Mostrar o invisível

aniki

Aniki-Bobó
Autor: Manuel António Pina
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 96
ISBN: 978-972-37-1659-7
Ano de publicação: 2012

Inédito durante quase duas décadas, Aniki-Bobó, o ensaio de Manuel António Pina sobre o filme realizado por Manoel de Oliveira em 1942, foi uma encomenda do British Film Institute para uma colecção sobre clássicos da história do cinema. O livro nunca chegou a ser publicado no Reino Unido, embora uma parte do texto tenha aparecido no catálogo do ciclo ‘Odisseia nas Imagens’, ao tempo do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura. Agora em versão integral, a leitura de Pina mostra-nos uma faceta talvez menos conhecida da sua abrangente mundividência: a de cinéfilo atento e apaixonado.
Na introdução, após um breve resumo dos primeiros anos do cinema português, com referências ao pioneirismo de Aurélio Paz dos Reis e à «primeira tentativa séria de montar em Portugal uma grande indústria cinematográfica» (a Invicta Filmes, do Porto), M. A. Pina não esconde o fascínio pelo improvável percurso artístico de Manoel de Oliveira. Filho de um industrial próspero, o então muito jovem desportista (campeão de salto à vara, piloto de aviões e automóveis, além de ás do trapézio) convenceu o pai a comprar-lhe uma câmara com película de 35 mm, portátil, e pôs-se a filmar os gestos, o trabalho e a dura vida quotidiana das «gentes ribeirinhas». Tinha 21 anos. Desta «vontade de fazer cinema» nasceria a sua primeira obra, Douro Faina Fluvial, um «filme de montagem», entre documentário e ficção, terminado em 1931 com o empenho de António Lopes Ribeiro, uma das mais influentes figuras do establishment cultural da época.
Na estreia, os críticos portugueses não suportaram o «ritmo inquieto» e menos ainda a rudeza das imagens que exibiam a vergonhosa miséria do Porto («aquelas mulheres esfarrapadas, com carretos de carvão à cabeça, de pé descalço…»), manifestando o seu desagrado com assobios e uma monumental pateada. Pelo contrário, um crítico do jornal Le Temps empolgava-se: «Nunca o patético novo da arquitectura do ferro e a poesia eterna da água foram traduzidos com tanta força e inteligência.» A obra de Oliveira nascia sob o «signo da controvérsia»: aplaudido lá fora, questionado cá dentro. «E assim continuou» até aos nossos dias, resume Pina.
Aniki-Bobó, rodado nas margens do Douro com «pequenos actores amadores», descobertos por Oliveira nos locais de filmagem, também foi mal-recebido de início, tanto pela crítica como pelo público, mas ocupa hoje um lugar central na história do cinema português. Pina comenta o filme quase plano a plano, levando-nos para o coração desta história de amores infantis que espelham o «mundo real dos homens (…), reduzido (…) à sua mais funda e descarnada estrutura: Bem e Mal, justiça e injustiça, esperança e medo, felicidade e infelicidade, desejo e morte, amor e ódio». Com o seu «realismo poético», o filme é um hino à infância enquanto território das grandes descobertas e revelações. Um território visto de dentro, em oposição à autoridade normativa dos adultos. Com os seus contre-plongées, Oliveira obriga mesmo o espectador «a olhar o mundo e as coisas através dos desmedidos olhos originais das crianças». Pina lembra ainda que neste filme «tempo e câmara, duração e découpage, enquadramentos e raccords, bastam-se para, conjugadamente, mostrar o invisível» – característica essencial do cinema futuro de Oliveira, que só voltaria a realizar uma longa-metragem de ficção (O Passado e o Presente, 1972) após um inacreditável hiato de trinta anos.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 119 da revista Ler]

A crónica e o peixe do dia seguinte

A propósito do lançamento de um livro de crónicas de Manuel António Pina, tenho lido, em vários lados, que o poeta vincava o carácter efémero dos seus textos jornalísticos referindo que, no dia seguinte a serem publicados, eles já só serviam para embrulhar o peixe. A referência vem sempre com aspas e atribuição («como Manuel António Pina costumava dizer»), o que se me afigura um completo disparate. É que esta frase, desculpem lá, oiço-a eu desde que meti o pé numa redacção. Não é uma frase que o Manuel António Pina costumava dizer; é uma frase que todos os jornalistas mais velhos, nomeadamente os da geração do Pina, disseram (e ainda dizem) aos novatos que chegam aos jornais, convencidos que vão desvendar o próximo Watergate e mudar o curso da História. É um lugar-comum que tem o carácter definitivo e certeiro da maior parte dos lugares-comuns, mas não se deve colar a um homem que inventou centenas de frases maravilhosas (as melhores, em forma de verso) que são só dele. Essas merecem o «como o Manuel António Pina costumava dizer» ou «como o Manuel António Pina escreveu». A metáfora fácil sobre o utilitarismo do papel de jornal, não.

Homenagem a Manuel António Pina

Amanhã, sábado, durante a tarde, a baixa do Porto vai ser atravessada por um desfile que «pretende homenagear o poeta e escritor, gritando versos em vez de palavras de ordem». A iniciativa, no âmbito do Bairro dos Livros, juntará no largo da Torre dos Clérigos os colectivos poéticos da cidade, grupos de teatro, escritores, livreiros, músicos e cidadãos anónimos. Pelas 17h30, o Café Orfeu (Rua Júlio Dinis) acolhe uma tertúlia organizada pela revista literária Sítio, com Álvaro Magalhães, Manuel Jorge Marmelo e Rui Lage, à conversa com moderação de Alexandra Malheiro.

Manuel António Pina (1943-2012)

Morreu um homem bom, um cronista certeiro, um cidadão exemplar, um dos maiores poetas da nossa língua (e um grande sportinguista). Que dia tão, mas tão, tão triste.

Desertos e desastres

Como se Desenha uma Casa
Autor: Manuel António Pina
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 46
ISBN: 978-972-37-1616-0
Ano de publicação: 2011

Volume de poesia reflexiva, nostálgica e depurada, Como se Desenha uma Casa é o primeiro livro de originais que Manuel António Pina publica depois de lhe ter sido atribuído o Prémio Camões em 2011. Chegado à «tardia idade», Pina ainda procura o que há de material nos objectos, o sabor do «pão primeiro», mas os poemas reflectem sobretudo a «agonia interminável das coisas acabadas». O tom é de desencanto. Os versos enchem-se de fantasmas, passos ao longe, corpos e nomes que se desvanecem, escombros. O que pulsava deixou de pulsar, extingue-se o canto numa vida «excluída / da clarividência da infância», o poeta atravessa uma paisagem em que tudo se perde ou envelhece, acumulação de «desertos» e «desastres», consciência da «mudez do mundo». Um mundo «onde o Lexotan se tornou literatura» e em que «a porta está fechada na palavra porta / para sempre». Mesmo morrer «não é fácil», porque «ficam sombras nem sequer as nossas, / e a nossa voz fala-nos / numa língua estrangeira».
A escrita de Pina surge neste livro mais rarefeita, «com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso», embora circule pelos temas de sempre: o «rumor» dos livros («É então isto um livro, / este, como dizer?, murmúrio, / este rosto virado para dentro de / alguma coisa escura que ainda não existe»); os labirintos da memória; os gatos (para quem nós, humanos, somos «intrusos, bárbaros amigáveis»); as citações explícitas (Paul Celan, Sá de Miranda) e as escondidas; a «possibilidade de sentido» das estruturas verbais de que se faz o poema (mesmo quando no fim não sobra nada: «Uma casa é as ruínas de uma casa, / uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra»).
Há também evocações de amigos: alguns desaparecidos, quase todos poetas. Na Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte, a despedida transformada em até já – «A gente vê-se um dia destes por Aí» – concentra toda a melancolia que atravessa o livro: «Há apenas agora um buraco aqui, / não sei onde, uma espécie de / falta de alguma coisa insolente e amável, / de qualquer modo, aliás, altamente improvável.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 109 da revista Ler]

Dois poemas de Manuel António Pina

COMO SE DESENHA UMA CASA

Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Anoiteceu, apagamos a luz e, depois,
como uma foto que se guarda na carteira,
iluminam-se no quintal as flores da macieira
e, no papel de parede, agitam-se as recordações.

Protege-te delas, das recordações,
dos seus ócios, das suas conspirações;
usa cores morosas, tons mais-que-perfeitos:
o rosa para as lágrimas, o azul para os sonhos desfeitos.

Uma casa é as ruínas de uma casa,
uma coisa ameaçadora à espera de uma palavra;
desenha-a como quem embala um remorso,
com algum grau de abstracção e sem um plano rigoroso.

***

O QUARTO

Quem te pôs a mão no ombro,
a faca que te atravessou o coração,
são feridas alheias, talvez algo que leste;
entretanto partiste

para lugares menos iluminados
e corações menos vulneráveis,
pode perguntar-se é o que fazes ainda aqui
se já cá não estás.

A hora havia de chegar em que
nos perderíamos um do outro.
E acabaríamos necessariamente assim,
mortos inventariando mortos.

Morrer, porém, não é fácil,
ficam sombras nem sequer as nossas,
e a nossa voz fala-nos
numa língua estrangeira.

Apaga a luz e vira-te para o outro lado
e acorda amanhã como novo,
barba impecavelmente feita,
o dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.

[in Como se Desenha uma Casa, Assírio & Alvim, 2011]

Quatro poemas de Manuel António Pina

ARTE POÉTICA

Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.

Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.

Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.

E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?

***

[AOS MEUS LIVROS]

Chamaram-vos tudo, interessantes, pequenos, grandes,
ou apenas se calaram, ou fecharam os longos ouvidos
à vossa inútil voz passada
em sujos espelhos buscando
o rosto e as lágrimas que (eu é que sei!)
me pertenciam, pois era eu quem chorava.

Um bancário calculava
que tínheis curto saldo
de metáforas; e feitas as contas
(porque os tempos iam para contas)
a questão era outra e ainda menos numerosa
(e seguramente, aliás, em prosa).

Agora, passando ainda para sempre,
olhais-me impacientemente;
como poderíamos, vós e eu, escapar
sem de novo o trair, a esse olhar?
Levai-me então pela mão, como nos levam
os filhos pela mão: sem que se apercebam.

Partiram todos, os salões onde ecoavam
ainda há pouco os risos dos convidados
estão vazios; como vós agora, meus livros:
papéis pelo chão, restos, confusos sentidos.
E só nós sabemos
que morremos sozinhos.
(Ao menos escaparemos
à piedade dos vizinhos)

***

NA BIBLIOTECA

O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
‘E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.’

***

A POESIA VAI

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –

[in Poesia, Saudade da Prosa - uma antologia pessoal, Assírio & Alvim, 2011]

Prémio Camões 2011 para Manuel António Pina

Reunido na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o júri do Prémio Camões, o mais importante da língua portuguesa, decidiu por unanimidade e em menos de meia hora. Vale a pena registar os nomes dos responsáveis por tão excelente escolha: Edla Van Steen e Antonio Carlos Secchin (Brasil), Rosa Maria Martelo e Abel Barros Baptista (Portugal), Ana Paula Ribeiro Tavares (Angola) e Inocência Mata (São Tomé e Príncipe). Depois de em 2010 ter distinguido Ferreira Gullar, talvez o maior poeta brasileiro vivo, o Camões para Manuel António Pina parece-me absolutamente justo, ao reconhecer a importância e o valor que quem escreveu alguns dos melhores livros de poesia, crónica e literatura infantil das últimas décadas, em Portugal.

Prémio Manuel António Pina

Instituído pela Câmara Municipal da Guarda, premiará livros de poesia (em anos pares) e literatura infanto-juvenil (em anos ímpares), sendo as obras vencedoras editadas pela Assírio & Alvim. À primeira edição podem candidatar-se trabalhos inéditos de poesia de autores portugueses, enviados até 30 de Julho. O regulamento está disponível aqui.

Os limites do saber

História do Sábio Fechado na sua Biblioteca
Autor: Manuel António Pina
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 63
ISBN: 978-972-37-1401-2
Ano de publicação: 2009

Escrita originalmente para a companhia teatral Pé de Vento – no momento em que esta celebrava três décadas de actividade – e estreada no Teatro da Vilarinha (Porto), em Junho de 2008, a História do Sábio Fechado na sua Biblioteca é uma parábola sobre a impossibilidade de um conhecimento total, narrada com elegância, precisão milimétrica e meridiana clareza por Manuel António Pina – um dos nossos melhores poetas, além de mestre na arte de comunicar com os mais novos, sem facilidades nem infantilismos.
Num lugar nunca nomeado, vive um Sábio absoluto, um Sábio tão sábio que já leu todos os livros do mundo e conhece tudo o que há para conhecer. Uma tal omnisciência, imune à surpresa e ao espanto, deixa-o melancólico e entregue à solidão da sua Biblioteca. Até que um dia a Morte tenta apanhá-lo desprevenido, única forma de o conseguir levar para o Reino das Sombras. Sob vários disfarces (um Estrangeiro, um Palhaço, uma Rapariga), a Morte procura levar a melhor com embustes, mas não consegue. A excessiva sabedoria do Sábio é a sua maldição: mesmo quando se descobre cansado de viver, percebe que não se pode entregar à Morte, porque ela só o alcançará quando ele não a reconhecer (e ele reconhece tudo).
A libertação implica uma saída do labirinto de livros em que se emparedou. E é apenas quando por fim enfrenta a realidade – descobrindo a verdadeira fome, a verdadeira compaixão, o verdadeiro sofrimento, o verdadeiro amor – que o Sábio se apercebe dos limites do seu vasto saber. É uma lição, claro. E das subtis: tão irónica quanto poética.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges