Entre uma escarpa e uma escultura

Telefunken
Autor: Luis Maffei
Editora: Deriva
N.º de páginas: 68
ISBN: 978-972-9250-55-2
Ano de publicação: 2009

No primeiro poema deste livro, intitulado Fio, Luis Maffei estabelece de imediato uma espécie de circunferência, um limite para o alcance da sua escrita: «Só quero te deixar um breve fio, uma notícia, vaga/ luz que de fulgor tem pouca/ coisa». Eis uma poesia que abdica da transcendência e de altos voos, uma poesia rente ao chão e às coisas terrenas, atraída pelo «belo gesto do malogro» e capaz de intrometer-se no «cirúrgico intervalo entre uma escarpa e uma escultura». Ou seja, algures entre a beleza selvagem, em estado bruto (escarpa), e o gesto que lhe atribui um valor estético (escultura).
Além de breve, o «fio» que une os versos de Maffei é também frágil. Cada poema parece sempre à beira de se desfazer, vítima de um aceleradíssimo staccato e de uma sintaxe irregular, como que partida e colada de novo com fita-cola. O efeito é de vertigem verbal, queda a pique, salto no escuro. O poeta fala do tempo («cruel, frenético e exigente»), dessa contabilidade dos anos que «não fecha/ nunca», de futebol, das suas gatas, das cidades e dos corpos, do «metrô» e do Maracanã, como que em fuga, impossível fuga, para um lugar exterior à literatura: «Estamos, amigo, fora/ dos livros,/ num cálido corpo que eu cria não/ ser de palavras».
Estudioso e divulgador da poesia portuguesa, Maffei dialoga subtilmente com a nossa tradição poética, de Camões a Pessoa, de Gastão Cruz a Rui Pires Cabral. É um trabalho de filigrana, feito de paráfrases e desconstruções, bela homenagem de quem, diante de Sophia, se considera «andreseniano em mão segunda» e, dirigindo-se a Bocage, consegue escrever um soneto digno do vate de Setúbal.

Avaliação: 6,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Um poema de Luis Maffei

MARACANÃ, 11,04,2007

Se há,
Fernando,
uma metafísica do pênalti
ignoro.
Sei apenas que a vida é adepta de imitar
em noites assim
este jogo que é perfeito mas por
hediondo gesto: vida, morte,
vida e
a metafísica do pênalti.
E um histérico vazio à roda nossa, a velha
premissa de que tudo está errado salvo
nós, salvo este empuxe teu a me
arrancar do chão na hora do segundo gol
da gente,
salvo isso tudo que nos livra de um país tão
triste quanto um Maracanã de quarta à
noite que não sabe o que é noite ou
equinócio, tampouco a dimensão do
desbarato e somos nós
Fernando
cada vez mais sós.

Mas pouco importe. Este jogo
de novo
(e desta vez com teus braços de outras cores a
tomar em afeição meu Almirante
ou
a mim próprio)
nos fala como somos, súcubos do
pênalti e de sua metafísica, donos do direito de
abraçar a vida, a morte, a morte e
aquilo a que eu, por gana,
sei que posso dar o nome de amizade.

[in Telefunken, Deriva, 2009]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges