Uma cidade entre o cérebro e o coração

Paris
Autor: Julien Green
Título original: Paris
Tradução: Carlos Vaz Marques
Editora: Tinta da China
N.º de páginas: 128
ISBN: 978-972-8955-75-5
Ano de publicação: 2008

Logo no início de Paris, pequeno livro tão belo quanto discreto, Julien Green recorda-nos uma evidência: «A alma de uma grande cidade não se deixa apreender facilmente; é preciso, para se comunicar com ela, termo-nos aborrecido, termos de algum modo sofrido nos lugares que a circunscrevem.» Julien Green, nascido com o século XX no 17.º bairro, teve muitas oportunidades para se aborrecer e sofrer em Paris, como aliás qualquer parisiense que conheça a sua cidade para além das glórias óbvias e do esplendor de postal ilustrado. Talvez por isso, o escritor abdica rapidamente de dizer «uma palavra a respeito dos grandes monumentos e de todos os lugares acerca dos quais se esperaria uma descrição como deve ser». Alguém falou em Torre Eiffel? Esqueçam. Green sempre lhe teve um ódio de estimação e sonhava mesmo eliminá-la, deixá-la longe da vista, debaixo de água. A Paris que lhe interessa não é a oficial, não é a que vem nos guias. É a outra, a «cidade secreta», vedada aos turistas e mais inacessível do que em tempos foi a mítica Timbuctu.
Nestes ensaios breves, Green escreve sobretudo para si mesmo. Não se trata de revelar aos outros os tesouros escondidos de Paris (embora algumas pistas sejam preciosas), mas antes de reencontrar as muitas aproximações que fez, durante décadas, ao lugar onde nasceu. Uma espécie de arqueologia sentimental, com alguns ditirambos nostálgicos mas nunca abusando do pathos. A sua Paris está sempre a migrar «imperceptivelmente da carne para o espírito». Começa por ser uma «enorme massa de pedra» para logo se transformar em cosa mentale, cenário de um romance por escrever, «mundo interior» autónomo, uma presença «quase sobrenatural». O mais importante, para Green, é colocar-se no sítio certo: «Estar sentado ao colo do modelo que nos propomos pintar nunca me pareceu a posição ideal. Por mais pequeno que seja o recuo, já é uma conquista.» E esse recuo tanto pode ser geográfico (escrever sobre Paris em Copenhaga ou Nova Iorque) como cronológico (lembrar-se de como era o bairro de Passy nos anos da infância, há mais de quatro décadas).
O fio condutor do livro está numa atenção obsessiva aos pormenores que escapam a um primeiro olhar. Pode ser a «graça robusta» de uma pequena igreja românica (a de São Julião, o Pobre); a nobreza das árvores que ainda vão subsistindo depois de todos os abates; as escadas e escadarias (subindo em espirais que fixam uma «ideia de perseguição» ou descendo em degraus de pedra até ao rio); uma tempestade sobre o Palais-Royal; cenas de miséria humana; os castanheiros iluminados «de dentro para fora» como lanternas japonesas; o céu cinzento; a brancura de Notre-Dame; as ruínas do Trocadéro; ou as estátuas que espiam, lá de cima, «as nossas atitudes incompreensíveis». Green é sobretudo um flâneur perscrutador e baudelairiano, «propenso a certas formas de divagação» que me parecem, vistas deste lado, milagres de escrita.
Na juventude, ele começou por ver em Paris a forma de um cérebro humano. Mais tarde mudou de ideias: «Agora já não seria a um cérebro que eu compararia Paris, mas a um coração, um coração deitado, atravessado pela sua grande artéria, o Sena.» É justamente entre o cérebro e o coração, entre a racionalidade neutra e o fervor de quem ama a sua cidade como se ama uma pessoa, que estas prosas magníficas se insinuam.
A tradução de Carlos Vaz Marques é excelente: fluida, cuidada, com oportunas notas de rodapé. Para ser exemplar, só falta a este trabalho editorial uma referência, breve que fosse, ao facto de Paris recolher textos escritos por Green entre 1943 e 1983 (ano em que o livro foi publicado pela Champ Vallon, na colecção «Des Villes»). Pior do que isso: a nota biográfica final sugere, erroneamente, que a obra surgiu em 1991, quando essa data corresponde apenas à edição norte-americana (pela Marion Boyars, de Nova Iorque).

Avaliação: 9/10

Um parisiense americano

Julien Green nasceu em Paris (1900), morreu em Paris (1998), habitou em Paris durante a maior parte da sua vida e escreveu quase toda a sua obra na língua de Molière. Ainda assim, nunca se tornou cidadão francês. Filho de pais norte-americanos, manteve-se norte-americano até à morte. Em 1971, distinguiu-se por ser o primeiro «não-francês» a entrar para a Academia Francesa, onde ocupou a cadeira 22 (substituindo o falecido François Mauriac). Um ano mais tarde, o Presidente da República Georges Pompidou ofereceu-lhe oficialmente a cidadania francesa. E ele recusou. Na história de Paris, contudo, não terá havido muitos parisienses mais parisienses do que este homem que escreveu: «Cada um de nós traz em si a Paris da sua infância, da sua juventude e dos seus sonhos, com uma secreta preferência pela Paris que guardou na memória e que lhe parece mais bela que a do próximo» (pág. 42).

[Textos publicados no suplemento Actual do Expresso]

‘Paris’ (o booktrailer)

[via blogue da livraria Pó dos Livros]

Rue de Passy

«Rua de Passy, conheço de cor as tuas lojas, os teus vendedores grossistas e os seus portões, os teus reclames que perderam a cor e as pinturas no mármore das tuas leitarias e o paraíso das tuas pastelarias, Coquelin, Petit e Bourbonneux, e o vendedor de ostras no meio dos seus cabazes com a sua faquinha, e o vendedor de sapatos onde a minha criada Lina comprava as suas pantufas de pompons azuis, e a papelaria onde as moscas se aquecem ao sol, sobre as capas dos livros escolares, e o austero armazém de Nicolas, o vendedor de vinhos, e a farmácia do Senhor Beaudichon, que tinha uma bela barba, e as grandes letras a ouro que revelam a toda a gente, do cume de uma varanda vertiginosa, a presença do cirurgião-dentista, e a cabeça do cavalo, também dourada, por cima da porta do picadeiro, e a relojoaria onde o patrão, cortado ao meio pela banca de trabalho, conserta um pequeno relógio de pulso, e os eflúvios celestiais das primeiras ramadas de lilás que a florista de dedos vermelhos acomoda sob a abóbada do 93, e os carneiros esfolados, cingidos por um casto avental branco, entre as grinaldas de loureiro do talho, rodeados de cortinas raiadas de vermelho solenemente enfunadas, e o encanto do refugo do perfumista, e os frascos do ervanário, e os olhares que os ajudantes de padeiro lançam sobre as pernas das donas de casa a partir das janelas térreas da padaria, e as lutas de cães, e as colisões de cestos em que os pães chocam uns com os outros como a popa de galeras inimigas, e os gritos, e as risadas, o ruído dos autocarros que percorrem por completo todo este mundo e não esmagam sequer a ponta de um único dedo do pé, e a bela esteira líquida que um regato entrança ao longo do passeio…»

[in Paris, de Julien Green, trad. de Carlos Vaz Marques, Tinta da China, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges