do que ele.
Dois rios, um cibercafé
O cada vez mais activo Saramago enviou ontem, através do El País, um postal de Verão sobre Azinhaga do Ribatejo, a sua muito amada terra natal.
O livro de Salomão
Uma vez que o blog da Fundação José Saramago está indisponível neste momento (o momento em que escrevo, não necessariamente aquele em que serei lido), socorro-me de um take da agência Lusa que recolhe frases supostamente escritas por Pilar del Rio no dito blogue agora offline.
Diz a “presidenta” da Fundação:
«Escrevê-lo [ao romance A Viagem do Elefante] não foi um passeio ao campo: Saramago lançou-se a esta tarefa quando estava incubando uma doença que tardou meses a deixar-se identificar e que acabou por manifestar-se com uma virulência tal que nos fez temer pela sua vida. Ele próprio, no hospital, chegou a duvidar que pudesse terminar o livro. (…)
Não obstante, sete meses depois, Saramago restabelecido e com novas energias pôs o ponto final numa narração que a ele não lhe parece romance, mas conto, o qual descreve a viagem ao mesmo tempo épica, prosaica e jovial, de um elefante asiático chamado Salomão, que, no século XVI, por alguns caprichos reais e absurdos desígnios teve de percorrer mais de metade da Europa. (…)
Não é um livro mais, é o livro que estávamos esperando e que chegou a bom porto, o leitor. Salomão, o elefante, não teve tanta sorte, mas disso não falarei, aguardemos o Outono, e então sim: aí, em vários idiomas simultaneamente, poderemos comentar páginas, aventuras, desenlaces. Os materiais da ficção, que são também os da vida.»
O romance terá cerca de 240 páginas.
‘A Viagem do Elefante’, de José Saramago, chegou ao fim
O Gabinete de Imprensa da Fundação José Saramago acaba de informar que o Prémio Nobel da Literatura português concluiu o romance em que vinha trabalhando há alguns meses (A Viagem do Elefante), obra a publicar pela Editorial Caminho no próximo mês de Novembro.
Notícias coxas

É sabido que a imprensa, mesmo a de referência, se deixa muitas vezes levar em ondas de patriotismo que nem sempre correspondem à verdade dos factos. O exemplo da apresentação, com pompa e circunstância, de um computador para crianças supostamente concebido por portugueses (o Magalhães) que afinal não passa de uma versão de um hardware da Intel, é paradigmático. Quem tenha visto os telejornais daquele dia pensou decerto que estamos na vanguarda do desenvolvimento informático e foi preciso esperar pelo escrutínio da blogosfera (por exemplo, aqui) para recolocar as coisas nos seus devidos lugares.
Embora não caia propriamente neste tipo de cegueira, a notícia que a Agência Lusa fez (e o Público on-line reproduziu) sobre a lista das 50 melhores traduções dos últimos 50 anos no Reino Unido, que inclui a versão inglesa do romance O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, devia ter sido feita com mais cuidado. Para começar, a única fonte a que recorre é um comunicado da Fundação José Saramago, que como é óbvio se congratula pela presença na lista de uma obra do nosso Nobel, não deixando aliás de saudar a memória do excelente tradutor que foi Giovanni Pontiero. Mas se a Lusa tivesse consultado o site da Translators Association, perceberia que a ideia da lista não foi elencar definitivamente as melhores traduções “já feitas no Reino Unido nos últimos 50 anos” mas antes “a sampler, to provoke thought, and get people talking“, sabendo que esta escolha é “by no means definitive” e que “many wonderful translations and eminent translators are missing“.
Já agora, a Lusa podia ter completado a notícia, explicando em que lugar ficou a dita tradução de Pontiero. Uma coisa básica. Basta ir aqui e verificar que ficou em 32.º lugar. Mas as coisas básicas, infelizmente, são aquelas em que a Lusa costuma falhar. Menos compreensível é que o Público (e os outros jornais que recorrem à agência de notícias) não se dê ao trabalho de colmatar essas falhas.
A consistência da internet
Agora a exposição A Consistência dos Sonhos também pode ser percorrida virtualmente, online.
Saramaguianos de todos os países, uni-vos!
A Fundação José Saramago ainda não tem um site activo, mas o blogue, esse, já arrancou. E com um apelo à participação dos saramaguianos, enquanto auto-designada “espécie autóctone”:
“Nós, os saramaguianos, uma espécie autóctone que se produz em vários continentes e em qualquer terreno, estávamos a precisar de um blog para trocarmos as nossas impressões de leitores atentos. Já o temos, agora vamos tratar de o fazer respirar todos os dias.”
María Kodama fala com Saramago sobre Borges
A Fundação José Saramago, com o apoio da Biblioteca Nacional e a colaboração da Editorial Teorema, vai organizar um encontro entre María Kodama, viúva de Jorge Luis Borges, e José Saramago, durante o qual conversarão sobre a figura e a obra do autor de O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam. O encontro acontecerá no Anfiteatro da Biblioteca Nacional, dia 20, sexta-feira, pelas 18h30, e contará ainda com a presença de dois dos tradutores das Obras Completas de Borges, editadas pela Teorema/Círculo de Leitores (Fernando Pinto do Amaral, poesia; e José Colaço Barreiros, prosa).
Exposição sobre Saramago em São Paulo
Retirado daqui:
«A cidade de São Paulo vai receber uma exposição sobre o escritor português José Saramago, Prémio Nobel de Literatura em 1998, anunciou o ministro da Cultura português.
José António Pinto Ribeiro disse à agência Lusa que a exposição, ainda sem data definida, será feita em parceria com a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e com o Instituto Tomie Ohtake.»
Só não é claro, do que se revela nesta notícia, se a mostra em causa é a que está neste momento exposta no Palácio da Ajuda, produzida pela Fundação César Manrique, ou uma outra feita de raiz.


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