422
São 422, os romances originais concorrentes ao Prémio LeYa. Quatrocentos e vinte e dois cães a um osso. E um osso que no fim de contas pode não passar de uma ilusão.
João Aguiar troca LeYa pela Porto Editora
O romancista João Aguiar anunciou que vai publicar os seus dois próximos romances na Porto Editora, única forma de “continuar a trabalhar” com Manuel Alberto Valente, o ex-director-geral da Asa que o foi buscar à Dom Quixote e o acompanhou durante 18 anos. Além de Aguiar, consta que Valente vai conseguir roubar alguns nomes fortes do catálogo internacional da sua antiga editora, como Luis Sepúlveda e Paul Auster. Resta saber se, no universo de autores da LeYa, estas serão fugas pontuais ou o início de um êxodo.
LeYa quer comprar Oficina do Livro
A LeYa já era enorme, agora vai ficar gigantesca. Ao rol de editoras que passou a deter no final de 2007, Miguel Pais do Amaral poderá acrescentar em breve o Grupo Oficina do Livro, num processo de aquisição que está neste momento em curso, por verbas ainda não divulgadas. Eis o comunicado de imprensa emitido ao final da tarde, dando conta do negócio:
«A Leya e a Explorer Investments assinaram ontem o contrato-promessa de aquisição do Grupo Oficina do Livro, que integra as editoras Oficina do Livro, Casa das Letras, Teorema, Estrela Polar e Sebenta.
Com o objectivo de consolidar a Leya no mercado editorial nacional, reforçando a sua liderança em termos de volume de negócios, esta operação vai ao encontro da estratégia de criar um grupo com dimensão internacional no campo da Língua Portuguesa, garantindo que o pilar português da Leya apresente uma dimensão que lhe permita encontrar o necessário equilíbrio com o que se pretende que venha a ser o pilar brasileiro, a desenvolver.
Por outro lado, esta aquisição justifica-se pelo facto de o Grupo Oficina do Livro ser uma empresa muito rentável e com uma agressiva dinâmica editorial, de marketing e comercial. O Grupo Oficina do Livro é, ainda, uma empresa que dispõe de excelentes recursos humanos e de uma forte organização e posicionamento de mercado. Acresce, também, que ambas as empresas comungam de uma aposta estratégica de promoção dos autores de língua portuguesa.
A Leya manterá a identidade e independência editorial das editoras que integram o Grupo Oficina do Livro, à semelhança do que aconteceu com as restantes editoras do grupo Leya. A Direcção-geral do Grupo Oficina do Livro continuará a ser da responsabilidade de António Lobato de Faria, que tem vindo a desempenhar um trabalho notável no desenvolvimento daquelas editoras.
A Explorer Investments congratula-se com esta operação, que vem culminar todo o trabalho desenvolvido para transformar o Grupo Oficina do Livro no conjunto de editoras sólidas e de referência nacional que hoje representa e que contribuiu de forma decisiva para a sua valorização.»
Curioso é este comentário, que evoca tanto O Padrinho como Os Sopranos, deixado pelo escritor Rui Zink na edição electrónica do jornal Público (partindo do princípio de que se trata mesmo do escritor Rui Zink e não de alguém a fazer-se passar por ele): “Just when I thought that I was out, they PULL me back in!”
LeYa menos
Era previsível. Enquanto grupo, a LeYa só arranca no final do mês, mas as deserções já começaram. Se a transferência de Francisco José Viegas para a Bertrand se compreende, uma vez que vai dirigir a partir de Maio a revista Ler, do grupo Bertelsmann/Círculo de Leitores (evitando assim conflitos de interesses), já a saída de Manuel Alberto Valente, um dos melhores editores portugueses (editor-editor, a sério, para quem a literatura é muito mais do que um negócio), representa um sinal claro do que aí vem.
Valente escreve a meias com Viegas na blogosfera. Ao contrário deste, ainda não explicou as suas razões. Nem precisa. Qualquer pessoa com dois dedos de testa adivinha quais foram e sabe que não auguram nada de bom.
Quer ganhar 100 mil euros? Pergunte-me como
É simples. Primeiro, procure nas gavetas lá de casa se tem um romance com mais de 200 páginas pronto a editar. Caso não tenha, compre uma resma de papel e uma Remington em 15.ª mão (se for um fetichista armado em Hemingway) ou abra um ficheiro do Word e lance-se ao trabalho (se for apenas um candidato a escritor, moderno e pragmático). Quando tiver terminado a sua obra-prima, de preferência antes de 15 de Junho, leia este regulamento, trate da parte burocrática, envie tudo para a morada no Cacém e aguarde que a sorte grande ande à roda em Frankfurt, lá para Outubro. Ah, já agora não se esqueça de ler as letras pequeninas, que neste caso têm o mesmo tamanho das outras mas foram deixadas estrategicamente para os artigos finais (o 13, o 14, o 15 e o 16).
O almoço agradável
Segundo a edição de ontem do Diário de Notícias, Miguel Pais do Amaral almoçou por estes dias com António Lobo Antunes, o autor mais importante do catálogo da Dom Quixote, a última das editoras adquiridas pelo empresário para a sua holding. E tudo indica que Lobo Antunes, depois de ameaças veladas em entrevistas, vai permanecer onde está. Contactado pelo jornal, o patrão da Leya não quis revelar o conteúdo da conversa e “remeteu qualquer esclarecimento sobre o assunto para o escritor”. Mas este não foi menos lacónico: “Uma vez que Pais do Amaral não faz comentários sobre o encontro, não seria elegante da minha parte fazê-lo. Digo apenas que foi um almoço agradável.”
Resumindo: Pais do Amaral providenciou a Lobo Antunes o mesmo tratamento que reservara a Saramago (uma explicação privada, os salamaleques da praxe) e tudo entrou nos eixos. Como insinuei aqui, a intenção de “sair” manifestada pelo autor de Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo não passava de fogo-de-vista. Lobo Antunes, mais do que a impor a sua dignidade literária, estava era a pedir mimo. E Pais do Amaral, em prol do negócio, deu-lho.
MeYA
Um dos grandes objectivos da concentração de empresas, já se sabe, consiste em reduzir o número de trabalhadores. Criam-se departamentos transversais e corta-se no pessoal. É também isso que está a acontecer na tão falada holding de Miguel Pais do Amaral: na apresentação da nova marca do grupo já só estiveram 549 funcionários, dos 670 que havia antes (correspondendo a uma quebra de 18%), mas há quem fale num downsizing ainda maior, na ordem dos 40%. Veremos. Mas se quase metade das pessoas que trabalhavam nas editoras progressivamente adquiridas por Pais do Amaral forem efectivamente dispensadas, talvez valesse a pena mudar o nome da holding de LeYa para MeYa. É que em vez da Caminho, da Asa, da Dom Quixote, da Texto, da Gailivro, da Novagaia, da Ndjira e da Nzila, vamos ter meia Caminho, meia Asa, meia Dom Quixote, meia Texto, meia Gailivro, meia Novagaia, meia Ndjira e meia Nzila.
LeYa on-line
Já há site para o novo império editorial português: www.leya.com.
[Revelado anonimamente nos comentários a um post do BlogTailors]
Uma mascote possível

Leya, a cadela Yorkshire Terrier de José Mourinho.
Um slogan possível
LeYa — tudo até ao fim
Em vez de leão, jibóia
Lembram-se desta metáfora visual zoológica (que alguns talvez tenham considerado excessiva)? Ontem, Isaías Gomes Teixeira corroborou-a:
A estratégia a adoptar no Brasil, onde Pais do Amaral também pretende vir a comprar editoras, ainda não foi delineada, mas será uma prioridade no futuro do grupo. “Neste momento, somos a jibóia a digerir o búfalo”, disse Gomes Teixeira. “O Brasil virá a seu tempo…”
LeYa

A marca LeYa (com y maiúsculo, segundo o Público) foi hoje apresentada, no Centro de Congressos do Estoril, por Isaías Gomes Teixeira, administrador da holding de Miguel Pais do Amaral. Além da intenção já antes demonstrada de fazer com que o projecto “cresça” (previsão de mil novos títulos em 2008 e um volume de negócios de 90 milhões de euros, tendo como objectivo tornar-se, em breve, «o maior grupo editorial de toda a área da língua portuguesa»), houve duas grandes novidades:
- O esclarecimento de que cada editora manterá a sua chancela antecedida pelo nome do grupo. Ou seja, teremos a LeYa-Caminho, a LeYa-Dom Quixote, a LeYa-Asa, etc. (A marca LeYa foi criada pelo publicitário Carlos Coelho, que a considera «nobre, simbolizando o Y a abertura da nossa língua».)
- O anúncio da criação do prémio literário LeYa, no valor de 100 mil euros, para um romance inédito escrito em português, a atribuir durante a Feira de Frankfurt (com a ideia de “exportar” os “nossos autores”). O regulamento será conhecido a 15 de Fevereiro.
Quanto ao primeiro ponto, parece-me que haverá inevitavelmente uma descaracterização da identidade de cada uma das editoras, agudizada pelo previsível nivelamento das linhas gráficas. Ter o nome da holding à frente (e não atrás) da designação original das editoras, empobrece-as, coloca-as em segundo plano, exibe de forma quase hostil quem realmente manda. E, para piorar as coisas, a marca LeYa é de uma pobreza franciscana. Fora o imperativo fonético (leia!), não diz absolutamente nada. Parece um nome made in China, um nome da loja dos trezentos. Já para não dizer que o simbolismo do Y enquanto «abertura da nossa língua» (abertura a quê ou de quê?) é um rotundo disparate, a começar pelo facto da letra tão na moda (veja-se a Byblos) não existir sequer no alfabeto português.
O prémio literário levanta-me ainda mais dúvidas. Cem mil euros é muito dinheiro. Ou seja, tanto como o atribuído pelo Prémio Camões, de longe o mais importante do espaço da lusofonia, mas que distingue uma carreira (como o Nobel) e não um livro concreto. Neste campeonato, digamos assim, o LeYa não tem rival à altura na CPLP: o Prémio PT de Literatura em Língua Portuguesa atribui um total de 70 mil euros (mas apenas 37.500 para o vencedor), o Prémio Saramago ”fica-se” pelos 25 mil euros e o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores não ultrapassa os 15 mil euros. Na verdade, o LeYa pede meças aos principais prémios do mundo anglófono, sendo superior ao Costa Book Awards (40 mil euros) e mesmo ao tão mediático Man Booker Prize (cerca de 67 mil euros), ficando apenas aquém do maior prémio para um livro: o IMPAC Dublin (127 mil euros).
Financeiramente, o LeYa vai ser incontornável. Resta saber qual a sua credibilidade. É que se alguns dos prémios atrás referidos são patrocinados por empresas assumidamente não-literárias (especialistas em investimentos alternativos, café ou sistemas de controlo), o LeYa vai ter como patrono uma holding editorial. Como é que vão ser geridos os conflitos de interesses? Se o prémio é aberto a todos os autores de língua portuguesa, será que os escritores publicados pela LeYa podem participar? Por outro lado, se os nomes fortes da casa ficarem de fora (como a lógica e a transparência exigem), que interesse é que a LeYa terá em premiar e promover autores de outras editoras ou grupos concorrentes?
Ainda há aqui muitas zonas de sombra. Esperemos que se dissipem no dia 15 de Fevereiro.
PS — Estou muito curioso de saber que figuras serão convidadas para o júri…
PS 2 — O objectivo de “internacionalizar” os autores lusófonos, anunciando o prémio em Frankfurt, revela ambição. Mas, é bom dizê-lo, também alguma ingenuidade. Sabendo-se que por aqueles dias os suecos revelam a identidade do Nobel da Literatura, alguém vai ligar alguma coisa ao vencedor do prémio português com nome patusco?
[Foto: DN]
Com quatro letrinhas apenas
Segundo os BlogTailors, o recentemente ampliado grupo editorial de Miguel Pais do Amaral (agora com a Dom Quixote a bordo) já tem nome: Leya.


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