Primeiros parágrafos

«Estava a escrever um artigo sobre as últimas fusões empresariais, quando notei um tremor no bolso direito do roupão, de onde tirei, misturados com vários bocados de pão, quatro ou cinco homenzinhos que atirei para cima da mesa, por cuja superfície desataram a correr, à procura de um buraco para se esconderem. Nesse momento, entrou a minha mulher, que nesse dia não fora trabalhar, para me perguntar se me apetecia um café. Quando chegou ao pé de mim, já não havia nenhum homenzinho à vista, só os pedaços de pão e algumas migalhas.
– Que mania! – disse, referindo-se ao meu hábito de guardar nos bolsos bocadinhos de pão, cuja côdea roía com os mesmos efeitos relaxantes com que outros fumam, ou bebem um copo.
Este costume metia-lhe nojo, embora os meus bocados de pão não fizessem mal a ninguém e, a mim, me dessem prazer. Em geral, depois de escrever um parágrafo com que me sentisse satisfeito, tirava um do bolso e dava-lhe três ou quatro dentadas, enquanto pensava no seguinte. Por qualquer razão, associava o exercício de roer à produção de pensamento.»

[in O que Sei dos Homenzinhos, de Juan José Millás, Planeta, 2012]

Fantástico quotidiano

Os Objectos Chamam-nos
Autor: Juan José Millás
Título original: Los objetos nos llaman
Tradução: Luísa Diogo e Carlos Torres
Editora: Planeta
N.º de páginas: 235
ISBN: 978-989-657-056-9
Ano de publicação: 2010

Nestas 75 brevíssimas narrativas de Juan José Millás, encontra-se de tudo: memórias de infância, terríveis equívocos, improváveis metamorfoses, identidades usurpadas, manequins de montra que transpiram, pessoas invisíveis, personagens trágicas que vivem um dia (ou dois) adiantadas em relação aos restantes mortais, almas sem corpo, corpos sem alma, negócios com o diabo, encarnações irónicas de Deus, chamadas do Além, amigos imaginários, taxistas peculiares, mulheres obcecadas por homens liliputianos, mortos que ignoram o seu estado e circulam entre os vivos, relações familiares problemáticas (mães sufocantes ou cruéis, mas também pais arredios), uma visita completa a Madrid seguindo um guia turístico de Buenos Aires e sonhos, muitos sonhos bizarros, pesadelos capazes de baralhar o mais sofisticado dos psicanalistas.
Com a sua escrita elegante, burilada e concisa, em que reconhecemos tanto a «textura onírica» como algumas obsessões do livro anterior (O Mundo, belíssimo romance de matriz autobiográfica), Millás surge aqui como um cronista da estranheza, dos paradoxos lógicos e morais, dos minúsculos desvios à ordem natural das coisas que engendram o absurdo.
A sua matéria-prima é a vida quotidiana, banal e prosaica, mas uma vida quotidiana em que se abrem, de repente e sem aviso, portas secretas que dão acesso ao mistério do que não existe mas podia existir (ou do que não aconteceu mas podia ter acontecido), ao «avesso da realidade», elaborando uma espécie de metafísica que a acidez do humor quase sempre dissolve, tornando-a patética – excepto nos casos em que se ensaia uma aproximação ao sublime, como no pungente conto intitulado O cheiro da gasolina.
Millás é essencialmente um escritor muito atento à claustrofobia do nosso tempo e alguém que descobre em tudo o que observa, do café de bairro à grande cidade, o potencial de uma história para contar. Desígnio resumido de forma perfeita nesta frase de um dos seus atormentados narradores: «Entre a literatura e a vida, escolhi sempre a literatura.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Lavar a loiça

De todas as tarefas domésticas, lavar a loiça sempre foi a minha preferida. Gosto daqueles minutos passados com as mãos enfiadas na água quente e na espuma, da mecânica de gestos que não me obrigam a pensar e por isso me deixam a cabeça livre para devaneios, pontos da situação e ímpetos criativos. Em festas de amigos e nas férias colectivas, sempre me ofereci para a função de que toda a gente foge e muitas vezes fui olhado de lado, como se lavar a loiça fosse um prazer perverso que não é suposto ser exibido, despudoradamente, no final de um belo jantar.
Imaginem pois a minha alegria, e o meu alívio, ao deparar com esta passagem do conto É grave, doutor?, de Juan José Millás, incluído no volume Os Objectos Chamam-nos (Planeta):

«Quando eu era jovem, partilhei um apartamento com uma rapariga que a primeira coisa que me disse foi que odiava lavar loiça, de maneira que teria de ser eu a fazê-lo. Ao princípio parecia-me uma chatice, porque me empenhava em acabar quanto antes, creio, mas depois fui começando a gostar e lavava numa hora o mesmo número de pratos que qualquer pessoa normal teria lavado em meia hora. Aquilo de que eu gostava naquela actividade era que me punha intelectualmente activo. Dez minutos depois de estar a puxar o brilho a um tacho de alumínio, os neurónios travavam amizade entre si e resolvia problemas que na mesa de trabalho me teriam levado dias. Lavar a loiça ajudava-me a entrar num estranho estado de concentração do qual obtinha benefícios incríveis. No entanto, caía mal à minha companheira ver-me desfrutar dessa maneira e começou a pensar que partilhava a casa com um depravado.
– Mas por que razão não protestas quando tens de lavar a loiça?
– Porque gosto.
– Deixa-te de brincadeiras. Como é que podes gostar?
– É verdade. A água a correr e ver como desaparece pelo ralo a sujidade das frigideiras mergulha-me numa espécie de êxtase que me ajuda a reflectir sobre a existência.
Ao princípio ela pensou que eu estava a troçar dela, e depois que era um pervertido. Quando tínhamos convidados e me via a levantar depois de comer, para arrumar a cozinha, ouvia-a murmurar coisas sobre mim. Uma vez trouxe a mãe, a qual, depois de me observar de cima a baixo, me perguntou se eu era o tal que gostava de lavar a loiça.
– Sou um deles – respondi, sentindo-me membro de uma seita secreta de lavadores espalhados pelo mundo.»

Uma seita a que pelos vistos eu também pertenço, agora com uma pontinha de orgulho.

Roubar o pai

«Muitos rapazes sonham ser invisíveis. Eu era de certo modo invisível. Jamais fui surpreendido enquanto roubava dinheiro do bolso do meu pai nem enquanto dormia num ou noutro dos meus esconderijos. Também parecia invisível no meio dos irmãos, talvez porque, ao estar no meio, os mais velhos me consideravam pequeno e os mais novos, velho. A fronteira, a terra-de-ninguém, a não pertença, o território da escrita. Só a minha mãe me via e olhava para mim com uma expressão preocupada de que eu gostava. E que me magoava. Talvez gostasse porque me magoava. Talvez ela soubesse. Um dia, ao almoço, referiu-se a uma pessoa que afirmou ser cleptomaníaca. Quando um dos meus irmãos lhe perguntou o significado daquela estranha palavra, respondeu dirigindo-se a mim, que fiquei sem pingo de sangue na cara durante uns segundos, até que, talvez por piedade, desviou o olhar. A minha mãe tinha capacidades de adivinhação.
Mais adiante, animado pela impunidade dos meus furtos, e já numa carreira desenfreada para a delinquência, levei a cabo uma incursão na carteira do meu pai, da qual retirei uma nota de cinco pesetas (uma fortuna). Com essa nota, transformada em moedas, poderia ver a rua da cave do Vitaminas durante o resto da minha vida (durante o resto da vida dele, para falar com exactidão). Tinha as pernas a tremer quando saí com a nota para a realidade, a arfar como um asmático. Realizei o furto à hora da sesta e tive a nota no meu bolso até às sete da tarde. A essa hora compreendi que nem a minha consciência suportaria o peso de um delito daquela natureza nem a polícia seria tão desajeitada que não desse com o ladrão quando o meu pai denunciasse o desaparecimento.»

[in O Mundo, de Juan José Millás, trad. de Luísa Diogo e Carlos Torres, Planeta, 2009]

UMA (DE MIL)

Entrava sempre calado e pendurava o casaco
na maçaneta de vidro do lado de fora do
quarto. O sudário do cansaço. Via-o
a passar para a sala
(do lado de dentro do medo) e
sabia ter um minuto (máximo: minuto
e meio) para
arrancar para o casaco
enfiar a mão nos bolsos
desfolhar a carteira e roubar
uma de mil. Era sempre uma de mil. Um
desses bilhetes longos
(que doía destrocar)
devo-o ter engodado para cima de
muitas vezes. Era sempre uma de mil. A
dada altura decidi que ele sabia de tudo:
já ali deixava o seu hábito
(como redil para o meu vício)
com
mais orgulho que zelo
(menos despudor
que escrúpulo). Eu só queria uma (de mil).
Usava pressagiar que no seu leito enfermo
haveria de remir a usura de
cada escudo. Mas perdi-o num minuto (máximo:
minuto e meio). Há
dias em que só
penso nisto.

[in A Parte pelo Todo, de João Luís Barreto Guimarães, Quasi, 2009]

As cicatrizes da memória

O Mundo
Autor: Juan José Millás
Título original: El Mundo
Tradução: Luísa Diogo e Carlos Torres
Editora: Planeta
N.º de páginas: 174
ISBN: 978-989-657-003-3
Ano de publicação: 2009

Há uma imagem que atravessa, com a energia de uma metáfora fundadora, este romance autobiográfico de Juan José Millás. Na oficina das traseiras, onde o pai reparava aparelhos de medicina, o pequeno Juanjo assiste aos testes, em bifes de vaca, do bisturi eléctrico inventado pelo progenitor: um instrumento que garantia ao mesmo tempo o golpe preciso e a sua cicatrização imediata. Anos mais tarde, ao mergulhar nas memórias de infância (desafiado pelo jornal El País, que lhe encomendou uma reportagem sobre si mesmo que nunca concluiu), tornou-se evidente a similitude entre aquele instrumento e uma caneta: «Quando escrevo à mão, num caderno, como agora, acho que me pareço um bocado com o meu pai quando estava a experimentar o bisturi eléctrico, pois a escrita abre as feridas e cauteriza-as ao mesmo tempo.»
As cicatrizes dos primeiros anos – da problemática mudança de Valência para Madrid (onde o esperava a pobreza e o frio) ao desatino adolescente que o levou ao seminário – são justamente a matéria-prima deste livro em que Millás se entrega à reinvenção literária da sua vida. Uma reinvenção feita em estado de transe, tocada por uma espécie de «febre» que transfigura a simples realidade dos factos. Tudo o que se narra pode ter acontecido, mas decerto que não aconteceu exactamente assim. A biografia é apenas a paisagem, o «cenário», o pretexto para a literatura.
Mais do que um romance, este livro é «um processo metabólico», uma coisa arrancada a ferros lá onde mais dói, um testemunho de quem atravessa o espelho sabendo que está a atravessar o espelho. Millás circula pelos espaços míticos da infância (a rua de Canillas, «espécie de maqueta do mundo» que reencontrará noutros lugares; a casa familiar; o imaginado Bairro dos Mortos) e reelabora vários momentos traumáticos (a relação difícil com a mãe; a perda do amigo Vitaminas; os descalabros amorosos; a dificuldade de deitar as cinzas dos pais ao mar). Mas estas deambulações são evocadas com um certo distanciamento, como se tudo aquilo – as euforias e as tragédias – fosse vivido por outrém, por essa personagem que construiu para si próprio e que vai, sintomaticamente, abandonar na última página.
Com a sua «textura onírica», algures entre a normalidade quotidiana e a esfera da alucinação (a «hiper-realidade» descoberta ao espreitar pela janela de uma cave, na mercearia do pai do Vitaminas, e que se tornará um ideal platónico para o narrador), O Mundo alterna estados delirantes, «frágeis como bolas de sabão», e momentos de uma lucidez implacável. Talvez porque é mínima a distância entre os extremos: «Às vezes sonho com uma escrita que me afunde e me eleve, que me adoeça e me cure, que me mate e me dê a vida.» É dessa escrita que se faz este livro magnífico.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges