Desculpa esfarrapada

Lembram-se do prometido artigo de Luís Miguel Rocha sobre o Papa João Paulo I que o The New York Times ia publicar mas afinal não publicou? Num comunicado transcrito pelos BlogTailors (aqui), LMR justifica-se:

«Fui convidado a escrever um texto de opinião para o NY TIMES, sobre a morte do Papa Luciani, que acabou por não ser publicado. O editor considerou o texto demasiado forte. Seja como for, podem encontrar o texto no site da Putnam. As minhas desculpas pela publicitação de algo que não veio a acontecer. Um texto de opinião não é forte, nem fraco… é um texto de opinião.»

Pois. Acontece que as coisas não são assim tão simples. O e-mail da “assessoria” do escritor, no qual se informava que LMR fora «convidado pelo conceituado jornal New York Times para escrever um artigo de opinião sobre a morte do Papa Luciani», a publicar «na última semana de Setembro», foi enviado a 22 de Agosto. Eu recebi um forward do mail a 25 de Agosto e publiquei este post a 26. E tudo estaria bem, não se desse o caso de existir um link para a versão online do artigo na newsletter de Agosto da Penguin (como se pode comprovar aqui). Quer isto dizer que o texto já fora publicado na Internet antes de o suposto convite do The New Times ter sido anunciado. E é óbvio que o The New York Times jamais republicaria um texto de opinião nestas circunstâncias, menos ainda quando o seu conteúdo revela um grau de especulação enorme, talvez admissível no campo ficcional mas nunca nas páginas escrupulosamente vigiadas de um diário de referência.
Já lá diz o provérbio: é mais fácil apanhar um mentiroso do que um coxo. E mais fácil ainda quando o mentiroso mente mal.

Uma fraude chamada Luís Miguel Rocha

Há pouco mais de um mês, reproduzi aqui uma informação veiculada pelos serviços de “assessoria” (whatever that means) de Luís Miguel Rocha, autor de O Último Papa, segundo a qual o The New York Times teria convidado o escritor português a escrever um artigo de opinião sobre a morte do Cardeal Albino Luciani (João Paulo I), tema do seu livro. A publicação aconteceria na última semana de Setembro, “por altura dos 30 anos da morte” de Luciani. Ou seja, hoje. Na altura, concordei com alguns dos comentadores que levantaram sérias dúvidas sobre tudo o que diz e faz Rocha, uma figura obscura, saída não se percebe bem de onde e que se calhar até nem é um testa-de-ferro mitómano e burlão, mas parece mesmo um testa-de-ferro mitómano e burlão.
A prova dos nove, disse eu então, poderíamos tirá-la no fim de Setembro. E foi isso que fiz agora mesmo. Vasculhando a edição de hoje, 29 de Setembro, do The New York Times, não encontrei o mínimo vestígio de Luís Miguel Rocha ou do artigo de opinião sobre a morte do Papa João Paulo I. Rocha evoca os 30 anos da morte do Cardeal Luciani no seu site, mas nem se dá ao trabalho de explicar o que terá acontecido ao suposto texto encomendado pelo NYT, tal como nunca explicou outras promessas bombásticas que ficaram por cumprir.
Disto tudo, o que se retira é que Luís Miguel Rocha mente descarada e repetidamente. É, em todos os sentidos da palavra, uma fraude literária. Uma fraude literária à espera que alguém se dê ao trabalho de o desmascarar de vez.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges