Cortázar no Forum Fantástico

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Começou ontem e acaba amanhã a oitava edição do Forum Fantástico. A programação completa pode ser consultada aqui. Eu participarei mais logo, pelas 17h45, num debate sobre Julio Cortázar, com o seu mais recente editor em Portugal (Diogo Madre Deus, Cavalo de Ferro), na Biblioteca Orlando Ribeiro, em Telheiras. Apareçam.

Cinco cartas inéditas de Julio Cortázar

Para Aurora Bernárdez, Victoria Ocampo, Francisco Porrúa, Juan Carlos Onetti e Ofelia Cortázar (irmã). Leiam-nas no blogue de Eduardo Coelho.

Acerca de ‘Rayuela’

«Entre mi propia visión de Rayuela y la de la mayioría de sus lectores (entendiendo por mayoría a los jóvenes, mucho más sensibles a ese libro que la gente de mi edad) hay un curioso cruce de perspectivas. “Triste, solitario y final”, como dice Raymond Soriano, escribí Rayuela para mí, es decir para un hombre de más de cuarenta años y su circunstancia – otros hombres y mujeres de más de cuarenta años. Muy poco después, ese mismo individuo emergió de un mundo obstinadamente metafísico y estético, y sin renegar de él entró en una ruta de participación histórica, de apoyo a otras fuerzas que buscaban y buscan la liberación de América Latina. A lo largo de un decenio, problemas considerados como capitales en Rayuela pasaron a ser para mí algunos de los muchos componentes de la problemática del “hombre nuevo”; la prueba, creo, está en el Libro de Manuel. Así, en mi visión personal de la realidad, Rayuela sigue siendo una primera parte de algo que traté y trato de completar; una primera parte muy querida, seguramente la más honda de mi ser, pero que ya no acepto con la exclusividad que la conferían los propios protagonistas del libro, hundidos en búsquedas donde el egoísmo de tanta introspección y tanta metafísica era la sola brújula.
Pero entonces, sorpresa: En esos diez años de que hablo, Rayuela fue leída por incontables jóvenes del mundo, muchísimos de los cuales eran ya parte en esa lucha que yo sólo vine a encontrar al final. Y mientras los “viejos”, los lectores lógicos de ese libro escogían quedarse al margen, los jóvenes y Rayuela entraron en una especie de combate amoroso, de amarga pugna fraterna y rencorosa al mismo tiempo, hicieron otro libro de ese libro que no les había estado coscientemente destinado.
Diez años después, mientras yo me distancio poco a poco de Rayuela, infinidad de muchachos aparentemente llamados a estar lejos de ella se acercan a la tiza de sus casillas y lanzan el tejo en dirección al Cielo. A ese cielo, y eso es lo que nos une, ellos y yo le llamamos revolución.»

[in Papeles Inesperados, de Julio Cortázar, Alfaguara, 2009]

Três poemas de Julio Cortázar

LA MOSCA

Te tendré que matar de nuevo.
Te maté tantas veces, en Casablanca, en Lima,
en Cristianía,
en Montparnasse, en una estancia del partido de Lobos,
en el burdel, en la cocina, sobre un peine,
en la oficina, en esta almohada
te tendré que matar de nuevo,
yo, con mi única vida.

***

LA PATRIA

Patria de lejos, mapa,
mapa de nunca.
Porque el ayer es nunca
y el mañana mañana.

Guardo un olor de trébol,
una calle con árboles,
un recuento de manos,
una luz sobre el río.

Patria, cartas que llegan
y otras que vuelven,
pájaros de papel
sobre el mapa volando.

Porque el ayer es nunca
y el mañana mañana.

***

LO QUE ME GUSTA DE TU CUERPO…

Lo que me gusta de tu cuerpo es el sexo.
Lo que me gusta de tu sexo es la boca.
Lo que me gusta de tu boca es la lengua.
Lo que me gusta de tu lengua es la palabra.

[in Papeles Inesperados, Alfaguara, 2009]

Boa nova

Depois de nos ter oferecido Rayuela em 2008, a Cavalo de Ferro vai editar este mês o livro Volta ao Dia em Oitenta Mundos, de Julio Cortázar.

Inéditos de Cortázar também em português

A notícia foi divulgada há alguns dias: «A editora Alfaguara vai publicar em Maio um volume de quase 500 páginas com um grande número de textos inéditos do escritor argentino Julio Cortázar, preparados para edição por Aurora Bernárdez, primeira mulher do autor, e por Carles Álvarez, especialista na sua obra.»
Em conversa informal com Diogo Madredeus (editor da Cavalo de Ferro, responsável pela primeira versão portuguesa de Rayuela, lançada em 2008), encontrei resposta para a pergunta que todos os cortázarianos se devem ter colocado: «E nós? Também vamos ter por cá esses promissores Papeles Inesperados?» Pelos vistos, sim. Sem avançar datas, Diogo garantiu-me que a Cavalo de Ferro vai fazer tudo para editar o livro o mais rapidamente que lhe for possível.

Tudo é literatura

capa_Rayuela

O Jogo do Mundo (Rayuela)
Autor: Julio Cortázar
Título original: Rayuela
Tradução: Alberto Simões
Editora: Cavalo de Ferro
N.º de páginas: 631
ISBN: 978-989-623-079-1
Ano de publicação: 2008

Obra-prima de Julio Cortázar, Rayuela é uma das narrativas que mais influenciaram os escritores latino-americanos da segunda metade do século XX. Que só agora seja publicada em Portugal, com 45 anos de atraso, diz bem da indiferença a que foi votada no nosso país, durante muito tempo, alguma da melhor literatura estrangeira. Saúde-se então a Cavalo de Ferro pela iniciativa de suprir esta imperdoável lacuna, ainda por cima numa magnífica tradução de Alberto Simões, que resgata quase sem mácula a força poética, o fôlego e a cadência da prosa torrencial do escritor argentino. Eis, desde já, a par de O Homem Sem Qualidades, de Robert Musil (Dom Quixote), um forte candidato a livro do ano.
O enorme impacto de Rayuela (à letra, o infantil “jogo da macaca”, desenhado no chão com giz; imagem recorrente em vários dos planos narrativos) deveu-se sobretudo ao seu experimentalismo formal. Como se diz logo de início numa “tábua de orientação”, o livro “é muitos livros”, na medida em que a ordem pela qual devem ser lidos os seus 155 capítulos depende apenas da vontade (ou dos caprichos) do leitor. Cortázar sugere duas escolhas possíveis: 1) começar no primeiro capítulo e acabar no 56, seguindo o esquema habitual, o que implica prescindir do último terço do livro; 2) ler a obra na íntegra, mas seguindo uma sequência irregular de capítulos: 73, 1, 2, 116, 3, 84, etc. Na verdade, qualquer ordem é válida (mesmo a leitura de trás para a frente), o que multiplica as abordagens possíveis a esta ficção aberta.
Dito isto, há três núcleos principais a que os fragmentos narrativos se agregam. Na primeira parte, ‘Do lado de lá’, acompanhamos a vida do argentino Horacio Oliveira em Paris, onde se apaixona por uma uruguaia (Maga), discute interminavelmente com um grupo de amigos artistas (O Clube da Serpente) e encontra, por mero acaso, o seu escritor-guru (Morelli). Na segunda parte, ‘Do lado de cá’, Horacio regressa a Buenos Aires, reencontrando um velho amigo (Traveler, que se revela uma espécie de duplo), a mulher deste (Talita, na qual projecta a memória de Maga) e uma galeria de personagens secundárias, com as quais se cruza primeiro num circo e depois num manicómio. Por fim, a terceira parte, ‘De outros lados’, compõe-se de 99 “capítulos prescindíveis”, onde cabe tudo e mais alguma coisa: citações de pensadores e poetas, notícias de jornal, notas do acervo de Morelli, pequenos ensaios, aforismos ou episódios soltos que ajudam a esclarecer certos factos e a definir traços psicológicos.
No fundo, não há nada que o livro enjeite, na sua ânsia de absorver, por exemplo, a cidade de Paris – esse novelo de “matéria infinita enrolando-se sobre si mesma”, logo transformada numa “enorme metáfora”. Como diz alguém: “Tudo é literatura, isto é, fábula.” À semelhança de Morelli, que sonha escrever uma obra “onde o micro e o macrocosmos se unissem numa visão fulminante”, assumindo o “texto desalinhado, desordenado, incongruente, minuciosamente anti-literário (mas não anti-romanesco)”, Cortázar vai contra os “hábitos mentais” e rebenta com as fórmulas clássicas de contar uma história, consciente de que é preciso “desescrever” e “incendiar a linguagem”, para a libertar. Algo que só se consegue com a cumplicidade do leitor, arrancado à força da sua tradicional atitude passiva.
Mesmo quando arrisca mais, ao narrar uma cena erótica com palavras inventadas (o “gíglico”, dialecto dos amantes) ou ao fundir dois textos num só (em linhas alternadas), Rayuela nunca soçobra na mera pirotecnia, no virtuosismo estéril. Romance de ideias (não apenas literárias), muitas das suas reflexões mantêm uma impressionante actualidade e algumas delas anteciparam mesmo agitações futuras. Como quando Cortázar questiona, cinco anos antes do Maio de 68: “E o que é que quer dizer viver de outra maneira? Talvez viver absurdamente para acabar com o absurdo, deixar-se cair em si mesmo com uma tal violência que a queda acabasse nos braços do outro.”

Avaliação: 10/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Apresentação de ‘Rayuela’

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Daqui a pouco (18h30), na Fnac do Chiado, será lançada a edição portuguesa da obra-prima de Julio Cortázar: Rayuela (O Jogo do Mundo). Só agora, 45 anos depois, é que alguém decidiu colmatar a escandalosa lacuna (e por isso tiro o meu chapéu à Cavalo de Ferro). Como se costuma dizer, antes tarde do que nunca.
Depois da leitura a mata-cavalos, numa espécie de transe, das 631 páginas e 155 capítulos deste romance desvairado, vou tentar dizer alguma coisa que seja digna de tão transcendente experiência, assim como quem lança uma pedra para a figura desenhada a giz no chão e sobe ao pé coxinho da Terra ao Céu.

Capítulo 7 (agora dito pelo autor)

E que voz, meus amigos, que voz.

Capítulo 7

«Toco a tua boca.
Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura. E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.»

[in O Jogo do Mundo (Rayuela), de Julio Cortázar, tradução de Alberto Simões, Cavalo de Ferro, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges