As leituras de Juan Goytisolo

Além de voltar a Diderot, Goytisolo dedicou este Verão a dois romances franceses: um contemporâneo (La Guimard, de Guy Scarpetta) e outro publicado pela primeira vez em 1891 (Le Tutu: Moeurs fin de siècle, de autor anónimo, escondido atrás do pseudónimo Princesse Sapho). A análise aos dois livros pode ser lida aqui.

Anatomia do Homo hispanicus

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Espanha e os Espanhóis
Autor: Juan Goytisolo
Título original: España y los Españoles
Tradução: Miguel Serras Pereira
Editora: 90º
N.º de páginas: 120
ISBN: 978-972-8964-08-5
Ano de publicação: 2008

Considerado um dos mais importantes escritores espanhóis vivos, Juan Goytisolo (n. 1931) traz consigo, há mais de meio século, as marcas do exílio. Feroz opositor de Franco, mudou-se em meados da década de 50 para Paris, onde foi leitor da Gallimard e conheceu Monique Lange, companheira a quem cedo revelou a sua homossexualidade e ao lado de quem ficou até à morte desta, em 1996. Desde então vive em Marraquexe, onde já passava parte do ano, continuando a criticar de forma contundente — à distância, do Café France, na praça Jemaa el Fna — os rumos seguidos pela sua pátria e pelos seus compatriotas.
Espanha e os Espanhóis, publicado em 1969 por uma editora alemã, devido à proibição dos seus livros pelo regime franquista, é um conjunto de textos que, segundo Ana Nuño, “se situa na trajectória do escritor e do intelectual como uma espécie de Jano bifronte”. Ao mesmo tempo que antecipa temáticas futuras, desenvolvidas tanto nos seus trabalhos ensaísticos como na obra ficcional, Goytisolo lança um olhar para o passado, tentando compreender as raízes e especificidades do “caso espanhol”, à luz dos princípios historiográficos de Américo Castro.
O que se tenta desfazer aqui é o mito de uma falsa espanholidade, tão essencialista que funcionaria retrospectivamente, fazendo de Séneca um “andaluz” e de Marcial um “aragonês”. No centro desse mito que perdurou durante séculos, impondo-se até nas regiões que nunca chegaram a “castelhanizar-se” por completo, está o cavaleiro cristão, figura ideal da “casta militar de Castela”, um paladino de Deus que despreza as coisas materiais, estóico, honrado e cioso da “pureza” do seu sangue. Ele é o símbolo da Espanha nascida no final do século XIV, quando os Reis Católicos conquistam o último reino mouro da Península e assinam o édito de expulsão dos judeus, pondo fim a vários séculos de convivência entre as três civilizações.
A partir desta “tragédia”, desta “ferida aberta” e nunca cicatrizada, inicia-se o fechamento de Espanha sobre si mesma, num processo que conduzirá, após um período de ilusória grandeza e expansão colonial, à decadência progressiva do país, tanto nas áreas científicas como artísticas, bem como ao atraso na implantação de uma burguesia capaz de tomar as rédeas da economia (algo que também aconteceu em Portugal). Depois de desconstruir a imagem do Homo hispanicus de matriz cristã-velha, oscilando entre “a façanha e a imobilidade”, Goytisolo analisa o modo como este paradigma foi sendo reforçado ou questionado, através da literatura (Quevedo, Cervantes, Unamuno), da pintura (Goya) ou dos olhares estrangeiros (Borrow, Hemingway, Brenan), culminando na súbita “mudança de mentalidades” que se dá na década de 60, quando o duplo efeito da ida para fora (emigração) e da chegada de estrangeiros (turismo de massas) arranca o povo espanhol do seu marasmo.
Este livro que Espanha só conheceu em 1979 (é dessa época o último capítulo, expectante e pessimista quanto à transição democrática em curso), apesar de datado, mantém intacta a lucidez da sua visão crítica.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges