Tirar as medidas

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Não há nada mais frustrante do que ver um livro belíssimo confinado a um círculo de leitores demasiado curto para a sua grandeza. Foi o que aconteceu com Pai, levanta-te, vem fazer-me um fato de canela! (publicado pela A23), de Manuel da Silva Ramos, um extraordinário volume de memórias cuja primeira edição se esgotou num ápice, entre a Covilhã e o Fundão, não chegando a circular pelas livrarias do resto do país. Talvez as reacções dispersas a esta pequena maravilha consigam libertá-la dos mecanismos da interioridade e projectem o livro da esfera regional para a nacional, que é onde merece estar. Na sua estrutura fragmentária, entre o puro lirismo e a descrição de realidades concretas, vividas em vários tempos, a obra aproxima-se desse outro livro inclassificável que é Fernanda, de Ernesto Sampaio. Mas onde este se concentrava na história de um amor louco e do desespero sem fundo provocado pela morte da amada, Manuel da Silva Ramos amplia o foco. Ao prestar tributo à figura do pai, à sua vida, ao seu trabalho, à sua integridade, ele fala-nos também de um Portugal antigo, o Portugal salazarista dos anos 40 e 50 do século passado, marcado pela «fome» e pela «miséria», as «escoriações» de um «tempo sinistro» em que «a boca nos tinha sido selada com arame e chumbo».
Manuel da Silva Ramos evoca a neve que «tratava de bonifrates os pobres tecelões que partiam cabisbaixos para as fábricas de lancheiras nas mãos», o céu branco da serra que «parecia o vómito dum anjinho», mas também os dias «brilhantes como o vidro espesso dos pirolitos». Das dobras do passado, o escritor resgata figuras inesquecíveis: o avô José Luís, carniceiro que matava porcos e quando bebia demais afiava as facas raspando-as nas paredes de granito, a levantar “faíscas voadoras”; o comunista João Pereira, pinta de “companheiro do Maiakovski” mas sem dinheiro para comprar livros, que o embalou e lhe deu à boca colheradas de Farinha 33 com leite; a “maléfica” Dona Clotilde Calheiros, a quem a sua família prestou uma vassalagem que ainda hoje não é capaz de perdoar; entre muitos outros, acima dos quais se ergue o pai, Armando Ramos Pereira, alfaiate escrupuloso no exercício da sua profissão, homem sincero, afável, justo, e de uma generosidade «sem limites».
Com um ano de idade, Manuel ficava atado por uma linha aos pés de uma grande mesa de madeira, ouvindo as «conversas desacolchetadas» dos fregueses do pai, enquanto estes faziam as provas com alfinetes e marcas de giz. Essa arte antiga de ajustar o tecido ao corpo, de tirar as medidas para que o casaco e as calças assentem bem, transfere-se para o trabalho da escrita. E tudo vai ficando no seu lugar: a nostalgia e a raiva, a tristeza e a exaltação, a ironia e a dor. Ouve-se o realejo dos bailaricos; o tumulto das excursões a Espanha; os efeitos da crueldade dos adultos sobre as crianças. E também se sente, no ar, o “misterioso odor da canela” sobre o arroz-doce, nos casamentos que duravam três dias, como esse em Louriçal do Campo, debaixo de uma chuva diluviana que inundou a aldeia e propiciou uma espécie de milagre: «diante da nossa janela passava a noiva branquíssima, impecável, serena em cima de um carro de bois dando o braço ao seu padrinho. (…) O noivo, cintado no fato do meu pai, olhava já a nossa janela por onde nós devíamos sair enxutos. Já no nosso carro de bois olhei o princípio do cortejo: a noiva Zeilinda, belíssima, ia agora com o véu ao vento, um súbito e fraco sol batia nela e na água barrenta e dava à nossa vida um ar de irrealidade resplandecente.»
Nas primeiras páginas, Manuel da Silva Ramos recapitula os últimos dias do pai, conhecido como o alfaiate do Refúgio, essa aldeia em tempos separada da Covilhã pela extensão das quintas, e hoje contígua, engolida pela malha urbana da cidade. Com a memória a fugir-lhe, ele deixou de reconhecer o filho e é contra essa aniquilação que o livro se ergue, contra a barbárie do esquecimento definitivo. Deixar que um testemunho notável como este se fique por uma primeira edição, inacessível até para a grande maioria dos admiradores de Ambulância ou Três Vidas ao Espelho, é ser cúmplice da dita barbárie.

[Texto publicado no n.º 126 da revista Ler]

Lançamento de ‘Três Vidas ao Espelho’

Logo à tarde, a partir das 18h30, Manuel da Silva Ramos lança o seu mais recente romance: Três Vidas ao Espelho (Dom Quixote). A apresentação da obra, na Livraria Leya na Barata (Av. de Roma, Lisboa), estará a cargo de Miguel Real.

O esplendor da linguagem

Os Três Seios de Novélia
Autor: Manuel da Silva Ramos
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 106
ISBN: 978-972-20-3597-2
Ano de publicação: 2008

Depois de o ter roubado a uma editora minoritária (Fenda), a Dom Quixote vem publicando a ficção mais recente de Manuel da Silva Ramos: Ambulância (2006), O Sol da Meia-Noite seguido de Contos para a Juventude (2007) e A Ponte Submersa (2007). Agora, foi a vez de recuperar Os Três Seios de Novélia, o fulgurante primeiro livro de Silva Ramos, escrito com apenas 20 anos e vencedor, em 1968, do Prémio de Novelística Almeida Garrett (de cujo júri faziam parte Óscar Lopes, Mário Sacramento e Eduardo Prado Coelho).
É o próprio autor quem explica, num posfácio «sem soutienenhum», o contexto em que surgiram estas três narrativas: «enquanto eu escrevia o livro, os rapazes que eu invejava, e que ia encontrar dois anos mais tarde, atiravam paralelos contra os polícias de Paris. Outros rapazitos, vindos do Porto, (…) vinham ter comigo para escalarmos à noite as estátuas de Lisboa». Talvez para preencher o abismo que separava o Quartier Latin de Entrecampos (onde o rapazito da Covilhã vivia, num quarto de estudante tão pequeno que tinha de escrever «sobre uma mala de viagem»), para galgar esse fosso gigantesco, Silva Ramos fez a sua revolução no papel, através de um estilo herdeiro dos surrealistas, em que a liberdade criativa se materializava numa corrente imparável de palavras, imagens, ideias, rasgos líricos e referências literárias.
“Os Três Seios de Novélia” acompanha a procura, pelas ruas e cafés de Lisboa, de uma mulher tão arquetípica quanto abstracta. É um texto feito de tensão erótica, ousadia formal, um certo excesso de confiança nos poderes da literatura e muito trapézio sem rede. Quatro décadas depois, mantém intacto o seu vigor, o seu destempero, o seu efeito de surpresa. “Um Longo Nascimento” é o breve relato autobiográfico, fragmentário e esquivo da infância passada no interior do país, um retrato de «Portugal nos pés duma aldeia». Por fim, em “A Respiração”, já só resta o esplendor da linguagem, «o sol do sangue e dos livros» a devorar tudo. «Sê louco leitor. (Ao menos uma vez.) Come esta folha.» – ordena o narrador. E nós, hipnotizados, quase que obedecemos.

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 73 da revista Ler]

Uma noite micénica

«Lembro-me muito bem desse ano de 1968. Eu morava em Entrecampos, perto da linha do comboio. Ia de café em café, bebendo alguns bagaços e escrevendo o livro na minha cabeça. Passeando-me e escrevendo. Cafés do Campo Pequeno, da Avenida da República, de Entrecampos, por fim a famosa Grã-Fina na Rua de Entrecampos. Chegava a casa exausto e como não tinha mesa no quarto de estudante (nesse tempo os estudantes estudavam nos cafés) era sentado numa cadeira e escrevendo sobre uma mala de viagem que transcrevia para o papel o que acabava de escrever na minha cabeça. Belos tempos onde não havia computador, máquina de escrever eléctrica, só as palavras nuas à minha espera.
A capital nesse tempo era aberta, copófona, surreal. Não se tinha medo de morrer à saída de um bar. Havia livros exactos, clandestinos e enterrados vivos, e pessoas que falavam muito bem deles. Caves de boémia, como por exemplo A Alga, onde uma vez encontrei ao mesmo tempo o Luís Pignatelli e o Carlos Amaral Dias. Lisboa nesse tempo tinha uma noite micénica.»

[Excerto do «Posfácio sem soutienenhum», in Os Três Seios de Novélia, de Manuel da Silva Ramos, Dom Quixote, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges