Fragmentária Ciência

Pneuma
Autor: Luís Carlos Patraquim
Editora: Caminho
N.º de páginas: 76
ISBN: 978-972-21-2026-5
Ano de publicação: 2009

O título da mais recente recolha de poemas de Luís Carlos Patraquim – Pneuma – remete para uma palavra do Grego antigo cujo significado literal é «respiração», ou «ar em movimento», mas que no contexto religioso cristão também pode designar o «espírito» ou a «alma». É entre estes dois extremos (de um lado, o sopro da natureza; do outro, a essência do humano) que se organiza esta escrita sempre a tender para a «genesíaca louvação / dos nomes». A começar pelos nomes de vários poetas moçambicanos desaparecidos (entre os quais José Craveirinha, Alberto de Lacerda, Rui Knopfli e Sebastião Alba), evocados num tom simultaneamente celebratório e melancólico. Atente-se na última estrofe do belíssimo poema dedicado a Knopfli:

E se houve cão e a angústia e o sarcasmo da rosa,
A de plástico,
Invoco-te os jacarandás no túnel da avenida alta
atapetando-nos as sensações,
Para que te visitem onde escreves, acocorado,
Na erma savana com os rios ao longe,
Inhambane ou Pasárgada, Vila Viçosa, a Londres mítica,
Joeburg e a terra desolada.

Há nesta poesia, a par de referências míticas e literárias facilmente reconhecíveis, uma fina rede de significantes que nalguns casos serão opacos para a maioria dos leitores, mas sem que boicotem o efeito dos poemas, antes lhes conferindo um suplemento de estranheza e mistério. Ou não fosse esta uma «fragmentária Ciência, / resvalando em sua própria declinação». As imagens irrompem de todos os lados, sobrepõem-se («desencordoando o escuro») e convocam tanto paisagens sob «a lua prismática / do Índico» como os brilhos e sombras da pátria moçambicana, «rendilhada cortina / que a usura pui». Na página 57, Patraquim resume o seu programa em quatro versos:

Cair do chão
ao alto

elipse
ascendente.

É essa queda para cima que este livro não cessa de cantar.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Alexandrino

Para Luís Carlos Patraquim (cf. em Pneuma, Caminho), um alexandrino é «dois cascos a galope encurvando o verso». Não um cavalo, não quatro patas, mas apenas dois cascos. E, ainda assim, o verso curva-se.

Três poemas de Luís Carlos Patraquim

SEBASTIÃO ALBA

O que restava do odre
Tu o bebeste

Dos veios mesmo da terra

Só um rio te contempla
zambeziando

E o mar se perde
Onde navegas

O que restava do odre

E deus
Apascentando a sua
sede

Onde te ris
Torre
E chama


COLAGEM

Uma girafa com búzios
ao pescoço
os lábios nos ramos altos

Rilham

E os espinhos macerados
Concedem à savana
O dorso crepuscular
Em que se fecha


AL-GHARB

Pelo lagar da noite
Estremecem as amendoeiras

Corre no ar um tropel furtivo
Seus panos de azeite
E madeixas de sangue na corola
Das mulheres

Ela só lívida de azul e oiro
Ave do mundo

E a mãe diurna
Boca a boca multiplicada.

[in Pneuma, Caminho, 2009]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges