Bibliotecário de Babel » Manuel de Freitas http://bibliotecariodebabel.com Sobre livros e literatura, autores e editoras. Por José Mário Silva. Thu, 29 Dec 2016 20:16:29 +0000 pt-PT hourly 1 http://wordpress.org/?v=4.2.1 Oito palavras http://bibliotecariodebabel.com/geral/oito-palavras/ http://bibliotecariodebabel.com/geral/oito-palavras/#comments Wed, 01 Jul 2009 07:54:56 +0000 http://bibliotecariodebabel.com/?p=4647 Sem mais comentários, não podia deixar de colocar aqui este poema de Manuel de Freitas (do livro Jukebox 2, Teatro de Vila Real, 2008):

PINA BAUSCH, 2008

Müller,
Café Müller.

A morte sabe onde fica.

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21 aforismos de E. M. Cioran http://bibliotecariodebabel.com/geral/21-silogismos-de-e-m-cioran/ http://bibliotecariodebabel.com/geral/21-silogismos-de-e-m-cioran/#comments Sun, 21 Jun 2009 10:48:57 +0000 http://bibliotecariodebabel.com/?p=4433 A história das ideias é a história do rancor dos solitários.

***

Quando estamos a mil léguas da poesia, ainda participamos dela por esta necessidade súbita de gritar – último estado do lirismo.

***

Ser um Raskolnikov – sem a desculpa do assassínio.

***

Apenas cultivam o aforismo aqueles que conheceram o medo no meio das palavras, esse medo de se desmoronarem com todas as palavras.

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Modelos de estilo: a praga, o telegrama e o epitáfio.

***

Um livro que, depois de ter demolido tudo, não se demole a si próprio, ter-nos-á exasperado em vão.

***

É inacreditável que a perspectiva de vir a ter um biógrafo não tenha feito ninguém renunciar a ter uma vida.

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Quase todas as obras são feitas com brilhos de imitação, calafrios aprendidos e êxtases pilhados.

***

Dever da lucidez: chegar a um desespero correcto, a uma ferocidade olímpica.

***

A minha cosmogonia acrescenta ao caos primordial uma infinidade de reticências.

***

Por cada ideia que nasce em nós, algo em nós apodrece.

***

O real dá-me asma.

***

O que estraga a alegria é a sua falta de rigor; contemplai, por outro lado, a lógica do fel…

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Todas as águas são cor de afogamento.

***

Nada denuncia tanto o homem vulgar como a sua recusa de ser desiludido.

***

Um monge e um carniceiro andam à briga no interior de cada desejo.

***

Feliz no amor, Adão ter-nos-ia poupado à História.

***

Sem Bach, a teologia seria desprovida de objectivo, a Criação fictícia, o nada peremptório.
Se há alguém que deve tudo a Bach, é seguramente Deus.

***

No tempo em que a humanidade, acabada de surgir, fazia as suas primeiras experiências com a infelicidade, ninguém teria acreditado que ela seria um dia capaz de a produzir em série.

***

O segredo da minha adaptação à vida? – Mudei de desespero como quem muda de camisa.

***

Cada dia é um Rubicão em que desejo afogar-me.

[in Silogismos da Amargura, trad. de Manuel de Freitas, Letra Livre, 2009]

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Dois poemas de Manuel de Freitas http://bibliotecariodebabel.com/geral/dois-poemas-de-manuel-de-freitas-2/ http://bibliotecariodebabel.com/geral/dois-poemas-de-manuel-de-freitas-2/#comments Tue, 24 Feb 2009 17:01:56 +0000 http://bibliotecariodebabel.com/?p=3326 MERCADO DOS LAVRADORES

Desobedece às flores,
como quem vai morrer.
Arrumam as entranhas
de espada negro, enquanto
uma mangueira firme
varre da infância
todos os que já partiram:

Gregório, Isaías, João,
alguns outros mais.
Nos bares em volta,
nas bancas de raspadinha,
procuras – mas não encontras –
o esquecimento.

Isso mesmo, o esquecimento.

BARREIRINHA

De repente, pai, entre
o silêncio de duas ondas,
ouvimos a única pergunta:

quantas vezes
ainda nadaremos juntos?

[in Boa Morte, edição de autor, 2008]

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Três poemas musicais de Manuel de Freitas http://bibliotecariodebabel.com/geral/tres-poemas-musicais-de-manuel-de-freitas/ http://bibliotecariodebabel.com/geral/tres-poemas-musicais-de-manuel-de-freitas/#comments Thu, 06 Nov 2008 08:52:17 +0000 http://bibliotecariodebabel.com/?p=2009 GUSTAV LEONHARDT, 2005

Às vezes, por breves instantes,
a beleza habita sobre a terra,
tão urgente e impronunciável
como o rosto em
trompe l’oeil
na abóbada da igreja de São Roque.

Com isto, estarei talvez a fazer
a mesma triste figura da rapariga espanhola
que ao meu lado rabiscava poemas
dialécticos – «Argumentos» e Contra-
Argumentos» velozmente incinerados
pela fundamentação física do génio.
Nós, poetas, só escrevemos disparates.

A beleza, dizia eu. Mas os meus pés,
o seu indiscutível peso sobre a terra,
coincidiam com o mármore da sepultura
número 44 (dois terços de paixão, outro de pó).

E aquele homem ajudava-nos a morrer
melhor.



LEONARD COHEN, 1979

Era bem claro, nessa noite,
o quanto a sua música
se afastava de «other forms
of boredom advertised as poetry»,
denúncia que se mantém válida.

Não serão bússolas duradouras
– tudo, enfim, falece –,
mas são palavras que nos protegem
da avalanche dos dias e dos meses,
destas poucas horas a que chamamos nossas.

Uma maneira de voltar a morrer?
Talvez,
quando até nas cinzas encontramos lume.



PINA BAUSCH, 2008

Müller,
Café Müller.

A morte sabe onde fica.

[in Jukebox 2, de Manuel de Freitas, Colecção Poesia Portuguesa Contemporânea, Teatro de Vila Real, 2008]

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Dois poemas de Manuel de Freitas http://bibliotecariodebabel.com/geral/dois-poemas-de-manuel-de-freitas/ http://bibliotecariodebabel.com/geral/dois-poemas-de-manuel-de-freitas/#comments Sat, 31 May 2008 11:55:28 +0000 http://bibliotecariodebabel.com/geral/dois-poemas-de-manuel-de-freitas/ RESTAURANT BIBLIOTEKET

Há poemas assim, que não precisam
de ser escritos; apenas enunciados,
ditos em voz baixa a mais ninguém.
A cidade levar-te-á onde te quiser levar,
indiferente à paixão ou à minúcia dos teus passos.

Quem esteve na Toldbodgade, 5,
depressa concordará comigo.

TIVOLI

Seria um conto de fadas
num jardim de chuva
se não fosse já tão tarde.

O teu sorriso sobreviveu, não
abandonou sequer por um momento
a cadeira do Mezzo Bar,
apesar das luzes e dos gritos da cidade.

Esperavam, entre cervejas,
a chegada da rainha da neve,
um pesadelo que lhes fizesse
mais próxima e feliz a noite.

Nós estávamos, porém, demasiado
longe de saber que tudo ou quase tudo
serve unicamente para nos distrair da morte.

[in Brynt Kobolt, Averno, 2008]

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