Uma carta de Saramago

Na década de 70, durante o regime militar, o filho do poeta argentino Juan Gelman foi assassinado aos 20 anos pela polícia política. A nora, de 18 anos, estava grávida e conheceu a mesma sorte, dois meses depois de dar à luz uma menina que viria a ser registada como filha legítima de um chefe de polícia uruguaio. Muitos anos depois, o avô haveria de a encontrar e a neta lutou na Justiça para ganhar o direito de usar o apelido Gelman. Entre os intelectuais que se manifestaram durante este processo estava José Saramago. A carta que enviou ao Presidente do Uruguai, Julio Sanguinetti, a 20 de Outubro de 1999, pode ser lida aqui, no site da Fundação José Saramago, que também disponibiliza vídeos da vinda de Juan Gelman a Lisboa, em 2010.

Juan Gelman (1930-2014)

gelman

Apagou-se um imenso poeta argentino. Sobre ele escreveu o El País no seu obituário: «Maestro de un “oficio ardiente”, de versos que hablan del amor, la muerte y el dolor, combinó la poesía con la militancia política y su defensa de los derechos humanos. Sin embargo, desdeñaba el término de “poesía comprometida” porque creía que la ideología y la obra de un escritor estaban a menudo conectadas por canales oscuros.»
Eis o seu último poema, escrito a 28 de Outubro de 2013, já consciente do fim próximo:

VERDAD ES

Cada día
me acerco más a mi esqueleto.
Se está asomando con razón.
Lo metí en buenas y en feas sin preguntarle nada,
él siempre preguntándome, sin ver
cómo era la dicha o la desdicha,
sin quejarse, sin
distancias efímeras de mí.
Ahora que otea casi
el aire alrededor,
qué pensará la clavícula rota,
joya espléndida, rodillas
que arrastré sobre piedras
entre perdones falsos, etcétera.
Esqueleto saqueado, pronto
no estorbará tu vista ninguna veleidad.
Aguantarás el universo desnudo.

Juan Gelman na Casa do Alentejo

O poeta e jornalista argentino Juan Gelman, Prémio Cervantes 2007, vai estar hoje à tarde (a partir das 18h00) na Casa do Alentejo, para uma sessão com José Saramago intitulada “Bajo la Lluvia Ajena”. Nuno Júdice lerá poemas de Gelman e Gonçalo Pescada interpretará temas de Astor Piazzolla.

Instituto Cervantes de Lisboa evoca Juan Gelman

A exposição biobibliográfica sobre o poeta argentino, Prémio Cervantes 2007, intitulada El emperrado Corazón Amora, foi inaugurada ontem.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges