Sequestros e resgates

espioes

Os Espiões
Autor: Luis Fernando Verissimo
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 171
ISBN: 978-972-20-3922-2
Ano de publicação: 2009

O narrador de Os Espiões (primeiro romance escrito de moto próprio por Luis Fernando Verissimo) é um «camaleão» imperfeito que deseja desaparecer «contra o fundo» mas nunca consegue. Responsável, numa pequena editora, pela selecção de originais e pelas cartas de recusa, ele afoga em álcool a sua insatisfação profissional e familiar, até ao dia em que começa a receber às prestações o manuscrito de uma certa Ariadne, candidata a escritora, cujo projecto literário consiste em revelar a sua história de amores proibidos e crimes de sangue numa cidade do interior (Frondosa), suicidando-se no fim.
Apesar dos erros ortográficos e da ausência de vírgulas, o texto deslumbra tanto o editor como os amigos com quem costuma discutir no bar do Espanhol. Acreditando na veracidade do relato, o grupo decide montar uma «Operação Teseu» que inverta o mito e salve Ariadne, presa ainda no labirinto (à mercê de um temível Minotauro de apelido italiano) ou já em Naxos, aguardando um Dionísio que a redima.
Exímio na caracterização das personagens, Verissimo oferece-nos uma galeria de tipos inesquecíveis, de que fazem parte o Professor Fortuna, especialista em sexo tântrico sem contacto físico e em tiradas definitivas sobre autores que não leu («A literatura terminou com Sófocles. Tudo que veio depois é post-scriptum.»); o «Uruguaio», milionário que ganhou a sua fortuna ao apostar contra o Brasil na célebre e traumática final da Copa do Mundo, em 1950, esbanjando o dinheiro, desde então, para expiar a culpa; e Afonso, director do jornal Folha de Frondosa, estalinista empedernido que procura, à falta de revoluções, criar uma «rosa de um vermelho inédito» – a que chamaria, claro está, Rosa Luxemburgo.
Nunca perdendo o fio da narrativa (muito bem arquitectada, com os vários elementos da intriga a encaixarem-se na perfeição), o escritor gaúcho conseguiu urdir uma história sólida mas leve, alucinante e divertidíssima, onde cabem De Chirico e Sylvia Plath, conspirações e plágios, sequestros e resgates, cemitérios e bordéis, exercicíos meta-ficcionais e crónica de costumes, literatura e futsal. Em duas palavras: uma delícia.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O verdadeiro teste para um escritor é o ponto e vírgula

«O professor Fortuna tinha sempre a barba por fazer e vestia um sobretudo cor de rato molhado, fosse qual fosse a estação do ano. Não é um homem feio, mas era tão difícil acreditar nas peripécias sexuais que contava (“aprendi na Índia”) quanto acreditar que lia grego no original, como também afirmava. Dizia que qualquer dia me entregaria para publicação o livro que estava escrevendo, uma resposta à Crítica da Razão Pura com o título provisório de Anti Kant. Sabíamos quase nada da sua vida, mas tínhamos certeza de que o livro não existia e que ele nunca lera Kant. Ou Nietzsche. Dubin e eu frequentemente o envolvíamos em nossas discussões, mesmo quando a sua mesa estava longe da nossa e tínhamos que gritar para que nos ouvisse.
– Qual é a sua posição sobre a vírgula, professor?
E ele:
– Sou contra!
Tese do professor: vírgula qualquer um põe onde quiser. O verdadeiro teste para um escritor é o ponto e vírgula, que, segundo ele, até hoje ninguém soube como usar. Salvo, talvez, o Henry James, que ele obviamente também nunca leu. Um debate reincidente entre nós era se livros policiais e de espionagem podem ser boa literatura. Eu dizia que sim, o Dubin não tinha certeza e o professor não tinha dúvida: era lixo. Ele reagia às minhas evidências em contrário com sons de desprezo. Graham Greene? Bó! Rubem Fonseca? Blech! Raymond Chandler? Acht! Uma vez perguntei se ele tinha comprado um certo livro do John Le Carré.
– Pra quê? Já tenho papel higiênico em casa.
Só não me levantei para bater nele porque não conseguiria. Era sábado e eu já estava a meio caminho do fundo.»

[in Os Espiões, de Luis Fernando Verissimo, Dom Quixote, 2009]

Um carnaval a meio-gás

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Orgias
Autor: Luis Fernando Verissimo
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 130
ISBN: 978-972-20-3638-2
Ano de publicação: 2008

Luis Fernando Verissimo conhece, como poucos, a arte de escrever uma crónica. Durante anos a fio, ele publicou várias por semana (nalguns dos principais jornais do Brasil) e foi apurando uma técnica, uma voz única, um estilo. Há uma maneira de dizer as coisas que é só dele. Um jeito de pegar nas palavras que mais ninguém tem. E isso é ao mesmo tempo a sua maior virtude e o seu maior defeito. Virtude porque o leitor reconhece à légua a sua bonomia, a prosa leve, o humor suave, e deixa-se levar com gosto por aquele desprendimento irónico que não abdica da inteligência (nem da capacidade de denúncia). Defeito porque Verissimo escreve com tanta facilidade que às vezes cai na rotina e não capricha tanto como seria de esperar.
Orgias é o sexto volume antológico de Verissimo editado pela Dom Quixote, mas está longe de ser uma colheita vintage. Embora o mote das histórias seja sugestivo (a ideia de festa: do Carnaval às confraternizações das empresas; do Ano Novo aos apocalípticos aniversários infantis), o resultado é quase sempre decepcionante. Está lá tudo o que é suposto estar num texto de Verissimo – caos made in Brasil, folia, muito sexo, futebol, personagens descabeladas, diálogos cirúrgicos – mas falta aquilo que separa a eficácia da genialidade.
As crónicas sem rasgo (para não dizer burocráticas) estão em maioria, talvez porque 2005 foi um ano de pouca inspiração para LFV. E o livro só não é um falhanço completo porque há meia dúzia de pérolas que o redimem. Como Exercícios para o Verão, por exemplo, uma deliciosa paródia à ditadura da boa forma física e da tonificação muscular, em que o acto de beber um “chope” (cerveja) é equiparado ao uso daquelas horríveis máquinas de abdominais que se vendem no teleshopping. Ou Um Baile em Algum Lugar, divertidíssima descrição de uma ida colectiva para um Carnaval que não chega a acontecer. Ou ainda miniaturas exemplares: O Nostálgico, Comemoração, Infidelidades, Seu Pompom, Sexo Sexo Sexo.
Neste último texto, encontramos mesmo um vislumbre de Verissimo no seu melhor: “Eu sou masoquista e minha mulher é sádica, mas o que estraga o nosso relacionamento é o ciúme. Quando eu chego em casa com uma mancha vermelha na camisa, preciso jurar que não é sangue, é batom, senão ela tem um ataque histérico e, como castigo, não me bate.”

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Comemoração

«Sete de cada lado, as mulheres assistindo, todos com barriga e pouco fôlego. Menos o Arruda. O Arruda em grande forma. Magro, ágil, boa cabeleira. Cinqüenta anos, mas conservadíssimo. E brilhando em campo.
Foi depois do Arruda dar um passe para ele mesmo, correr lá na frente como um menino, chutar com perfeição e fazer o gol, para delírio das mulheres, que todo o time correu para abraçá-lo. Que gol! O Arruda era demais. Empilharam-se em cima do Arruda.
Apertaram o Arruda. Beijaram o Arruda. O Arruda depois diria que alguém tentara morder a sua orelha. Quando o Arruda quis se levantar para recomeçarem o jogo, não deixaram. Derrubaram o Arruda outra vez. Quando ele parecia que estava conseguindo se livrar dos companheiros, veio o time adversário e também pulou no bolo para cumprimentar o Arruda.
O Arruda acabou tendo que sair de campo, trêmulo, amparado pelas mulheres indignadas, enquanto o jogo recomeçava, agora só com os fora de forma. Na hora do churrasco, o Arruda ainda não estava totalmente recuperado da comemoração. Para aprender.»

[in Orgias, de Luis Fernando Verissimo, Dom Quixote, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges