Kaui Hart Hemmings: “Quis dar às personagens oportunidade para fazerem asneiras, lutarem, e viverem realmente umas com as outras”

Ao agradecerem o Globo de Ouro para melhor filme dramático, atribuído a Os Descendentes, o produtor (Jim Burke) e o realizador (Alexander Payne) não se esqueceram de referir Kaui Hart Hemmings, a autora do romance em que o filme se baseia, publicado originalmente em 2007 e a semana passada em Portugal (com chancela da Presença). Por e-mail, Hemmings mostrou-se satisfeita com o prémio: «Estou muito feliz com o sucesso do Alexander, que fez uma belíssima adaptação cinematográfica do meu livro. Concordei com todos os ligeiros ajustes feitos à história e acho que as duas obras se complementam na perfeição.»
Tanto no livro como no filme, a visão paradisíaca e os estereótipos turísticos são postos de lado. «Quis mostrar o Hawai através do olhar de pessoas concretas, simples hawaianos, como eu», explica Hemmings. Hawaianos que lidam com questões universais: a perda de um ser amado, a traição amorosa, as disputas familiares na hora das partilhas, o sentido de herança em relação ao que as gerações anteriores legaram. «Quis que a história funcionasse como uma força silenciosa – algo que empurra secretamente as personagens de acção para acção, confinando-as, manipulando-as, inspirando-as. Quis também que a História do Hawai e a sua geografia figurassem no livro, sem no entanto lhes atribuir uma carga simbólica especial.»
A narrativa de Os Descendentes, um dos romances de estreia mais bem recebidos dos últimos anos nos EUA, amplia e desenvolve um enredo que Hemmings esboçara em The Minor Wars, incluído na sua primeira obra (o volume de contos House of Thieves, de 2005, ainda não traduzido para português). A escala do romance permitiu-lhe outro fôlego: «Pude explorar melhor cada uma das personagens. Dar-lhes oportunidades para fazerem asneiras, lutarem, e viverem realmente umas com as outras.» O principal trunfo literário da autora é a sua capacidade de se aproximar das emoções – muitas vezes em estado puro: violentas, contraditórias – sem nunca cair na armadilha do sentimentalismo. «Eu nunca poderia ser melodramática. Procuro evitar isso a todo o custo. Espero que o texto consiga comover os leitores, mas de uma forma natural, verdadeira e honesta.»
O protagonista do romance é um advogado, Matthew King, que se vê forçado a tomar conta das duas filhas quando a mulher, Joanie, entra em coma irreversível depois de um acidente. «Porque não pode falar, porque está ali, na cama do hospital, mas ausente, o que dela sabemos vai sendo contado por outros. E como cada personagem tem a sua perspectiva, Joanie acaba por tornar-se uma figura complexa, com muitas dimensões. Para mim foi um desafio, sobretudo porque tento evitar os flashbacks.» Na preparação para o livro, Hemmings pesquisou o modo como diferentes famílias na mesma situação lidaram com o processo de despedida e procurou o máximo de verosimilhança, dando a ler as passagens do foro clínico a um médico que trata doentes em coma.

Um dos temas centrais do livro é o abismo entre as gerações e a dificuldade de entendimento entre elas, particularmente notório na forma como King se relaciona com as filhas problemáticas, para quem a autoridade paterna é pouco menos do que risível. Num momento de desabafo, o advogado ataca os mais novos e duvida da sua utilidade futura. Em vez de criarem trabalho e riqueza, queixa-se, eles vão limitar-se a fumar drogas, tirar cursos de escrita criativa e «rir-se de nós». É um momento de ironia, porque um curso de escrita criativa foi precisamente o que Hemmings fez na Universidade de Stanford (California). «Eu não só gostei muito desse curso como precisava dele. Sempre adorei ler e sentia que tinha uma voz, mas faltava-me saber como é que transformamos a linguagem, as palavras, numa obra coerente.»
Se os direitos do livro para o cinema foram vendidos no início de 2007, ainda antes de ser editado, a escritora nunca acreditou que o eventual filme chegasse à fase de produção. Só uma ínfima parte das obras adquiridas chega ao fim do processo e não seria de esperar que tal acontecesse com o romance de uma autora então praticamente desconhecida. A paixão de Payne pela história, porém, desbloqueou todos os entraves. «Ele é incrível. Veio para o Hawai acabar o argumento e tornámo-nos bons amigos.» Tão bons amigos que o realizador lhe concedeu o privilégio de entrar no filme como actriz, numa pequena cena em que interpreta a secretária de King (George Clooney). «Foi óptimo», garante. E brinca: «Ele estava um bocadinho intimidado. Mas depois disse-lhe para relaxar, porque no fundo eu sou só uma pessoa normal.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges