Ciclo dedicado a Luiz Pacheco

Em Beja, teatro, cinema e conferências no Teatro Municipal Pax Julia (antigo cinema). Até dia 9.

O muito esperado crocodilo

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(clique para aumentar)

Está finalmente a sair do prelo a aguardadíssima compilação de entrevistas dadas por Luiz Pacheco, com organização e introdução de João Pedro George. Editado pela Tinta da China, o volume (cuja capa aqui se divulga em primeira mão) tem para já um excelente blurb, com uma citação da última entrevista de Pacheco, publicada pelo semanário Sol: «Está para sair um livro com entrevistas suas… Esse livro é uma merda! Isso é uma aldrabice. É bom para andar por essas pequenas editoras.»

Luiz Pacheco a três quartos

No último fim-de-semana, previsivelmente, todos os semanários trouxeram um, ou mais do que um, obituário de Luiz Pacheco. O Sol valeu-se do seu trunfo (a última entrevista do escritor, ainda inédita) e ficou a ganhar, porque ninguém falava melhor de Pacheco, sobretudo dos seus excessos, das suas proezas e da sua decadência, do que o próprio Pacheco.
Juntando todas essas prosas às que já tinham sido publicadas na imprensa diária e na blogosfera, ficou-nos um retrato poliédrico que não sei se corresponde ao que Pacheco era, mas que fixa razoavelmente bem a imagem pública que dele se foi construindo — com o seu beneplácito, diga-se.
Publicado no Jornal de Negócios, desconfio que um dos melhores textos in memoriam do autor de Comunidade possa ter passado um pouco despercebido. Refiro-me à evocação de Anabela Mota Ribeiro, construída a partir das memórias de uma entrevista ao escritor, feita em tempos para o suplemento DNa, do Diário de Notícias.
Aqui ficam algumas passagens:

«Chamam ao telefone o senhor Pacheco — grasnou uma voz metalizada, pelo altifalante. Eu propunha-me entrevistar o Luiz Pacheco e falava para o lar da terceira idade onde ele vivia. [A entrevista foi publicada no DNa] Acordámos um dia, meti-me no comboio a caminho de Lisboa, e depois num carro com o fotógrafo até Palmela. Nos dias que mediaram uma conversa e outra, o Pacheco enviou-me para o Porto uns livros (as Noites Brancas do Dostoievski, uma pequena novela do Tchekov, e outro que não tinha interesse nenhum). Enviou-os enfaixados em papel higiénico!, voltas e mais voltas de papel higiénico. Uma questão de poupança. “Sabes quanto é que custa cada envelope almofadado? Cento e quinze paus, menina, é quanto custa!”.
(…)
Era uma flor carnívora. Um maldito sensual que falava de sexo às criancinhas. Também às velhinhas. Que vivia entre os mortos.
Falámos de sexo e de morte. Tudo em Pacheco se passava entre o sexo e a morte. Escreveu sobre ela n’ O Teodolito.
Naquela altura morria muita gente de tuberculose, hoje é de cancro ou do coração, morre-se de qualquer coisa, tanto faz, vivemos entre mortos, gente que vai morrer e sabe que vai morrer e gente que já morreu, gente morta ou provavelmente morta ou morta daqui a bocado, amanhã, hoje ainda talvez, morte súbita, morte zás! e adeus… os mortos caem em todos os lados, caem-nos em cima, apertam-nos, já não metem medo, são tantos, há muitos, há cada vez mais companhia de mortos, tornam-se maçadores, abafam o ar. Aparecem-nos às vezes com um sorriso, fingem bem, mas debaixo dos fatos vem um cheiro que não engana, os olhos são vazios e lúcidos, já não querem ou esperam nada, estão mortos por detrás da gravata.
(…) Vamos criando distâncias pela vida fora, vamos morrendo uns para os outros. E também vamos morrendo dentro de nós. Dou os bons-dias a tipos que já matei; passo na rua por alguns satisfeitos fantasmas que se espantam (gritam-me: Ó pá, inda és vivo?) quando me vêem respirando e mexendo dentro da minha farpela pobre. Dormi mais de dez anos com o cadáver da minha mulher e na mesma cama. Jamais nos conhecemos, fomos sempre dois mortos um para o outro. São coisas que acontecem.

Uma tarde de Outono, com o Pacheco. Em vésperas do fim do século. Do fim do mundo que não chegou a ser. Ele a deitar os foguetes e a apanhar as canas. A manter a temperatura dos vivos. Para não soçobrar, num mundo de sombras. Quando me recebeu no lar, apresentou-me às criadas, apontou para um quarto fúnebre: “Aqui, é onde se morre”. Cá fora havia lençóis dependurados, as luzes estavam já acesas, o crepúsculo anunciava-se. O Pacheco posava para o fotógrafo, com os óculos fundo de garrafa e o roupão andrajoso. Ainda ouço a voz tonitruante, a dicção deficiente.
(…)
O Pacheco. Escreve-se nos blogues e nos jornais que era um filho da puta. Irresistível, corrosivo, feérico. Mas um sacana de um filho da puta. Um escritor que dizia enormidades. Um Surrealista. Um homem que fazia o “toma” do Zé Povinho para a fotografia. Ou que punha corninhos de diabo, também para a fotografia. Tomai lá do Pacheco. Fodei-vos! — uma expressão mais apachecada. Um tipo tão singular que transformou o seu estilo em adjectivo. [Este texto permite-se um tom apachecado]. Um libertino que passeou por Portugal o seu esplendor. Mais um tipo livre que um libertino, na verdade. Dizia o que pensava — e esse talvez tenha sido o mais libertário dos gestos.
Sempre sem cheta. Mas um dia, por causa do “Sonâmbulo chupista” (um caso de plágio que visava Fernando Namora), ele estava com dinheiro no bolso e entrou numa mercearia para comprar um cacho de bananas. Nuno Artur Silva estava num banco da Avenida da Liberdade, agarrado a um livro de António Maria Lisboa quando o viu a aproximar-se. Pacheco espreitou por cima do ombro e começou: “Isso que estás a ler é uma merda. Em vez de estares a ler essa merda devias era estar à cata de estrangeiras….” Nuno Artur fechou o livro e seguiram pela avenida. Entraram num café, distribuíram-se bananas pelos presentes. “Um alimento óptimo, muito completo”, garantia o Pacheco. Foi há 20 anos.
(…)
O Pacheco morreu. Foda-se, o Pacheco morreu! Ele às vezes tinha medo da morte.
“Quando a dor no peito me oprime, corre o ombro, o braço esquerdo, surge nas costas, tumifica a carótida e dá-lhe um calor de que não gosto; quando a respiração se acelera em busca duma lufada que a renasça, o medo da morte afinal se escancara (medo-mor, tamanha injustiça, torpeza infinita), aperto a mão da Irene, a sua mão débil e branca. Quero acordá-la. E digo: ‘Não me deixes morrer, não deixes…’. Penso para comigo, repito para me convencer: ‘Esta pequena mão, âncora de carne em vida, estas amarras suas veias artérias palpitantes, este peso dum corpo e este calor, não me deixarão partir ainda…’ E aperto-lhe a mão com força, e acabo às vezes por adormecer assim, quase confiante, agarrado à sua vida.” (Comunidade)

Um manguito para a eternidade

manguito à Pacheco

Luiz Pacheco por Pedro Vieira

Jorge Luiz Borges

Eu gosto muito do Rui Zink mas o que ele disse à Lusa não lembra ao diabo:

“[Luiz Pacheco] é o nosso Jorge Luis Borges, porque, não tendo nada a ver, à partida, com o escritor argentino, escrevendo também sempre textos curtos, escrevendo prosa normalmente com não mais de cinco páginas, dez páginas, marcou as nossas letras”

Ou seja: o Pacheco (libertino, caótico, visceral) e o Borges (assexuado, meticuloso, cerebral) equivalem-se porque ambos escreviam textos curtos e marcaram as letras dos respectivos países? Please. Não me parece que os ingleses digam que Oscar Wilde “é o nosso Marquês de Sade, porque, não tendo nada a ver, à partida, com o escritor francês, escreveu também enquanto esteve preso”. Além disso, por muito que estime a escrita do autor de Comunidade, parece-me evidente que Borges pertence a outra galáxia, infinitamente superior.
A única coisa que o Pacheco tem em comum com Borges é um dos nomes (e mesmo esse difere na grafia).

Portal oficial não-oficial

Este site tem quase tudo sobre o Luiz Pacheco (menos, por enquanto, a sua morte).

Pachequeana bloguística

No momento em que escrevo, pouco mais de 24 horas após a morte de Luiz Pacheco (22h17 de Sábado), o blOgSERVATÓRIO já regista 20 posts sobre o desaparecimento do escritor (e a lista completa deve abarcar pelo menos outros tantos).

PS - A quem possa interessar: o funeral sai terça-feira da Basílica da Estrela (17h45) para o cemitério do Alto de São João, onde o corpo será cremado.

Marginais

«(…) Inaugurei uma secção OS MARGINAIS. Conhecem? São os filhos da noite quase todos, uma espécie de Máfia, topamo-nos todos uns aos outros, ajudamo-nos ou sacaneamo-nos conforme a disposição, as raivinhas do momento, as cervejolas, a necessidade premente da sobrevivência. No fundo, constituímos uma força, não coesa, o mais desorganizada e anárquica e libérrima no possível, mas de camaradagem segura, às vezes. Que funciona, tenho larga prática, episódios nem todos para rir (…).
Serão então: afidalgados, decaídos ou interditos pelas fidalgas sifilíticas e cobiçosas famílias, ciosas do seu dinheiro e mando; filhos de boas filhas, gente que estafou centenas e centenas de contos em mulheres, em estúrdia, na jogatana, boa-vai-ela; artistas em potência, irrealizados, por vezes com talento mas uma mola na cachola solta ou partida; ou fracassaram, porque lhes não deram a tempo asas, calor, confiança, possivelmente assim: “Um pouco mais de sol // e fora brasa. // Um pouco mais de azul // e fora além“, lamentou-se Mário de Sá-Carneiro, talvez, e também, um marginal da Bela-Época e viu-se o seu fim.(…)»

[in Textos de Guerrilha, de Luiz Pacheco, Ler Editora, 1979]

Luiz Pacheco (1925-2008)

Luiz Pacheco

Morreu o Pacheco. O escriba sem medo, o maldito, o bendito, o sacripanta, o pelintra, o míope, o desbocado, o crava, o madraço, o arrasa-livros, o salva-livros, o editor extremoso, o pai aflito, o prosador desassombrado, o lúbrico, o chico-esperto, o espalha-brasas, o fura-vidas, o franco-atirador, o asmático que berrava, o trafulha , o remetente de cartas intermináveis e outras fúrias epistolares, o abjeccionista, o lírico inesperado, o procrastinador, o coscuvilheiro, o crítico que atirava à cara tudo o que tinha a dizer, o marginal, o amigo da onça, o polemista sem meias medidas, o hiper-lúcido, o inimputável, o português mais português de Portugal (no seu jeito malandro de oscilar entre a grandeza e a miséria).
Era um génio? Era. Génio heterodoxo e escangalhado, mas génio. Leia-se o que fez à língua portuguesa em livros como O Teodolito, O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor ou Comunidade. Tratos de amante canalha, coisas milagrosas.
Quando a morte o procurou, ontem à noite, num lar da terceira idade no Montijo, das duas uma: ou lhe fez um manguito dos antigos e riu na cara dela como um alarve, ou deixou-se ir com a mansidão dos resignados mas ainda a mirar-lhe as pernas e a magicar um piropo.

PS — Ao ler o texto de Alexandra Lucas Coelho, no suplemento P2 de dia 7 de Janeiro, apercebi-me de que Luiz Pacheco morreu afinal no trajecto entre a casa de um dos filhos e o Hospital do Montijo (no domingo, partira de um take divulgado pela Lusa). Fica feita a correcção.

[Foto de João Francisco Vilhena]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges