Um carnaval a meio-gás

Orgias
Autor: Luis Fernando Verissimo
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 130
ISBN: 978-972-20-3638-2
Ano de publicação: 2008
Luis Fernando Verissimo conhece, como poucos, a arte de escrever uma crónica. Durante anos a fio, ele publicou várias por semana (nalguns dos principais jornais do Brasil) e foi apurando uma técnica, uma voz única, um estilo. Há uma maneira de dizer as coisas que é só dele. Um jeito de pegar nas palavras que mais ninguém tem. E isso é ao mesmo tempo a sua maior virtude e o seu maior defeito. Virtude porque o leitor reconhece à légua a sua bonomia, a prosa leve, o humor suave, e deixa-se levar com gosto por aquele desprendimento irónico que não abdica da inteligência (nem da capacidade de denúncia). Defeito porque Verissimo escreve com tanta facilidade que às vezes cai na rotina e não capricha tanto como seria de esperar.
Orgias é o sexto volume antológico de Verissimo editado pela Dom Quixote, mas está longe de ser uma colheita vintage. Embora o mote das histórias seja sugestivo (a ideia de festa: do Carnaval às confraternizações das empresas; do Ano Novo aos apocalípticos aniversários infantis), o resultado é quase sempre decepcionante. Está lá tudo o que é suposto estar num texto de Verissimo – caos made in Brasil, folia, muito sexo, futebol, personagens descabeladas, diálogos cirúrgicos – mas falta aquilo que separa a eficácia da genialidade.
As crónicas sem rasgo (para não dizer burocráticas) estão em maioria, talvez porque 2005 foi um ano de pouca inspiração para LFV. E o livro só não é um falhanço completo porque há meia dúzia de pérolas que o redimem. Como Exercícios para o Verão, por exemplo, uma deliciosa paródia à ditadura da boa forma física e da tonificação muscular, em que o acto de beber um “chope” (cerveja) é equiparado ao uso daquelas horríveis máquinas de abdominais que se vendem no teleshopping. Ou Um Baile em Algum Lugar, divertidíssima descrição de uma ida colectiva para um Carnaval que não chega a acontecer. Ou ainda miniaturas exemplares: O Nostálgico, Comemoração, Infidelidades, Seu Pompom, Sexo Sexo Sexo.
Neste último texto, encontramos mesmo um vislumbre de Verissimo no seu melhor: “Eu sou masoquista e minha mulher é sádica, mas o que estraga o nosso relacionamento é o ciúme. Quando eu chego em casa com uma mancha vermelha na camisa, preciso jurar que não é sangue, é batom, senão ela tem um ataque histérico e, como castigo, não me bate.”
Avaliação: 6/10
[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]
Comemoração
«Sete de cada lado, as mulheres assistindo, todos com barriga e pouco fôlego. Menos o Arruda. O Arruda em grande forma. Magro, ágil, boa cabeleira. Cinqüenta anos, mas conservadíssimo. E brilhando em campo.
Foi depois do Arruda dar um passe para ele mesmo, correr lá na frente como um menino, chutar com perfeição e fazer o gol, para delírio das mulheres, que todo o time correu para abraçá-lo. Que gol! O Arruda era demais. Empilharam-se em cima do Arruda.
Apertaram o Arruda. Beijaram o Arruda. O Arruda depois diria que alguém tentara morder a sua orelha. Quando o Arruda quis se levantar para recomeçarem o jogo, não deixaram. Derrubaram o Arruda outra vez. Quando ele parecia que estava conseguindo se livrar dos companheiros, veio o time adversário e também pulou no bolo para cumprimentar o Arruda.
O Arruda acabou tendo que sair de campo, trêmulo, amparado pelas mulheres indignadas, enquanto o jogo recomeçava, agora só com os fora de forma. Na hora do churrasco, o Arruda ainda não estava totalmente recuperado da comemoração. Para aprender.»
[in Orgias, de Luis Fernando Verissimo, Dom Quixote, 2008]


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