Primeiros parágrafos

«I remember, in no particular order:
– a shiny inner wrist;
– steam rising from a wet sink as a hot frying pan is laughingly tossed into it;
– gouts of sperm circling a plughole, before being sluiced down the full length of a tall house;
– a river rushing nonsensically upstream, its wave and wash lit by half a dozen chasing torchbeams;
– another river, broad and grey, the direction of its flow disguised by a stiff wind exciting the surface;
– bathwater long gone cold behind a locked door.
This last isn’t something I actually saw, but what you end up remembering isn’t always the same as what you have witnessed.»

[in The Sense of an Ending, de Julian Barnes, Jonathan Cape, 2011]

Primeiros parágrafos

«Seis norte-africanos estavam a jogar boule sob a estátua de Flaubert. As pancadas secas ouviam-se sobre o ruído do trânsito congestionado. Com uma última carícia irónica, uma mão escura lançou uma bola cor de prata. Esta tocou o chão, saltou pesadamente e curvou devagar espalhando a poeira endurecida. O jogador ficou como uma estilizada estátua temporária: os joelhos um pouco dobrados e a mão direita erguida e estática. Reparei na camisa branca arregaçada, no antebraço nu e em algo redondo na parte de trás do pulso. Não um relógio, como primeiro pensei, nem uma tatuagem, mas uma decalcomania colorida: o rosto de um chefe político muito admirado no deserto.»

[in O Papagaio de Flaubert, tradução de Ana Maria Amador, Quetzal, 2010]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges