Era uma vez um burro, um macaco e um rato

É um Livro
Autor: Lane Smith
Título original: It’s a Book
Tradução: E. P.
Editora: Presença
N.º de páginas: 32
ISBN: 978-972-23-4518-7
Ano de publicação: 2011

Houve um tempo em que o livro era um livro. Um objecto feito de papel, tinta e cola (ou linhas a coser os vários cadernos), às vezes com capa dura, às vezes com capa mole, às vezes com bonecos, às vezes sem bonecos, sempre com páginas que se iam virando do princípio para o fim. Hoje um livro continua a ser isso, mas também é outras coisas. Ficheiros digitais, pdf’s, textos descarregados da internet para leitores electrónicos: Kindles, Nooks, iPads, essa parafernália toda. Haverá o risco de as crianças pequenas (entre quatro e oito anos) ficarem tão enfeitiçadas com as novas tecnologias que esqueçam as características milenares dos livros analógicos (chamemos-lhes assim)? Não me parece. De qualquer modo, como quem joga pelo seguro, Lane Smith decidiu criar este simpático manifesto em defesa dos livros tradicionais, aqueles que não precisam de electricidade para funcionar.
Como nas fábulas, a história circunscreve-se a uma situação muito concreta, vivida por três personagens animais: um burro, um macaco e um rato. O rato pouco mais é do que um observador do duelo entre o burro hiperactivo e o macaco pachorrento, o primeiro a fazer as vezes de nerd e o segundo no lugar do leitor clássico. «O que tens aí?», começa por perguntar o quadrúpede. «É um livro», responde o símio. Com um computador portátil pousado nas patas, o burrico vai fazendo um exame às capacidades do dispositivo que o amigo parece venerar. À partida, o livro parece muito limitado: não envia mensagens, não permite fazer tweets nem posts, não tem wi-fi, não emite sons, não permite sequer «organizar combates entre os personagens». Por outro lado, não precisa de palavra-passe nem de um nome de utilizador. Quando o macaco lho passa para as mãos, o burro lê uma página solta, sobre um pirata com uma perna de pau, brandindo uma «enorme espada incrivelmente afiada», e logo sentencia que há ali «letras a mais», que uns emoticons poderiam muito bem resumir. Vagamente incomodado, mas sem baixar a guarda, o macaco limita-se a repetir: «Isto é um livro.» Como quem diz: «Se não gostas, se não queres, o problema é teu. Vai lá brincar com as tuas geringonças que eu não troco o meu livro por nada.»
É então que o burro se deixa envolver na leitura da história de piratas que começou por desdenhar. E o relógio, por cima da sua cabeça, vai assistindo a um frenesim dos ponteiros. Ficou agarrado, mesmo sem teclas, sem downloads, sem refresh. Quando o macaco pede o livro de volta, o burro já não o quer largar. Está preparado o terreno para a punchline da história. Quando o macaco, triunfante, diz ao amigo que pode deixar-se estar, porque ele vai à biblioteca procurar outras leituras, o burro grita «Não te preocupes. Eu carrego a bateria quando acabar!», pondo-se a jeito para a estocada final, dada pelo ratinho cúmplice: «Deixa estar. Não é preciso…»
À simplicidade da narrativa e da mensagem, alia-se a elegância espartana das pranchas, muito estilizadas e despidas de elementos que possam distrair a atenção do essencial: as personagens do burro e do macaco (de cabeça estreita e comprida o primeiro; grande e redonda, o segundo; como que vincando o carácter intempestivo de um e a bonomia do outro). Eles estão frente a frente, sentados em poltronas de linhas rectas. O que interessa é o que dizem, a forma como duvidam ou se convencem do que é dito, sempre com o livro a passar entre eles como elemento de prova ou testemunho. Talvez seja uma defesa algo linear das vantagens do livro em papel, mas é uma defesa muito eficaz.
Aliás, sei bem do que falo quando me refiro à eficácia. Assim que recebi este volume, li-o aos meus dois filhos, de seis e quatro anos. O entusiasmo foi imediato. Chegados ao fim, pediram em uníssono: «Pai, Pai, lê outra vez.» E eu li outra vez. E outra vez. E outra vez. À quinta leitura, já sabiam os diálogos de cor. Depois, foram os dois para o quarto e eu ouvi-os a folhear as páginas, para trás e para a frente, enquanto fingiam, ora um, ora outro, as vozes do macaco e do burro. «Precisa de palavra-passe?» «Não!» «Isto é um livro, Burro!»

Avaliação: 8/10

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges