Três poemas de Luís Pedroso

LÁ EM CIMA: VIDRINHOS, O ARRUMADOR SUPERSÓNICO

Conto as moedas todas nem mais uma
Um pacote de Bolacha Maria um de leite gordo
e três ou quatro bananas

Passo metade do meu precioso tempo
a glorificar deus
e a louvá-lo

A outra metade passo-a
a arranjar dinheiro suficiente
para o cavalo

***

NÃO ME PARECE QUE O AL GORE VISTA RÁFIA

O acelerador de partículas que instalaram na Suíça
não resolve o problema de aquecer água de manhã
nem estruma o quintal invadido por serralha e urtigas

Porque está bem de ver que a Suíça é muito longe
e o acelerador serve, imagino, para bombear
a água do mar que eles não possuem

As minhas mãos recusam-se, a partir deste momento
a fazer qualquer coisa que não seja retirar frutos
gordos e encarnados dos ramos

Os miúdos estão assustados com um indivíduo estrangeiro
Diz que é húngaro ou coisa assim
parece que se chama Euribor

Antigamente, quando era novo
conseguia ver muitos grupos de estrelas no céu
Hoje não vejo nada, as luzes não deixam ninguém ver

***

PRINCESAS DIANAS E ANTI-HERÓIS

Imaginámos santos, infantes e condestáveis
Capitães de Maio e de Abril
Meninos da lágrima e virgens de gesso
Ditadores de botas e pastorinhos de arremesso
Rainhas santas e ínclitas gerações
E o que temos são grades de minis e travessas de caracóis

Desejámos um país que não se resumisse
a travessias diárias do oceano
Bolas de berlim e guarda-sóis
Relíquias do Rio Jordão ou alegria do garrafão
e o urbanista apenas a distribuir centros comerciais
Portanto desejámos talvez demais

Recortámos o horizonte de um país de poetas
Rainhas depois de mortas e grutas para o Camões
Saudosismos de grandeza e hinos contra
os britões, sonhando com saldos e promoções
A invenção de fátimas, fados e futebóis
E temos o subsídio para uma alcatifa de girassóis

O corvo vai debicando os miolos de São Vicente,
aspirando a migrações
Crocitando os segredos da carbonária,
o corvo é o anti-herói,
farto de medalhinhas e superstições

E de vez em quando desaparecia pólvora dos armazéns
Querias um amor imune ao logro, à missão animal do isco
A perfuração dos anzóis
Mas a verdade é que vives num maravilhoso reino
de Princesas Dianas e anti-heróis
e o que me vale é que elas gostam de ir com eles para a cama
Princesas Dianas e anti-heróis

[in Princesas Dianas e Anti-heróis, edição do autor, 2009]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges