A mão que arde

Nada Está Escrito
Autor: Manuel Alegre
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-972-20-4958-0
Ano de publicação: 2012
Avaliação: 7,5/10

Desde o tempo em que escrevia versos contra a mordaça e o negrume do regime salazarista, o poeta Manuel Alegre fez sempre questão de reflectir, nos seus textos literários, as ideias e princípios do homem político que também é. Não espanta por isso que abra o seu mais recente livro de poesia, Nada Está Escrito, com uma Balada dos Aflitos – retrato fiel destes dias de troika e austeridade, em que os «irmãos humanos» estão à mercê da crise, dos «mercados» e da «mão invisível» que «nos tem aqui proscritos», no «desconcerto» de um mundo «tão diferente daquilo que se queria».
O poeta indignado rapidamente dá lugar ao poeta que se questiona sobre a própria essência da poesia. De onde vêm as palavras e os versos que «rompem como cactos»? A escrita é um mistério insondável, matéria que antes de existir já ensina, a quem a cria, o seu caminho. E Alegre curva-se diante desse sortilégio que o domina e o ultrapassa, essa «mão que escreve e arde e é só lume». O poema impõe-se como revelação e «eco de uma ausência», empurrando quem o escreve para uma busca do sentido das coisas que é mais metafísica do que propriamente lírica: «Quem sabe o que na página se esconde / e se dentro do branco está um muro / e se depois do muro não há onde / e se depois do branco é tudo escuro?»
A partir da segunda de sete partes, as temáticas tornam-se mais abrangentes: memórias de infância, cenas quotidianas, nocturnos, evocações da Grécia Antiga e da Índia mítica, feitos desportivos (Carlos Lopes em Los Angeles, Jesse Owens contra Hitler), litanias sobre os perdedores da História (Trotsky, António Prior do Crato), deambulações lisboetas, devaneios fadistas. Mudam os registos, mantêm-se a destreza prosódica e a cadência musical tão características de Alegre. Depois, a última parte como que fecha o círculo. Regressa a visão de um país ameaçado, volta a poesia que reflecte sobre si mesma: «O poema há-de emergir da sombra / florir no zero e no silêncio / o poema que está dentro / da forma por nascer / o poema que já é / antes de ser.»

[Texto publicado no n.º 114 da revista Ler]

Quatro poemas de Manuel Alegre

OS SANTOS DE RIBERA

Os santos de Ribera têm as unhas sujas
cabelo curto
a barba por fazer em rostos curtidos e morenos
os santos de Ribera são todos espanhóis
camponeses apóstolos cor de terra
só o corpo de Cristo tem a palidez
de uma lua morta de Andaluzia
e não há rosto mais de povo do que o rosto
de Maria.
Os santos de Ribera são outra fé
outra hierarquia.

***

DEZEMBRO NAS MARGENS DO RIO

Aqui nas águas do rio
quantas vezes nos banhámos
mas agora ninguém chama
ninguém salta dos salgueiros
para o fundão junto à nora
ninguém à tarde assobia
para olharmos no areal
as pernas das lavadeiras.
Dezembro diz-se com frio.
Diluídos na neblina
vão aqueles que se banhavam
comigo nas águas do rio.

***

OS GUERREIROS

Subitamente saíram da sombra.
Vinham de cara ao sol
com suas armas cintilantes
soltando grandes gritos de combate
para morrer diante da cidade
que ninguém sabe ao certo onde ficava
e talvez fosse apenas
uma palavra.

***

ARTE POÉTICA

Nada se sabe
que já não se saiba.

Nada se escreve
que não esteja escrito.

Mas nada se sabe
nada está escrito.

[in Nada Está Escrito, Dom Quixote, 2012]

Manuel Alegre: “Isto é uma coisa que brotou não sei de onde, um sopro que veio lá de dentro”

Junto a uma janela quase primaveril, na sua casa de Lisboa, Manuel Alegre falou sobre O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua (Dom Quixote), a sua obra mais recente. «É uma entrevista literária, não política», avisou logo. Mas a dinâmica da conversa, caótica como a memória, haveria de nos levar até ao limiar das Presidenciais.

Em 1996, quando lançou o romance Alma, disse que «há livros que se fazem porque se quer» e «há outros que se escrevem porque não pode deixar de ser». A qual das categorias pertence este livro?
À mesma categoria do Alma, à dos que se escrevem porque não pode deixar de ser. Diria que foi um livro que se impôs. No fundo, é uma arte poética, uma explicação de como se chega à escrita e à poesia, através dos sons, dos episódios vividos, das coisas que nos marcaram.

Auto-consciente, o livro mostra-nos as suas costuras, os seus avanços e recuos, os vários caminhos, as indecisões.
O livro escreve-se para a frente e para trás, aos ziguezagues, porque a memória também funciona assim. A memória é feita de fragmentos. Fragmentos dispersos, que muitas vezes se sobrepõem e que não têm continuidade. Como a vida. Isto é uma coisa que brotou não sei de onde. É um sopro que veio lá de dentro. Ultimamente, aliás, só escrevo assim.

Quais foram os momentos fundadores da sua escrita?
Os sons da infância: sinos que tocam, um violino desafinado, o rumor das oficinas, o canto dos pássaros, as águas que passam. E certos episódios marcantes que se transformaram em metáforas, as minhas metáforas, a que volto muitas vezes. O que este livro foi buscar, o que o condiciona, o que lhe dá coerência, são esses vários sons e ritmos da vida, dirigidos para a escrita, para o poema, para as sílabas contadas pelos dedos.

O jogo literário, porém, não revela tudo. «Estou aqui a esconder-me e a mostrar-me», diz no último parágrafo.
Claro. Há sempre uma transfiguração. E é através desse fingimento, desse processo ficcional, que se consegue ir ao fundo das coisas.

O narrador está sempre a desdobrar-se. Vai sendo sucessivos miúdos, por vezes sobrepostos, em vários tempos e idades.
Nós somos sempre o resultado de muitos desdobramentos. Tenho a sensação de ter muitas vidas na minha vida e acho que isto acontece com toda a gente. Aquele miúdo de dez anos que eu descrevo a olhar-se ao espelho e a imaginar-se com outros dez anos em cima, sou eu, hoje, com setenta e tal. Quer dizer, sou e não sou.

Em sentido inverso: ainda vê o miúdo de dez anos, quando se olha ao espelho?
Sim, vejo. Vejo o miúdo que ainda é miúdo e já não é.

Um miúdo que nunca deixou de procurar o ritmo do mundo, a respiração da terra.
Eu acho que a arte, tanto a literária como a musical, tem tudo a ver com isso. Com a respiração da terra, do nosso corpo, até do cosmos, se quiser. Acho que há um ritmo global que é feito de muitos ritmos.

E cabe ao poeta entrar em sintonia com esses ritmos?
Sim. Se não acertar essa respiração é porque falhou. Falhou a palavra, falhou o verso, falhou o poema, falhou o livro.

Numa obra em fragmentos, como é que se faz para manter a coesão interna?
O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua foi quase todo escrito de um jacto, como já acontecera com o Cão como Nós. Depois, há coisas que corto ou monto, como no cinema. A ordem dos fragmentos não foi necessariamente aquela. Há uma certa montagem.

Um dos momentos mais intensos do livro é a evocação da última visita a Sophia de Mello Breyner Andresen. Muito doente, ela pediu-lhe que dissesse poemas de Camões, repetindo-os consigo «até que, a certa altura, já não dizia as palavras, só a batida das sílabas, (…) só a respiração do poema na sua própria respiração».
Aconteceu exactamente assim. Era poesia em estado puro. Talvez o poema supremo seja isso. Seja essa respiração, já sem palavras.

Noutro texto, Miguel Torga é retratado «a segurar o caderno e a empunhar a caneta até ao fim».
São diferentes. O Torga era um poeta muito mais racionalista. Trabalhava e depurava muito. A escrita, para ele, era uma batalha. O caderno e a caneta, as suas armas.

Acaba por fazer várias aproximações à morte: Sophia, Torga, os seus pais. E conta em detalhe o momento em que também podia ter morrido.
É verdade. Uma pessoa da minha família reparou nisso. Não foi algo que tenha programado, mas também não aconteceu certamente por acaso.

No fragmento em que narra essa crise cardíaca que quase o vitimou, o regresso à vida é simbolizado pela recuperação do «ritmo da terra a tremer».
Esse texto é um exorcismo e uma celebração. É uma celebração da própria sobrevivência.

A mim, parece-me que a principal figura que emerge deste livro é o seu pai. O pai que ensina a não ter medo do mar. O pai que lhe abre os caminhos da vida.
Aí há também um acto de compensação. A minha mãe era uma pessoa com uma grande energia e teve sempre uma presença mais visível, mesmo diante dos meus amigos: o Assis Pacheco, o Herberto Helder, o Zeca Afonso, os que andavam lá por casa. O meu pai tinha uma atitude mais contemplativa, mais distante. Agora, reconheço que algumas das coisas essenciais da minha vida vêm dele.

Considera-se hoje mais parecido com o seu pai do que se considerava há cinquenta ou há trinta anos?
(Pausa longa) Estou mais perto dele. Sinto-me mais perto. E mais parecido, sim. Mais parecido.


Cartoon de André Carrilho

Recentemente, voltou ao lugar onde combateu em Nambuangongo (Angola), um episódio que também é evocado no livro. Como foi esse regresso?
Nunca se volta exactamente ao ponto de partida. O quartel estava destruído, já não havia inimigo, restavam ali apenas algumas campas. Mas também havia coisas novas: uma escola, um hospital em construção. Foi uma visita que me despertou emoções muito intensas. E lágrimas, pelos que estavam, pelos que não estavam e até por mim mesmo. Aquilo marcou toda uma geração. Há guerras que não acabam nunca, como disse o René Char. Eu fui ali como que em peregrinação, a tentar o exorcismo. Mas não sei se alguma vez me vou libertar dos momentos em que se tinha medo na picada, medo das minas que estavam à nossa espera para rebentar, a sensação de estar cercado, que invade os nossos sonhos, os nossos pesadelos.

E a imagem terrível da bala que assobia.
Esse foi o primeiro tiro que eu ouvi numa emboscada. E é muito diferente de todos os outros tiros que ouvi ou disparei. Porque é um tiro que se percebia que era de guerra, um tiro que trazia morte. Recordo que quando isso me aconteceu fiquei paralisado no meio da picada e foi um soldado, por acaso africano, que de cima de um Unimog se atirou sobre mim e me salvou. Eu já tinha ouvido muitos tiros. Mas aquele soou de outra maneira. A bala que assobia é a morte propriamente dita. E a memória dessa bala não passa, não passa.

Preferia que o seu nome ficasse inscrito na literatura portuguesa ou na História do país?
Na história da poesia. Independentemente do que vier a acontecer, se daqui a cem ou 50 anos se falar de mim, será por alguns versos que ainda circulem por aí.

Já conseguiu superar a sua dualidade essencial: o Manuel Alegre escritor versus o Manuel Alegre político?
Eu sempre vivi dividido. Essa divisão no fundo é a minha unidade, é o meu todo, porque é fruto das circunstâncias em que nasci. Tenho amigos que fizeram a opção exclusiva da poesia, são uma espécie de monges ou anjos da poesia. Eu não. Eu fui apanhado pela engrenagem da política e sobretudo pela guerra, que mudou completamente a vida da minha geração. E depois, talvez por uma questão de temperamento, nunca fui capaz de viver fechado numa torre de marfim.

Não consegue estar à margem da intervenção pública e cívica.
Isso não. Isso é-me difícil. Preciso um bocado desse incómodo. De me incomodarem e de me incomodar. Mas para mim o essencial sempre foi a poesia. Gostava de intervir, de mudar as coisas, em dois ou três momentos tive a sensação de estar a dar uma volta na História, mas carreira política não a tinha. Nunca quis ser secretário-geral do PS, nem primeiro-ministro. Só depois da candidatura à Presidência da República é que isto se complicou. Complicou-se porque trouxe consigo um processo, uma rede, uma dinâmica não apenas política, mas afectiva, de que é difícil uma pessoa soltar-se. Passei a ter uma responsabilidade cívica muito maior. E aquilo que mais me aflige é o facto desse cargo ser uma função totalmente absorvente. Não sei até que ponto, se vier a ser eleito, terei margem para a escrita.

O Mitterrand, por exemplo, escrevia.
O Mitterrand escrevia e tinha as suas horas para a leitura, para o convívio, para ir às livrarias, para passear nas ruas. Isto sendo um presidente executivo, que governava. E o próprio Mário Soares também lia e escrevia muito.

Ainda assim, a possibilidade de ser eleito assusta-o mais do que o atrai?
Assusta-me um bocado. Quer dizer, preocupa-me. Não me assusta, preocupa-me.

[Entrevista publicada no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Pré-publicação: ‘O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua’

«24.
É possível que alguns leitores se interroguem sobre o que é, ao fim e ao cabo, este livro, e qual a sua relação, se alguma existe, com a literatura. Para dizer a verdade, não sei. Mas o miúdo que pregava pregos numa tábua, ou talvez o autor, quem sabe se eu próprio, já uma vez escreveu que, para ele, a poesia está aquém e além da literatura. E até confessou que de literatura pouco ou nada sabe. Mas sabe de um rio e de uma ria ou, se preferirem, sabe dos rios e dos mares e da influência da lua nas correntes e nas marés e, ao que parece, no fluxo do sangue, sabe do voo e do grito da narceja, que é um alerta e, ao mesmo tempo, um viva à liberdade. E sabe da respiração da terra, que essa, sim, tem a ver com o ritmo e a respiração da escrita. Num certo sentido já fez essa respiração boca a boca quando, na Nicarágua, acompanhado pelo poeta Fernando Silva, que se dizia descendente de portugueses, se sentou no rebordo da cratera do vulcão Santiago e sentiu o bafo que ritmadamente saía das entranhas da terra.
– Parece um boi a respirar – disse o poeta nicaraguense.
O miúdo que tocava música nos dentes achou que o vulcão respirava a um ritmo que era o da sua própria respiração. Dentro da cratera, no meio do fumo, das chamas e das cinzas, voavam centenas de pássaros que ali faziam ninho. A terra respirava pela boca do vulcão Santiago e o miúdo que dedilhava guitarras invisíveis sentiu que estava ali a respirar boca a boca com a própria terra e que assim era o fluxo do seu sangue e só assim poderia ser a cadência das palavras.
A mesma cadência e a mesma respiração que descobriu quando, num daqueles quartos antigos de Coimbra que, em certas noites, parecem directamente poisados sobre a lua, um poeta, ainda jovem, leu, com o seu sotaque da ilha, o poema de Camilo Pessanha “Ao longe os barcos de flores”.
Só, incessante, um som de flauta chora – lia ele como se cada uma daquelas sílabas batesse ao ritmo do seu próprio coração. Era, de certo modo, uma outra forma de respiração da terra e dos rios e dos mares. Então o miúdo percebeu que podia dedilhar nos seus dentes o ritmo com que o poeta lia e que era o da música que estava dentro dos versos de Camilo Pessanha. Uma flauta cantava na voz do poeta da ilha, a flauta de Camilo Pessanha, uma flauta que trazia no bater das sílabas a batida do coração do mundo.
Mais tarde, já no quarto do miúdo que gostava de contar as sílabas pelos dedos, o poeta com ligeiro sotaque da ilha escrevia pela noite fora uns contos que andava então a terminar. O miúdo ouvia o roçagar da caneta no papel e pressentia que naquela grafia havia uma flauta a cantar dentro das sílabas. Era uma liturgia quase mágica, uma escrita nova e dentro dela um mundo novo que nascia. Algo que só muito mais tarde sentiria, mas em sentido inverso, como se um mundo se estivesse a extinguir, quando, pela última vez, visitou Sophia no quarto do hospital. Estava recostada numas almofadas muito brancas, ela própria também de branco, estranhamente esplendorosa e bonita, a princípio abriu muito os olhos, parecia que nos reconhecia e não reconhecia, uma das filhas disse-me: Fala-lhe. Eu falei e então ela murmurou o meu nome e o de minha mulher. Sentei-me ao pé dela e comecei a dizer-lhe um dos seus poemas: Ia e vinha / E a cada coisa perguntava, e então ela terminou: Que nome tinha. Fui dizendo poemas de que me lembrava, dela própria, de outros poetas, sobretudo de Camões, que ela pediu, ela ia repetindo comigo, até que, a certa altura, já não dizia as palavras, só a batida das sílabas, poesia em estado puro, só o ritmo, só a cadência, só a respiração do poema na sua própria respiração.

[O novo livro de Manuel Alegre, editado pela Dom Quixote, chega às livrarias na próxima sexta-feira]

A História que não foi

Sete Partidas
Autor: Manuel Alegre
Editora: Edições Nelson de Matos
N.º de páginas: 40
ISBN: 978-989-95597-6-9
Ano de publicação: 2008

«Pode escrever-se um poema quando as águas / irrompem no caderno e as montanhas se abrem / e do outro lado subitamente aparece // o país que não há». Assim começa Sete Partidas, o mais recente trabalho poético de Manuel Alegre, com entrada directa para o lote das suas obras menores.
Se ignorarmos o tom demiúrgico, a prosódia demasiado solene e os efeitos verbais do costume («um rosto um resto / um rasto um cheiro um som coisa nenhuma»), entrevê-se neste livro uma curiosa revisitação da História de Portugal, lírica e utópica como convém a quem se desgosta de ver «em toda a parte o mesmo / à mesma hora nos telejornais». Partindo do que «podia ter sido» mas «não foi», Alegre debate-se com a figura do Infante D. Pedro em Penacova, no momento em que este abdica de atacar militarmente D. Afonso I, consumido por uma hesitação que inverte «o sentido do futuro». Numa reflexão sobretudo política, o deputado do PS vê «nesse instante de renúncia» a grande oportunidade perdida de transfigurar o país e «derrotar a inveja/ o mal dizer a mesquinhez e a mentira/ essas velhas doenças que são o cancro/ de Portugal».
Fazendo a ponte entre o presente (assinatura do Tratado de Lisboa) e o passado (a carta escrita por D. Pedro em Bruges, em que se esboçavam reformas para desenvolver o país, nunca cumpridas), Alegre avança «pelos campos da memória», reconstruindo simbolicamente as viagens que o irmão de D. Duarte e D. Henrique fez pelas «sete partidas do mundo».
O que o «poema» procura, acima de tudo, é o rasgão na ordem imutável do tempo, através do qual possamos assistir ao espectáculo da nossa própria catástrofe anunciada: «Caminha-se de encontro ao desencontro / e mesmo quando há ganho vem a perda / o segredo da História é o momento em que / tudo podia ser diferente. E o poema escreve-se nesse breve senão.»

Avaliação: 5/10

[Texto publicado no número 72 da revista Ler]

Do alto de Penacova

Do alto de Penacova D. Pedro observa
lá em baixo as tropas de Bragança o irmão
bastardo. Vêm cansados sujos desprevenidos.
Pode escrever-se um poema nesse momento

não haverá outro assim para o Infante
acabar com boatos e depois tranquilamente
dizer ao jovem rei que não pretende a coroa
mas apenas respeito pelo modo

como regente serviu sem ambição o reino.
Pode escrever-se um poema nessa hora
com D. Pedro pôr fim à intriga e derrotar a inveja
o mal dizer a mesquinhez e a mentira

essas velhas doenças que são o cancro
de Portugal. Mas de súbito por um escrúpulo moral
um supremo desprendimento que será talvez
um narcisismo do avesso ou (o que é o mesmo)

um excesso de confiança um desinteresse
ou uma incontrolável melancolia
D. Pedro não segue o impulso inicial
nem ouve os que lhe dizem que é preciso

atacar sem demora. O poema escreve-se
nessa razão misteriosa que leva o Infante a retirar-se
sem saber ou talvez sabendo que ao fazê-lo está
a retirar-se da própria História e a permitir

que sejam outros a fazê-la e a escrevê-la. Ninguém
saberá nunca porque hesitou naquela hora. O poema
escreve-se do alto de Penacova e nessa
hesitação fatal em que D. Pedro

inverteu o sentido do futuro. O seu e o nosso.
Talvez acima de tudo ele gostasse
não propriamente do poder mas de
podê-lo ter e não o querer. O poema escreve-se

com D. Pedro no alto de Penacova
nesse instante de renúncia em que ele diz
que mais do que poder o que é preciso
é outro modo de ser e outro país.

[Segunda das Sete Partidas de Manuel Alegre, Edições Nelson de Matos, 2008]

Manuel Alegre representa Portugal no ‘Printemps des Poètes’

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O Poema com h Pequeno, do livro O Canto e As Armas, de Manuel Alegre, foi escolhido para representar Portugal na décima edição do “Printemps des Poètes”, um festival cultural que se realiza em Lyon, França, entre 3 e 16 de Março. A edição deste ano tem como tema “O Elogio do Outro” e os organizadores escolheram o poema de Manuel Alegre por o considerarem “uma bela homenagem ao homem na sua diversidade”. Poema com h Pequeno será traduzido nas diversas línguas participantes no encontro, incluindo o árabe e o crioulo da Guiana.

Prémio D. Dinis para Manuel Alegre

Um júri contituído por três poetas (Vasco Graça Moura, Nuno Júdice e Fernando Pinto do Amaral) atribuiu hoje a Manuel Alegre o Prémio D. Dinis, pelo livro Doze Naus, publicado em 2007 pela Dom Quixote.

Manuel Alegre publica antologia de poemas sobre a Guerra Colonial

É já no início de Fevereiro que Manuel Alegre vai lançar uma antologia dos seus poemas sobre a experiência trágica da Guerra Colonial, anunciou hoje a Dom Quixote. O livro, intitulado Nambuangongo, Meu Amor, está dividido em quatro partes: Nambuangongo, Meu Amor; Três Canções com Lágrimas e Sol para um Amigo que Morreu na Guerra; Continuação de Alcácer Quibir; e Explicação de Alcácer Quibir.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges