A dureza do metal

Tungsténio
Autor: Marcello Quintanilha
Editora: Polvo
N.º de páginas: 184
ISBN: 978-989-8513-40-3
Ano de publicação: 2015

Depois de apresentar obras marcantes da BD que se produz actualmente no Brasil, como Copacabana (de Lobo e Odyr), Cachalote (de Daniel Galera e Rafael Coutinho), O Diabo e Eu (de Alcimar Frazão) ou Cumbe (de Marcelo D’Salete), a editora Polvo introduz-nos agora no mundo de Marcello Quintanilha (n. 1971), autor de traço limpo e expressivo, ao serviço de histórias que se interpenetram, numa montagem paralela de cariz cinematográfico.
Em Tungsténio, tudo se passa à sombra do Forte de Nossa Senhora de Monte Serrat, em Salvador (Bahia), onde dois homens decidem fazer uma pescaria com explosivos e desencadeiam uma cascata de acontecimentos que acabarão por juntar, num clímax dramático muito bem urdido, as personagens centrais do livro: um traficante menor, elo mais fraco de várias cadeias de poder; um sargento aposentado, com nostalgia dos seus tempos de actividade militar; um polícia com historial de bravura debaixo de fogo; e a sua amante desiludida, em vias de concretizar uma separação que nunca passou de ameaça.
Na nota de abertura, Quintanilha explica que o tungsténio «é o metal com o ponto de fusão mais alto que se conhece», como quem admite ser a natureza misteriosamente inquebrável das vidas comuns o tema central deste livro, em que se sucedem as situações e peripécias que colocam à prova «a capacidade dos personagens de forçar a dureza do metal do dia a dia a ponto de rompê-lo».
No choque com a dita «dureza do metal», há quem saia maltratado, há quem maltrate, há quem sobreviva. Além de ser um vigoroso retrato da violência urbana, Tungsténio consegue captar fielmente o falar das ruas, cheio de corruptelas e solecismos. As pranchas são dinâmicas, com espaço para a interioridade das personagens (sobretudo a de Keira, a amante). Lamenta-se apenas que o desenlace, algo frouxo, não esteja à altura da espantosa energia que atravessa todo o álbum.

Avaliação: 7/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges