Holden Caulfield a salvo da velhice

Luís M. Faria esteve atento à defesa que J. D. Salinger fez da sua obra mais conhecida (posta em causa por uma sequela manhosa, escrita por um escritor oportunista) e ofereceu ao Bibliotecário de Babel a sua visão da polémica literária deste Verão nos EUA:

HOLDEN CAULFIELD A SALVO DA VELHICE

Salinger é um escritor que não gosta de abusos. Há uns anos, um biógrafo de renome quis fazer um livro sobre ele e tramou-se. Salinger processou, e deu-lhe tanto trabalho que a carreira do homem nunca mais recuperou. Em tempos mais recentes, uma antiga amante e uma filha também escreveram livros sobre o autor de «Catcher in the Rye», para grande indignação dele. Outra coisa que o irrita são fotografias não-autorizadas, e houve algumas ao longo dos anos. Mas agora aconteceu uma afronta diferente. Alguém publicou um romance que se pretendia uma homenagem, mas foi tratado como uma sequela – logo, uma obra derivada, logo proibida por lei. O atrevido, que escrevia com o óbvio e absurdo pseudónimo de J. D. Califórnia, era na realidade Fredrik Colting, um jovem sueco. O seu livro, «60 Years Later», segue um personagem de 76 anos a partir do momento em que ele foge do hospital mental onde se encontra internado. Os paralelos com Holden Caulfield, protagonista de «Catcher», são mais que evidentes. Não apenas ao nível da narrativa – Caulfield também deambula por Nova Iorque durante uns dias; no seu caso, após escapar do colégio interno – como ao nível da linguagem. Isso mesmo assinalou o tribunal, que acaba de proibir a publicação da obra nos EUA. Expressões características de Caulfield, tais como «crumby», «lousy»,«bastard» e «kills me», abundam no romance de Colting. Os personagens principais também são os mesmos. O texto de modo algum pode ser considerado um mero exercício de crítica ou paródia, como alega a defesa. Salinger, que não publica um texto original desde os anos 60, é conhecido por proteger ciosamente a sua obra, jamais autorizando adaptações, sequelas, ou quaisquer outras formas de utilização. Colting confessa-se chocado, dizendo que nunca pensou que a América impedisse a publicação de uma obra literária. Mas para Salinger a questão afigura-se simples: «É um roubo.» Quanto aos leitores, se tiverem uma palavra a dizer, é de crer que prefiram limitar-se à versão juvenil de Holden Caulfield. Um dia, daqui a 70 ou 80 anos, ele será tão utilizável, modificável e bastardável como, digamos, o sr. Pickwick ou o Quixote. Até lá, graças ao seu autor, mantém a pureza. Ainda bem.
Luís M. Faria

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges