Oito palavras

Sem mais comentários, não podia deixar de colocar aqui este poema de Manuel de Freitas (do livro Jukebox 2, Teatro de Vila Real, 2008):

PINA BAUSCH, 2008

Müller,
Café Müller.

A morte sabe onde fica.

21 aforismos de E. M. Cioran

A história das ideias é a história do rancor dos solitários.

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Quando estamos a mil léguas da poesia, ainda participamos dela por esta necessidade súbita de gritar – último estado do lirismo.

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Ser um Raskolnikov – sem a desculpa do assassínio.

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Apenas cultivam o aforismo aqueles que conheceram o medo no meio das palavras, esse medo de se desmoronarem com todas as palavras.

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Modelos de estilo: a praga, o telegrama e o epitáfio.

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Um livro que, depois de ter demolido tudo, não se demole a si próprio, ter-nos-á exasperado em vão.

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É inacreditável que a perspectiva de vir a ter um biógrafo não tenha feito ninguém renunciar a ter uma vida.

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Quase todas as obras são feitas com brilhos de imitação, calafrios aprendidos e êxtases pilhados.

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Dever da lucidez: chegar a um desespero correcto, a uma ferocidade olímpica.

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A minha cosmogonia acrescenta ao caos primordial uma infinidade de reticências.

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Por cada ideia que nasce em nós, algo em nós apodrece.

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O real dá-me asma.

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O que estraga a alegria é a sua falta de rigor; contemplai, por outro lado, a lógica do fel…

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Todas as águas são cor de afogamento.

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Nada denuncia tanto o homem vulgar como a sua recusa de ser desiludido.

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Um monge e um carniceiro andam à briga no interior de cada desejo.

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Feliz no amor, Adão ter-nos-ia poupado à História.

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Sem Bach, a teologia seria desprovida de objectivo, a Criação fictícia, o nada peremptório.
Se há alguém que deve tudo a Bach, é seguramente Deus.

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No tempo em que a humanidade, acabada de surgir, fazia as suas primeiras experiências com a infelicidade, ninguém teria acreditado que ela seria um dia capaz de a produzir em série.

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O segredo da minha adaptação à vida? – Mudei de desespero como quem muda de camisa.

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Cada dia é um Rubicão em que desejo afogar-me.

[in Silogismos da Amargura, trad. de Manuel de Freitas, Letra Livre, 2009]

Dois poemas de Manuel de Freitas

MERCADO DOS LAVRADORES

Desobedece às flores,
como quem vai morrer.
Arrumam as entranhas
de espada negro, enquanto
uma mangueira firme
varre da infância
todos os que já partiram:

Gregório, Isaías, João,
alguns outros mais.
Nos bares em volta,
nas bancas de raspadinha,
procuras – mas não encontras –
o esquecimento.

Isso mesmo, o esquecimento.

BARREIRINHA

De repente, pai, entre
o silêncio de duas ondas,
ouvimos a única pergunta:

quantas vezes
ainda nadaremos juntos?

[in Boa Morte, edição de autor, 2008]

Três poemas musicais de Manuel de Freitas

GUSTAV LEONHARDT, 2005

Às vezes, por breves instantes,
a beleza habita sobre a terra,
tão urgente e impronunciável
como o rosto em
trompe l’oeil
na abóbada da igreja de São Roque.

Com isto, estarei talvez a fazer
a mesma triste figura da rapariga espanhola
que ao meu lado rabiscava poemas
dialécticos – «Argumentos» e Contra-
Argumentos» velozmente incinerados
pela fundamentação física do génio.
Nós, poetas, só escrevemos disparates.

A beleza, dizia eu. Mas os meus pés,
o seu indiscutível peso sobre a terra,
coincidiam com o mármore da sepultura
número 44 (dois terços de paixão, outro de pó).

E aquele homem ajudava-nos a morrer
melhor.



LEONARD COHEN, 1979

Era bem claro, nessa noite,
o quanto a sua música
se afastava de «other forms
of boredom advertised as poetry»,
denúncia que se mantém válida.

Não serão bússolas duradouras
– tudo, enfim, falece –,
mas são palavras que nos protegem
da avalanche dos dias e dos meses,
destas poucas horas a que chamamos nossas.

Uma maneira de voltar a morrer?
Talvez,
quando até nas cinzas encontramos lume.



PINA BAUSCH, 2008

Müller,
Café Müller.

A morte sabe onde fica.

[in Jukebox 2, de Manuel de Freitas, Colecção Poesia Portuguesa Contemporânea, Teatro de Vila Real, 2008]

Dois poemas de Manuel de Freitas

RESTAURANT BIBLIOTEKET

Há poemas assim, que não precisam
de ser escritos; apenas enunciados,
ditos em voz baixa a mais ninguém.
A cidade levar-te-á onde te quiser levar,
indiferente à paixão ou à minúcia dos teus passos.

Quem esteve na Toldbodgade, 5,
depressa concordará comigo.

TIVOLI

Seria um conto de fadas
num jardim de chuva
se não fosse já tão tarde.

O teu sorriso sobreviveu, não
abandonou sequer por um momento
a cadeira do Mezzo Bar,
apesar das luzes e dos gritos da cidade.

Esperavam, entre cervejas,
a chegada da rainha da neve,
um pesadelo que lhes fizesse
mais próxima e feliz a noite.

Nós estávamos, porém, demasiado
longe de saber que tudo ou quase tudo
serve unicamente para nos distrair da morte.

[in Brynt Kobolt, Averno, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges