Primeiros parágrafos

«Nós, os mirones, praticamos, às vezes, formas muito rebuscadas do nosso vício. Não nos basta espiar e ser indiscretos, não nos contentamos em indagar a vida dos outros – necessitamos absolutamente de ver para além do que pode ser visto, aquilo que a aparência oculta, e até de construir acontecimentos mesmo quando e onde nada parece existir. É por isso que, enquanto caminho pela cidade, gosto de fotografar dissimulada e aleatoriamente as pessoas à minha volta, a ver se, por acaso, o disparo da máquina capta algum movimento interessante, um gesto ou um meneio de cabeça que, uma vez congelados numa só fracção de segundo, mereçam, depois, que perca tempo a reenquadrar e redistribuir as sombras e a luz até ao ponto em que uma imagem banal e desinteressante se transforma num instantâneo fotográfico que possa vender a alguma revista de actualidades (ou de mexericos).
O mais comum é que as imagens assim captadas sejam totalmente desinteressantes e que fiquem tremidas ou desfocadas, sem nenhum préstimo. Quase sempre as apago logo a seguir, assim que as vejo no pequeno monitor da parte de trás da máquina e confirmo que não há ali nada que se aproveite. Mas não esta manhã. A fotografia que tirei perto do mercado, quando aquela moça bonita atravessou a rua entre o movimento das carrinhas para o Tarrafal e para a Assomada, ou para a Cidade Velha, acabou por me baralhar o dia, por esticá-lo e torcê-lo como se as horas tivessem adquirido uma qualidade elástica, mole, semelhante à massa de um bolo quando termina de ser batida. Isto, porém, só o percebi mais tarde, muito mais tarde, depois que regressei a casa, descarreguei as imagens para o computador e comecei a perceber as coisas que me tinham acontecido, e que talvez não fosse tudo um acaso e tivesse existido, afinal, um nexo qualquer entre factos aparentemente sem importância nenhuma.»

[in Zero à Esquerda, de Manuel Jorge Marmelo, edição do autor, 2013]

Crónicas do autocarro

O protagonista de Uma Mentira Mil Vezes Repetida anda muito de autocarro e narra, com a atenção extrema do bom observador participante, os diálogos e situações que ocorrem decerto todos os dias nas várias carreiras que atravessam, de um lado ao outro, a cidade do Porto. O autor de Uma Mentira Mil Vezes Repetida, não sei se levado pelo escrúpulo de quem investiga e faz trabalho de campo, também anda muito de autocarro no Porto e narra, com a atenção extrema do bom observador participante, os diálogos e situações que ocorrem nesses veículos em movimento. O resultado pode ser lido nas deliciosas “Crónicas do autocarro” que vai publicando no seu blogue. Eis um exemplo:

«Quão estranha pode ser a confusão entre a ficção e a realidade? Deveras. Se não o soubesse, teria hoje tirado a coisa a limpo quando entrei no autocarro levando comigo um exemplar de Uma Mentira Mil Vezes Repetida, o romance que conta a história de um indivíduo que circula nos transportes públicos fingindo ler um livro totalmente falso, Cidade Conquistada. Pois ali estava eu, o tipo que inventou Cidade Conquistada e que inventou o livro que o conta, Uma Mentira Mil Vezes Repetida, agora numa espécie de ficção da ficção da ficção, a qual, entretanto, se tornou realidade e é um livro que tem na capa a fotografia de um homem de chapéu de coco. Pareceu-me que, para completar o ciclo, faltava apenas que abrisse o livro numa página ao acaso e fingisse lê-lo. Foi o que fiz, lamentando não ter, também eu, um chapéu de coco, mas encenando a preceito o logro de um logro de um logro, e repetindo a falsa cerimónia daquela mentira. Foi uma coisa bizarra, mas foi-o apenas para mim, confirmando, se preciso fosse, que sou, de longe, o tipo mais estranho e destrambelhado que circula nos autocarros da cidade.»

Um livro de areia

Uma Mentira Mil Vezes Repetida
Autor: Manuel Jorge Marmelo
Editora: Quetzal
N.º de páginas:
206
ISBN: 978-972-564-972-5
Ano de publicação: 2011

O novo livro de Manuel Jorge Marmelo (MJM) pertence à linhagem das ficções que se alimentam da própria ideia de literatura, pondo à vista do leitor, numa espécie de striptease conceptual, alguns dos seus mecanismos internos. Não por acaso, há no texto referências explícitas a vários escritores – como Jorge Luis Borges, Roberto Bolaño, Enrique Vila-Matas, Julio Cortázar ou Italo Calvino – que também fizeram do acto de criação literária a matéria-prima de muitos dos seus actos de criação literária, passe a redundância.
Em Uma Mentira Mil Vezes Repetida, nono romance de MJM (e talvez o seu melhor), o que está em causa é um embuste, uma falsificação intelectual. Reformado por invalidez aos 36 anos, devido a uma «agressiva doença de pele provocada pelo implacável stresse do funcionalismo público», o narrador do livro anda às voltas pela cidade do Porto, viajando nos transportes públicos com um calhamaço de 1200 páginas. A qualquer passageiro que demonstre um mínimo de curiosidade, ele explica que Cidade Conquistada é o único e extraordinário romance de Oscar Schidinski, judeu húngaro que passou por Lisboa em fuga da ameaça nazi e dos «seus próprios fantasmas», um autor esquecido mas genial, entretanto transformado numa «das mais obscuras lendas literárias do século XX».
O problema, claro está, é que o livro nunca existiu. Devidamente encadernado, o cartapácio que o narrador mitómano finge ler não passa de uma «colagem de textos avulsos escolhidos quase sem critério, copiados da internet». Todas as histórias de Cidade Conquistada, bem como as incidências biográficas do fictício Schidinski, saem da sua imaginação de escritor frustrado, incapaz de escrever por si mesmo uma obra-prima, e que por isso encontra na invenção de um livro raro, misterioso, impossível, o meio mais rápido de aceder à «celebridade». No seu delírio, ele sonha um dia falar sobre Schidinski na televisão e em conferências eruditas, tornando-se famoso por causa disso. Em suma, além de mentiroso compulsivo, este típico narrador não fiável (porque nada do que afirma pode ser tomado como certo) é também um pobre diabo cheio de ilusões.
Enquanto molda o «enredo movediço» do livro, sempre em função de quem o ouve em cada momento, ele vai erguendo um universo ficcional desordenado mas fascinante, não só dentro das fronteiras do romance – em que acompanhamos a vida atormentada de Marcos Sacatepequez, escritor do Belize que leva à falência todas as editoras que o publicam e termina os seus dias na ilha caboverdiana de Santo Antão; mas também a deriva do marinheiro flamengo Albrecht, amaldiçoado pelo cadáver errante e insepulto de Sacatepequez – como fora dele, à medida que cria a incerta biografia de Schidinski, mais os seus improváveis encontros e amizades, nomeadamente com Afonso Cão, mendigo português muito digno mas destrambelhado.
O narrador não ignora que um romance está por natureza incompleto: «há sempre alguma coisa que pode ser acrescentada, melhorada ou eliminada, fios que podem ser atados, observações mesquinhas que podem ser rasuradas em benefício de uma certa fluidez do texto». À medida que vai alterando a estrutura e o conteúdo de Cidade Conquistada, reconhece que a «sua» obra não tem fim. Tornou-se «virtualmente inesgotável, como um livro que pudesse ser reinventado todos os dias e desdobrar-se continuamente». De certo modo, assemelha-se ao «livro de areia» que surge num conto de Borges, «objecto de pesadelo» porque infinito, «coisa obscena que infamava e corrompia a realidade». Tal como o protagonista desse conto, também o narrador de Uma Mentira Mil Vezes Repetida se torna «prisioneiro do livro» e sente a necessidade de o perder para se libertar do «monstruoso» sortilégio.
O principal mérito de MJM está na forma como consegue manter a sensação de claustrofobia narrativa, sem deixar que o leitor se perca no caos de repetições, incongruências e «solavancos lógicos». Muito bem escrito, o livro oferece-nos pelo menos dois pastiches brilhantes: um de García Márquez (a cidade de Polvorosa, uma espécie de Macondo onde se produz cacau em vez de bananas); outro de Thomas Pynchon (a barafunda postal de Granada). Já o desenlace, em que se esboça uma redentora mas algo forçada história de amor, fica aquém do que um romance tão abertamente contrário às convenções romanescas exigia e merecia.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Já lhe falei da história do homem-zebra?
Quer ouvir? Conto-lha tal como Marcos Sacatepequez a escreveu.
Ou, para ser mais exacto, como Oscar Schidinski diz que ele a escreveu.
É assim:
Polvorosa é um pueblo semelhante a tantos outros deste país de bananeiras e matas de cacau. Consiste apenas numa rua poeirenta, perpendicular à estrada de terra que vem de Insolación e segue para o Norte. De um lado e do outro dessa rua desamparada estão alinhados quinze ou vinte edifícios de madeira, decrépitos quase todos, desbotados e consumidos pela canícula. Há uma venda na qual, de modo irregular, se podem comprar alguns produtos essenciais: velas e querosene, carne seca, arroz e feijão, aguardente de cana, pregos, alguma roupa e sabão. Pouco mais. À direita de quem chega, a meio da fileira de edifícios, fica uma casa menos precária do que as outras, em alvenaria, caiada, com dois pisos e uma varanda assente em pilaretes de ferro forjado. É a residência dos Fuentes. Os Fuentes foram os primeiros colonos desta parte do país e são os proprietários de todas as coisas que aqui vivem e estão imóveis, incluindo as pessoas que, de algum modo, não estão ligadas à família por algum tipo de parentesco. Para lá dos limites da área construída existe um pequeno rio e, depois, estão os campos dos cacaueiros, os quais constituem, ainda assim, a única fonte de rendimentos do pueblo. Polvorosa seria, pois, um sítio sem nada que valesse a pena ser visto ou contado, se não houvesse aqui um homem diferente de todos os outros homens conhecidos. Chamam-lhe o homem-zebra — e é um indivíduo tão extraordinário que, se o pueblo não estivesse tão longe de tudo, tão perdido no mundo, já teria, decerto, vindo gente de outros lados, bacharéis e cientistas, médicos e curiosos por aberrações, apenas para poderem vê-lo e confirmar que existe, e que é exactamente como vai ser dito.»

[in Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo, Quetzal, 2011]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges