O sr. Dodgson vai a Moscovo

Diário de uma Viagem à Rússia em 1867
Autor: Lewis Carroll
Título original: The Russian Journal
Tradução: Paula Reis
Editora: Teorema
N.º de páginas: 84
ISBN: 978-972-6959-75-5
Ano de publicação: 2011

Aos 35 anos, Charles Lutwidge Dodgson, professor de Matemática em Oxford, hoje mais conhecido pelo pseudónimo literário (Lewis Carroll), fez a sua única viagem ao estrangeiro. Atravessado o canal da Mancha, seguiu até Moscovo, passando por Bruxelas, Colónia, Berlim, Königsberg e São Petersburgo (à ida) e por Varsóvia, Breslau, Dresden e Paris (à volta).
Pelo caminho, a atitude foi a do turista informado mas snobe – alguém que olha britanicamente de cima para tudo. Dodgson menciona hotéis e ementas, idas ao teatro e concertos em jardins, o esplendor dos museus e das torres panorâmicas. Narra também tormentosos trajectos de comboio, episódios caricatos (quase sempre envolvendo discussões com cocheiros ou empregados de mesa), encontros falhados e muitos obstáculos linguísticos (numa das cenas mais divertidas do livro, tem mesmo de recorrer à «escrita hieroglífica»).
Talvez devido à companhia – Henry Liddon, um amigo católico devoto – ou ao facto de ser diácono da Igreja Anglicana desde 1861, o interesse de Dodgson foca-se muito nos templos e no fausto das cerimónias religiosas, embora «quanto mais se assiste a estes serviços sumptuosos, com os seus inúmeros apelos aos sentidos, mais uma pessoa aprende a apreciar o serviço da igreja anglicana, sóbrio e simples (mas a meu ver muito mais real)».
No fundo, o que nos espanta neste diário seco, contido, pouco mais do que descritivo, é ter saído da pena de um autor que publicara, dois anos antes, uma aventura de prodigiosa imaginação (Alice no País das Maravilhas). Quem foi à Rússia foi mesmo Dodgson. Lewis Carroll ficou para trás, à espera nos «brancos penhascos da velha Inglaterra».

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Alice em pontas

A Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, já foi adaptada ao cinema, ao teatro, à BD, à pintura e a quase todas as formas artísticas imagináveis. Agora vai também ser um ballet.

The Wasp in a Wig‘ (fragmento)

Eis um excerto do «capítulo perdido» de Through the Looking Glass, um encontro entre Alice e uma vespa que Sir John Tenniel, o ilustrador do livro, convenceu Lewis Carroll a retirar da versão final do texto.

Aproximação ao gato de Cheshire

«La presentación del gato Chesire, probablemente el personaje que más miedo da y que mayores carcajadas arranca de toda la obra de Carroll (que las dos cosas coincidan en un solo personaje es el termómetro de su genialidad), no sólo es una de las mejores pruebas de que Alicia es un libro disparatado precisamente porque es aplastantemente lógico sino que es además uno de los mejores consejos que se le puede dar a alguien que comienza a vivir y se pregunta qué camino debe seguir:

“-¿Podría decirme, por favor, qué camino debo tomar?
-Eso depende de a dónde quieras ir -respondió el Gato.
-Lo cierto es que no me importa demasiado a dónde… -dijo Alicia.
-Entonces tampoco importa demasiado en qué dirección vayas -contestó el Gato.
-… siempre que llegue a alguna parte -añadió Alicia tratando de explicarse.
-Oh, te aseguro que llegarás a alguna parte -dijo el Gato- si caminas lo suficiente.”

La socarronería nihilista del gato Chesire está sólo a un paso milimétrico de Groucho Marx, es lógico sólo porque los demás no lo son, ríe y se carcajea cuando los demás se enfurecen, se burla, pero sólo con saña cuando se trata de los personajes más malvados (la Duquesa, la Reina), es el gran bufón de Alicia en el País de las Maravillas y el gran bufón (los sabios lo saben) ha de ser tomado muy seriamente.
Tal vez uno de los episodios más memorables de Alicia sea el de la Reina intentando decapitar al Gato cuando se aparece en el cielo en forma de cabeza gigante.
¿Cómo decapitar a alguien que es sólo una cabeza? La imposibilidad de cortar la cabeza al gato Chesire es uno de los símbolos más logrados de Alicia, y más contemporáneo también. La risa es la manifestación suprema de la superioridad, pero no de un hombre sobre otro (como cree la Reina) sino del hombre sobre su propia naturaleza.
Andrés Barba»

Texto publicado hoje, no suplemento Babelia (El País), incluído num dossier em que vários criadores espanhóis abordam as suas personagens preferidas de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. Andrés Barba é escritor e nasceu em 1975.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges