Cinco poemas de Liberto Cruz

POEMA CONTRA A CIDADE

Aqui na cidade nossos dedos não acabam gestos
E a incauta presença nos suga
O esforçado mel de todos os dias.

São inúteis todos os rios de resina,
Todas as amoras maduras
Que pisámos, bravas,
No intervalo das estações.

As primeiras chuvas são apenas
Primeiras chuvas
E as crianças brincando são apenas
Crianças brincando.

Punhais de duas lâminas nos correm nas veias
E cavalos selvagens penetram
Em nosso corpo, até à raiz dos ossos.

Falsos, caminhamos, esmagados os olhos
Pela indiferença das árvores,
Pelo silêncio dos cisnes.

Aqui na cidade, talvez tudo seja o contrário,
Do que digo, do que escrevo,
Mas a amada perde-se em florestas de ar puro
E meus dedos não acabam gestos,
Não conseguem a calma da sua presença.

***

Vem a noite. E um límpido
E frio cansaço rompe
Entre as árvores. O mar
Abranda quase ausente.

Breve toda a esperança
Já o sonho não persiste
E só o medo aumenta
A raiva o desespero.

Uma corda: a solidão.
Uma névoa antiga
E depois a queda livre

O alívio talvez.
Quem sua vida comanda
Também a morte ordena?

***

Lembro o vinco do lençol
Uma certa mancha leve
Que mui de leve tacteio.
Lembro o perfil dos seios

A lisa curva do ventre.
Os dedos a divagar
Vão pelo cetim da pele
Vão a chama pressentindo.

Intermitente leitura
De um corpo todo meu
Na penumbra o evoco

Sua ausência folheio.
E de novo recupero
A memória do seu rosto.

***

Trinta e sete braços:
o dragoeiro
é um candelabro
de sombras orientais.

***

A folha em branco:
um campo minado.

[in Poesia Reunida, 1956-2011, Palimage, 2012]

Prémio Blaise Cendrars para Liberto Cruz

O poeta, ensaísta e tradutor português venceu a edição deste ano do Prix National Blaise Cendrars, instituído pela cidade de Vannes (Bretanha, França).

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges