Em nome dos sem voz

A Palavra do Mudo
Autor: Julio Ramón Ribeyro
Título original: La Palabra del Mudo
Selecção e tradução: Tiago Szabo
Editora: Ahab
N.º de páginas: 192
ISBN: 978-972-9-7228-66
Ano de publicação: 2012

Julio Ramón Ribeyro (1929-1994), um dos mais notáveis escritores peruanos do século XX, foi revelado aos leitores portugueses em 2011 com a edição, pela Ahab, das suas magníficas Prosas Apátridas, um «catálogo de enigmas» composto por duas centenas de fragmentos que «não se ajustam cabalmente a nenhum género». Agora, a Ahab introduz-nos aos celebrados contos de Ribeyro, numa antologia em dois volumes intitulada A Palavra do Mudo.
O primeiro volume abre com o excerto de uma carta de Ribeyro ao seu editor em que o contista assume escrever sobre «aqueles que estão privados da palavra, os marginalizados, os esquecidos, os condenados a uma existência anónima e sem voz». Dito assim, parece um projecto de cariz quase neo-realista. A leitura, porém, rapidamente desfaz o equívoco. As personagens de Ribeyro não têm voz porque estão mergulhadas nas suas limitações humanas, mais do que sociais ou políticas. São figuras quase sempre patéticas, sujeitas ao fracasso e à humilhação, seja por via do aproveitamento que outros fazem da sua boa-vontade (o Arístides de Uma Aventura Nocturna, enganado ao ponto de sentir «uma vergonha sem precedentes, como se um cão lhe tivesse urinado em cima»), seja pela apoteose do trabalho enquanto lugar de asfixia burocrática que sobra sempre para os mesmos (o Aníbal de Espumante na Cave), seja ainda pela incapacidade pessoal de lidar com as oportunidades que a vida oferece (os delírios de procrastinação de Matias em O professor substituto).
Entre as dez histórias restantes, há textos mais longos de perfeito recorte clássico (Silvio no Roseiral, Tia Clementina), mas sobretudo várias parábolas sobre a memória que persiste, para o bem ou para o mal, nos objectos comuns do quotidiano: um espelho onde coincidem os reflexos de várias gerações (O armário, os velhos e a morte); um livro em branco que amaldiçoa quem o possui; um pisa-papéis que atravessa o abismo entre leitor e escritor; uma caneta de tinta permanente que transforma um filho no pai morto (Página de um diário). Ou ainda a biblioteca que se desfaz literalmente: «assim, o que numa época fora fonte de luz e de prazer, era agora excremento, caducidade» (O pó do saber). Ou esses milhares de cigarros fumados por Ribeyro ao longo da vida, heróis de uma extraordinária autobiografia nicotínica – Só para fumadores – feita de sacrifícios, estratagemas, episódios rocambolescos, persistência, desespero (o momento em que vendeu todos os seus livros para comprar tabaco) e muita ironia.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 116 da revista Ler]

A arte de passar ao lado

Prosas Apátridas
Autor: Julio Ramón Ribeyro
Título original: Prosas Apátridas
Tradução: Tiago Szabo
Editora: Ahab
N.º de páginas: 134
ISBN: 978-989-97228-1-1
Ano de publicação: 2011

Peruano de nascimento, Julio Ramón Ribeyro (1929-1994) viveu quase toda a sua vida adulta na Europa. Durante uma década, viajou «com uma mala cheia de livros, uma máquina de escrever e um gira-discos portátil», até assentar arraiais em Paris no início dos anos 60, onde foi jornalista da France Press e adido cultural junto da UNESCO. Reunindo os textos da edição original (1975) aos que foram acrescentados na edição espanhola de 1986 (Tusquets), estas Prosas Apátridas podem ser uma excelente porta de entrada para a sua obra, até agora inédita em Portugal, mas não correspondem a uma escrita do exílio ou do desenraizamento, como o título eventualmente sugere. Se estes textos são apátridas é porque «não se ajustam cabalmente a nenhum género» nem pertencem a «um território literário próprio».
No fundo, constituem uma sucessão aparentemente fortuita de duas centenas de fragmentos, nos quais encontramos de tudo: aforismos, vinhetas, farpas, esboços líricos, epifanias, anedotas, poemas em prosa, sugestões irónicas, brevíssimos tratados de Sociologia ou História, ideias soltas – uma espécie de blogue avant la lettre, em que Ribeyro dá mostras de uma sabedoria oblíqua, esquiva, sem certezas nenhumas. Se um texto fala de livros e do culto que lhes prestamos, o seguinte pode cantar o amor, o sexo, o corpo das mulheres. Ou então reflectir sobre a memória, a amizade, a infância, a solidão, a vida secreta dos objectos, o carácter maldoso das casas, o apelo da morte que nos espreita ao «dobrar de cada esquina», a instabilidade do passado (sempre sujeito a ser destruído pelo presente).
Ribeyro assume que anda à deriva num «mundo ambíguo», em que a realidade é «um fenómeno tão difuso que se afigura difícil distingui-la do sonho, da fantasia ou da alucinação». O seu método: a divagação sistemática. Ele considera-se um «hedonista frustrado», um homem que só se descobre escritor no fundo das garrafas de vinho, um esteta que fuma à janela, a contemplar do alto a silhueta de Paris, ouvindo música barroca enquanto espera a «irrupção do maravilhoso» no tecido trivial dos dias. Como o flâneur de Baudelaire, ele anda pelas ruas, atentíssimo aos fulgores e horrores da comédia humana, entrevistos a cada instante nos apartamentos das porteiras ou nas carruagens do metro. Objectivo: «ser tão-só o vidro através do qual nos penetra, intacta, a vida».
Fora isto, esconjura fantasmas, oportunidades perdidas, renúncias, os gestos que não foram feitos em devido tempo. O desconforto, esse, nunca se atenua, «talvez porque escrever seja ignorar o canto de sereia da vida, talvez porque nada do que fiz me satisfaz, talvez porque muitas vezes tenho a impressão de que em algum momento me enganei no caminho e isso me condenou para todo o sempre a passar à côté de la question». Este desacerto, esta estranha arte de passar ao lado das coisas, esta dispersão, esta «incapacidade de concentrar duradouramente o meu interesse, a minha inteligência e as minhas energias em algo concreto», mergulham Ribeyro na melancolia, mas também num estado de lucidez próximo da revelação: «O meu olhar adquire, em momentos privilegiados, uma agudeza intolerável; e a minha inteligência, uma sagacidade que me assusta.»
Às vezes áspero e agreste, outras vezes de uma delicadeza que arrepia e comove, o estilo de Ribeyro faz lembrar um instrumento de precisão. Nem uma palavra a mais, nem uma palavra a menos. Só as estritamente necessárias. Um exemplo: «O grande mural fotográfico que adorna a sala do Café Les Finances. Representava, nos seus bons tempos, um bosque em pleno verdor. Com os anos a cor foi amarelecendo. A Primavera das fotografias também tem o seu Outono.»
Eis o início do fragmento 149: «Imaginar um livro que seja desde a primeira à última página um manual de sabedoria, uma fonte de regozijo, uma caixa de surpresas, um modelo de elegância, um tesouro de experiências, um guia de conduta, um regalo para os estetas, um enigma para os críticos, um consolo para os desafortunados e uma arma para os impacientes.» Não conheço melhor sinopse para Prosas Apátridas, um livro extraordinário que, depois de lido, nunca mais nos abandona.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Livros

«Livros viscosos como pântanos, nos quais uma pessoa se afunda e clama, em vão, que a salvem; livros ásperos, cortantes, perigosos, que nos enchem de cicatrizes; livros acolchoados, de dunlopillo, onde pulamos e saltamos; livros-meteoro que nos transportam para territórios ignotos e nos permitem escutar a música das esferas; livros chatos e resvaladiços, onde escorregamos e partimos a cabeça; livros inexpugnáveis nos quais não conseguimos entrar, quer seja pelo meio, pelo início ou pelo fim; livros tão transparentes que penetramos neles como no ar e, quando voltamos a cara, já não existem; livros-larva que deixam ouvir a sua voz anos depois de os termos lido; livros peludos e com garra que nos contam histórias peludas e com garra; livros orquestrais, sinfónicos, corais, mas que parecem dirigidos pelo tambor principal da banda da aldeia; livros, livros, livros…»

[in Prosas Apátridas, de Julio Ramón Ribeyro, trad. de Tiago Szabo, Ahab, 2011]

Primeiros parágrafos

«Tantos livros, meu Deus, e tão pouco tempo e, por vezes, tão pouca vontade de os ler! A minha própria biblioteca, que só recebia um volume depois de previamente lido e digerido, vai-se infestando de livros parasitas, que ali chegam muitas vezes não se sabe como e que, através de um fenómeno de magnetização e de aglutinação, contribuem para cimentar a montanha do ilegível; e, entre esses livros, perdidos, encontram-se os que eu escrevi. Não digo em cem anos, mas em dez, vinte, o que restará de tudo isto? Talvez só os autores de tempos imemoriais, a dúzia de clássicos que atravessam os séculos, tantas vezes sem muitos leitores, mas airosos e robustos, como que animados por uma espécie de impulso elementar ou de direito adquirido. Os livros de Camus, de Gide, que ainda há duas décadas se liam com tanta paixão, que interesse têm agora, apesar de escritos com tanto amor e tanto sofrimento? Porque é que daqui a cem anos se continuará a ler Quevedo e não Jean-Paul Sartre? Ou François Villon e não Carlos Fuentes? De que substância se deve fazer uma obra para que ela perdure? Dir-se-ia que a glória literária é uma lotaria e a longevidade da arte um enigma. E, apesar de tudo, continua-se a escrever, a publicar, a ler, a glosar. Entrar numa livraria é pavoroso e paralisante para qualquer escritor, é como que a antecâmara do esquecimento: nos seus nichos de madeira, os livros já se preparam para dormir o seu sono perpétuo, muitas vezes antes de terem vivido. Qual foi o imperador chinês que destruiu o alfabeto e todos os vestígios da escrita? Não foi Heróstrato quem incendiou a biblioteca de Alexandria? Talvez só a devastação de tudo quanto foi escrito nos possa devolver o prazer da leitura, para podermos partir inocente e alegremente do zero.»

[in Prosas Apátridas, de Julio Ramón Ribeyro, trad. de Tiago Szabo, Ahab, 2011]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges