Últimas pétalas da metralha

memoraveis

Os Memoráveis
Autora: Lídia Jorge
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 342
ISBN: 978-972-20-5436-2
Ano de publicação: 2014

Numa casa de madeira e vidro, em Washington, Frank Carlucci, o antigo embaixador americano em Lisboa, tenta convencer uma repórter portuguesa, de 28 anos, a participar numa série da CBS, com coordenação do seu afilhado, Robert Peterson. Em A História Acordada, a ideia é reunir um conjunto de narrativas edificantes, «luminosas», próximas do «júbilo», sobre transições pacíficas para a democracia: na República Checa, na Hungria, na Alemanha quando caiu o Muro, e, antes de todas essas, em Portugal, a cuja Revolução dos Cravos será dedicado o primeiro episódio. Esta cena, a primeira de Os Memoráveis, decorre no final de 2003, a poucos meses do trigésimo aniversário do 25 de Abril.
Aceitando regressar à pátria em trabalho, depois de ter vivido experiências traumáticas em cenários de guerra, Ana Maria Machado tem como missão «recolher o resto da metralha de flores que ainda existe entalada entre as pedras da calçada de Lisboa». Fazendo equipa com dois colegas de curso, também já nascidos em liberdade (uma jornalista instintiva, capaz de aprender depressa; e um operador de câmara a tender para o distanciamento cínico), ela começa a sua busca das «últimas pétalas da metralha» tendo como bússola uma fotografia encontrada em casa do pai. Nessa imagem, captada durante um jantar em Agosto de 1975, sentam-se à mesma mesa vários pesos-pesados da Revolução, escondidos atrás de alcunhas que são fáceis de descodificar: El Campeador é Otelo Saraiva de Carvalho; Charlie 8 é Salgueiro Maia; Vasco Lourenço, o Oficial de Bronze. Mas há mais gente: um castiço da rádio com «olhar guevarista» (Salamida, responsável por um incidente, ao benzer de forma imprópria o conteúdo de uma terrina, que envenenará a noite), o próprio fotógrafo, o cozinheiro, três barbudos «esguedelhados», o pai e a mãe de Ana Maria, um casal de poetas.
A força da fotografia está na «dimensão testemunhal de um momento acontecido nas costas da história» – isto é, no lugar onde se esboçou o que poderia ter sido e não foi. Naquela noite de desavenças e reconciliações, os oficiais presentes traziam papéis dobrados no bolso da camisa, documentos que mudariam, se assinados por todos, «o rumo deste país». Mas não mudaram coisa nenhuma, como se perceberia definitivamente três meses depois. Ao entrevistar uma a uma aquelas figuras, a equipa de jovens jornalistas vai entrando no labirinto da revolução, «fábula» contada por quem a viveu. Além de se evocarem as contingências, acasos, «milagres» e mitos daquele dia em que cinco mil heróis anónimos derrubaram um regime podre, surgem – dolorosas – as marcas de um falhanço colectivo que condenou estes homens «à perda e à desilusão». No seu desamparo, eles assemelham-se à imaginária vigésima quinta coluna, um «comboio de carros militares que durante trinta anos não encontra o objectivo, e apesar de se ir desfazendo, perdendo rodas, espelhos, torres, traves, condutores, não desiste do seu propósito, e vai avançando ruas fora, sem parar».
Lídia Jorge articula, com mestria narrativa e requinte estilístico, os vários ângulos desta investigação, na procura de uma verdade a que talvez seja impossível fazer justiça, como se comprova no guião final do episódio (terceira e última parte do romance). O esteio de Os Memoráveis, que lhe dá consistência e espessura, é a história da difícil relação entre Ana Maria e o pai, António Machado, «figura de papel», antigo cronista de referência, «profeta em relação ao mundo» mas «cego em relação a si mesmo». Na sua decadência, no seu penoso processo de desligamento e clausura, ele simboliza todos os derrotados, mesmo os póstumos. E é dele que emana a melancolia que atravessa o livro de ponta a ponta.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Loulé homenageia Lídia Jorge

O pretexto é o trigésimo aniversário da publicação de O Dia dos Prodígios, romance de estreia da escritora algarvia.

O crocodilo do Mississipi

pracalondres.jpg

Praça de Londres
Autora: Lídia Jorge
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 98
ISBN: 978-972-20-3625-2
Ano de publicação: 2008

Em Genebra, numa loja de luxo, duas mulheres cobiçam uma mala de mão. É um “objecto perfeito”, um artigo autêntico em pele de “crocodilo puro das margens do Mississipi”. No jogo da ficção, a mala passa a ser muito mais do que uma mala. Simboliza o animal antiquíssimo de “dinossáurico cachaço”, o grande macho “a escapulir-se do terciário” e a entrar na vida das burguesas consumistas, como uma ameaça. Que fazer daquele reflexo fugidio dos instintos mais básicos? A resposta é simples: “O nosso dever era capturá-lo, amarrá-lo, dominá-lo, levá-lo pela trela como um cão.” Nada que não se consiga com um cartão de crédito, mesmo se a arrogância das compradoras logo empalidece com a descoberta de um zero a mais à direita, catástrofe financeira que abala o orgulho feminino mas não o faz voltar atrás, agora que “o despojo do monstro” sinaliza a vitória sobre “o tempo escuro, o medo milenar”.
Neste conto, intitulado Rue du Rhône, está a matriz narrativa da quase totalidade das histórias do livro, nas quais existe sempre, a servir de foco, uma imagem que condensa as angústias mais secretas das personagens. Pode ser o ancestral crocodilo do Mississipi. Pode ser um homem velho que leva uma criança ao colo pela rua e a beija “sofregamente”, catalizando o desassossego de certa criminosa, carregada com as supostas provas que a ilibam (Praça de Londres). Pode ser a “sombra do casaco” de uma gerente bancária, abrigo temporário de rapazes que acabarão por assaltá-la, traindo a sua confiança e dando razão ao cinismo dos que não acreditam na possibilidade da inocência (Branca de Neve). Ou pode ser um anel de noivado engolido por um gato, pretexto para o fim de uma relação amorosa e para o início, apenas em esboço, de uma outra (Viagem para Dois).
O principal problema destes textos está no modo como neles se procura, quase sempre em vão, o tom e ritmo certos para cada uma das histórias. Sejamos claros: Lídia Jorge é uma romancista. Necessita por isso de um fôlego e de uma largueza de horizontes que o conto manifestamente não lhe dá. Ao insistir na forma curta, a autora de Combateremos a Sombra assemelha-se às mulheres de Genebra: de tanto quererem levar o crocodilo do Mississipi pela trela, como um cão, sujeitam-se a preço altíssimo para não o deixarem escapar. Como elas, Lídia Jorge paga esse preço – excepto em Perfume, a mais longa e mais equilibrada das cinco narrativas, uma variação sobre o tema do filme Yol, do realizador turco Yilmaz Güney, que nos conduz por um subtil labirinto de emoções até ao magnífico desenlace.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no número 71 da revista Ler]

Lembrete

O ciclo ‘Asas sobre a América’ prossegue mais logo, pelas 18h30, na Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, com uma conferência de Lídia Jorge sobre William Faulkner. Antes, Laura Fernanda Bulger, Professora de Teoria da Literatura e Literatura Inglesa (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro) fará uma breve apresentação.

Lídia Jorge na ‘Lire’

lidiajorge.jpg

André Clavel, o crítico da Lire que elogiou Saramago no número de Fevereiro da revista, volta a abordar um romance português na edição deste mês: Nous combattrons les ombres (Combateremos a Sombra), de Lídia Jorge, traduzido por Geneviève Leibrich para a Métailié, mereceu-lhe igualmente três estrelas e comentários como estes:

«Avec Nous combattrons les ombres, la grande dame des lettres portugaises [estará a esquecer-se de Agustina?] continue à égregner sa petite musique lancinante, légère et mélancolique comme un air de fado. (…) De pièges en tentations, ce prisonnier des ombres [Osvaldo, o psicanalista que protagoniza a história] ne cessera d’être confronté à des combats que le dépassent, dans un monde où s’effacent les frontières entre réalité et illusion. Sur le thème du “mentir vrai”, Lídia Jorge est intarissable, et sa prose crépusculaire nous envoûte.»

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges