Pré-publicação: ‘O Meu Irmão - Théo e Vincent Van Gogh’

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«Os pássaros desapareceram sobre os ramos de amendoeira pintados por Vincent. Já não assobio as melodias deles, à noite, para adormecer o meu filho. Ainda há pouco tempo, eu convocava para ele toutinegras, rouxinóis e estorninhos na tela azul pendurada por cima do piano. Agora, limito-me a depositar mecanicamente um beijo na sua testa e passo para a sala ao lado. Instalo-me diante da minha mesa de trabalho, aflorando ao sentar-me a gaveta central. É a que contém as cartas de Vincent. Nunca a abro.
Acontece que o corpo tem os seus hábitos. E eu tenho o de escrever ao meu irmão. Aparentemente, nada se alterou. Continuo a ser o mesmo: cotovelo esquerdo assente no rebordo da mesa, testa à procura do apoio da mão, maxilares apertados, têmporas que latejam, os olhos a fecharem-se enquanto procuro as palavras, a minha pluma mergulhando no tinteiro negro… Estes gestos são uma forma de enganar a morte e eu um simples figurante no teatro de sombras. Mas antes escrever do que permitir que a voz de Vincent cresça, essa voz que troveja desde que se tornou uma recordação. Vou respondendo às últimas condolências.
Jo deixa-se ficar no quarto do nosso filho mesmo depois de ele ter adormecido. Passeia a sua mão pela colcha como para endireitar as dobras, as ondas invisíveis. Diz “o pequeno” porque sempre tivemos dificuldade em chamar-lhe Vincent. A minha mãe escreveu num destes últimos dias: “Fizeram muito bem em chamar Vincent Willem ao vosso filho.” Neste momento, já não tenho assim tanta certeza. Não há como as pessoas mais velhas para acarinharem a ideia do recomeço, acreditando que as duas extremidades do tempo podem encontrar-se.
Gostava apenas que o meu filho fosse tão perseverante e corajoso como o meu irmão. São qualidades que não possuo.
Jo vigia-me, sinto o seu olhar inquieto pousado em mim através da porta entreaberta. Sei que descreve o meu boletim clínico aos seus pais, sei que lança alarmes e marca prazos, sei que fica gelada com o movimento incessante da minha pluma, sei que os meus ombros e nuca curvados a fazem sentir-se sozinha, sei que a minha tosse a preocupa. Arreliante, a tosse voltou a raspar a minha garganta, torna-se cada dia mais cavernosa e em breve começará a dar-me náuseas. Certa vez disse a Jo que nunca mais tossira desde o dia em que a conheci e quisemos acreditar nessa ilusão, oferecida pelo amor, de que há um antes e um depois, mas a doença, como todos os segredos escondidos, voltou à superfície. Sinto-a a saquear o meu corpo, esta goela da minha desgraça. E vou calculando frequentemente os seus progressos. Leio a mesma pergunta nos olhos de Jo: o grau último da dor já foi atingido ou será que a temperatura do meu corpo amputado vai ainda ser capaz de subir?

***

Esta manhã, cerca das dez horas, Durand-Ruel passou por cá. Insisti para que o apartamento fosse limpo de uma ponta à outra e alguém tomasse conta do nosso filho. Não queria que nada interferisse com esta visita que solicitara por correio. Ele entrou como se fosse um dignitário das artes, todo aperaltado. A sua rigidez e arrogância compensam o facto de ser baixo. Este grande galerista parisiense ocupa uma posição de força no mercado, é agressivo nos negócios, um católico fervoroso que nunca se deixou levar pela Revolução mas foi ainda assim conquistado para a causa renovadora dos impressionistas. Soube acumular as telas deles quando nada valiam, pagou-lhes avenças, esteve à beira da falência e da degraça, mas regressou triunfante da sua viagem à América. Ele é uma síntese bem sucedida do comércio com a arte.
Depois de andar em passo lento pelo nosso apartamento inteiramente dedicado a Vincent, observou algumas das telas de forma mais demorada, mas sem deixar transparecer o que pensava. No seu rosto, a máscara fria dos comerciantes que passam o negócio de pai para filho. Eu fiquei sempre um passo atrás dele, perscrutando o mínimo franzir do sobrolho, a mínima contracção da comissura dos lábios. Nunca tentei louvar as telas. Prescindi da eloquência para não revelar o meu estado febril. Dei-lhe apenas algumas indicações sobre os períodos e os lugares, avancei algumas das teorias da cor tão caras a Vincent e sublinhei o seu movimento em direcção à luz. Fui um irmão mascarado de negociante e defendi a mais audaciosa, a mais livre de todas as pinturas que alguma vez me foi dado mostrar. Enquanto falava, fixei as mãos enluvadas do visitante. Esperava, se não um gesto, pelo menos um estremecimento, um reflexo, porque muitas telas subestimadas obtiveram, ao passarem por aqueles dedos, o merecido reconhecimento.
Mas Durand-Ruel nunca chegou a tirar as luvas.
Ele não gosta de mim, apercebi-me logo, porque sou um assalariado da concorrência, um caçador furtivo que invadiu os seus domínios, tanto assim que Monet e Picasso também me entregam alguns dos seus quadros. Podia ter negligenciado a minha carta, mas nela afirmava-se que qualquer audácia artística passa forçosamente por ele.
A dada altura, o visitante parou de forma brusca e disse: “Tudo isto é muito interessante.” A escolha de palavras tinha mais de educação polida do que de entusiasmo, mas eu propus-lhe logo organizar uma exposição na sua galeria da rue Laffitte. Estranhamente, já não tinha medo, já não tinha medo das minhas palavras e das minhas escolhas, já não tinha medo de nada, nem de mim nem dos outros. Quero que me julguem pela minha capacidade de dar a conhecer o valor da pintura de Vincent.
Durand-Ruel tossicou, visivelmente surpreendido com a minha reacção, e acrescentou quase por meias-palavras: “Compreendo esse desejo de irmão, mas é preciso pensar melhor no assunto. Tudo isto pode vir a dar polémica. E não quero responsabilizar-me por uma exposição que corra o risco de não ser compreendida.”
Quis prolongar a visita e por isso propus-lhe uma passagem pela galeria de Tanguy, onde poderíamos descobrir outras telas pintadas em Auvers, mas Durand-Ruel disse dispor de pouco tempo, estendeu-me a mão que não chegou a sair da luva, como se já soubesse que estava apenas de passagem, e foi-se embora prometendo voltar na semana seguinte.»

[A narrativa O Meu Irmão - Théo e Vincent van Gogh, de Judith Perrignon, traduzido por mim e editado pela 90º, chega esta semana às livrarias]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges