Impossível como uma raposa

Vale a pena ler o excelente micro-conto de Margarida Ferra, publicado no site das Histórias Daninhas.

Frésias em Dezembro

Ao mais recente número da revista Ítaca (o terceiro), já pedi emprestado um poema de Tiago Patrício (Os Criadores de Poetas). Agora volto lá para roubar um poema de Margarida Ferra, autora de Curso Intensivo de Jardinagem (&Etc), além de co-autora da Alice e do Pedro:

NÃO TE ILUDAS, NÃO TE DESILUDAS

Não te iludas, não te desiludas
não há ninguém do outro lado
da linha, não precisas de bateria
para te ligarem,
nunca serás tu a pagar rodadas,
és invisível e não vale a pena
tentares gostar de vinho.

Não te iludas,
nada te tenta como uma romã antes
do tempo delas, frésias em dezembro
podem ser comoventes
mas não são frésias ou não é dezembro,
ninguém tas estende.
Se parecem pétalas nos cabelos das crianças
não são tuas. Não te iludas,
acende a luz.

Não te desiludas,
não há quem goste de ti e de dióspiros,
podes tentar, mas não tentas ninguém,
és uma solução fácil,
demasiado prosaica,
os teus versos não convencem mulheres
melhores
homens
crianças,
principiantes de toda a sorte,
riem-se das tuas palavras
e do teu dia-a-dia banal. Não há o que esconder
para além do despertador
e do comboio, nem entre uma coisa e outra.

Não te iludas,
podes ter inventado alguma coisa quase grande,
mas a dor da queda sente-se especialmente no
calcanhar. (Era a última curva que te prendia
ao chão a que voltarás e pertences.)
Havia uns sapatos vermelhos, sorrisos grátis e outras
formulações previsíveis
que te encantaram
porque vinham do outro lado da rua,
mas
não te desiludas:
um copo de vinho é um copo vazio
antes ou depois de teres dito tudo,
se é que alguém esticou os dedos.

As tuas estrofes são demasiado
iguais, serves-te
de um dicionário escolar
e o teu melhor poema foi o primeiro.
Não te desiludas,
os outros são sempre outros.
Não vale a pena ofereceres-te para escrever
sms ou requerimentos,
os teus desejos são irrevelantes
face a um novo par,
os saltos altos fazem pessoas diferentes.

Não te iludas
não corras, nunca terás o calçado
adequado para cada ocasião
– dança descalço –
não espreites perfis alheios
não te deixes embalar pelo toque de chamada,
a voz da operadora telefónica
lê todos os sinais que dizem que não és desejado
antes de encostares o peito ao que te estendem.

Não corras,
sem pressa evitas melhor chegar à verdade

(não há mais de mil verdades)

e saber que o fim
não é quando rodas o botão
e o fogo azul se apaga.

O arco-íris duplo

Um dos vídeos mais vistos no YouTube em 2010 foi este:

E quem pensar que há exagero na euforia/comoção deste homem diante do espectáculo da natureza, é porque nunca viu (como eu já vi) um arco-íris duplo «all the way across the sky».
Também em 2010, fiquei fascinado com outro arco-íris duplo, provavelmente o mais bem descrito da poesia portuguesa (a bem dizer, não conheço outro). Está nas páginas 46 e 47 do Curso Intensivo de Jardinagem, de Margarida Ferra, publicado na &Etc (o negrito é meu):

ALGÉS

Para a Jussara Rowland

Não chegámos a ver a tempestade
e quase não vimos a feira de
coisas velhas — toldaram-se
as coisas com os preparativos
do fim. Rápidas, as mãos
dos comerciantes a apanhar
os objectos que regressavam
aos sacos, aos carros, aos intervalos.

Não tenho a certeza se
foram as pessoas que começaram
a correr quando caíram as primeiras
gotas, pesadas e distantes, se
foi o vento a crescer em espiral
e por isso os movimentos
me pareceram mais acelerados.
Ou se
durante a nossa fuga, sob os meus olhos,
passaram ainda mais coisas velhas, em trânsito
para dentro dos sacos,
para dentro dos carros.

Foi já no automóvel
que vimos as gaivotas fugidias,
desarrumadas entre os prédios,
brilhantes também,
sobre elas o mesmo sol.
Logo a seguir, as cores todas,
os dois arco-íris. Um dentro do outro, voltas
perfeitas, mais nítida a ilusão de dentro
do que a ténue sugestão de fora.

Deixámos o rio para trás, cinzento,
a nuvem carregada colada ao Tejo e, antes
do azul celeste de uma bonança superior,
o sol na nuvem branca, néon horizontal.

À medida que regressávamos à cidade,
foi desaparecendo tudo o que parecia ser.

Maria do Rosário Pedreira sobre ‘Curso Intensivo de Jardinagem’, de Margarida Ferra

Aqui.

‘Curso Intensivo de Jardinagem’ num minuto

É uma reportagem de Filipa Leal, incluída no programa Câmara Clara (versão diária), exibido fora de horas na sexta-feira passada, por causa da morte de Saramago. Começa aos 03’28”.

O que aí vem (&Etc)

jardinagem

Curso Intensivo de Jardinagem: o primeiro livro de poemas de Margarida Ferra. E uma magnífica estreia, digo eu. Mas neste caso sou suspeito.
Em 2008, partilhei aqui dois dos poemas agora publicados em papel. Eis outro:

AREEIRO

O sinal vermelho, o carro
travado. À esquerda, a bomba de gasolina;
à direita, a gaiola equívoca.
Duram um minuto e meio,
a minha espera
e os contos que me visitam,
rápidos monogramas em ponto cruz
dessa louca sem nome.

Morou ali no tempo
em que a cidade acabava antes.
Gritava no corredor
que era um pássaro, nascia de manhã
com asas, as penas caíam-lhe à mesa.
Ao fim do dia, abria-se a porta
da varanda. Arrancou
e comeu todas as petúnias brancas.
Depois, o bordado caído
e os olhos atirados para o céu,
por onde hão-de passar estes aviões
agora. Presos: o tecido no bastidor e o ar no peito
(ao contrário daquele que ainda circula –
a única coisa que as grades não podem segurar).

A capa é de Luís Henriques.

Dois poemas inéditos de Margarida Ferra

REGA AUTOMÁTICA

Na esquerda, uma luva grossa
protege-me dos acentos agudos.
A direita, despida e guardada,
receio que se transforme em água,
ainda não foi urgente abri-la.

Tornou-se uma evidência que estas
mãos podiam um dia ficar
mais longe do prolongamento
dos ouvidos.
Deixei, nessa mesma tarde,
no colo as agulhas
e os fios, espessuras e números incompatíveis.
Nunca fui capaz de ensaiar
as dobras
meticulosas na folha branca.
Um só vinco geométrico, em papel
de máquina, podia disciplinar-me
todos os gestos (mesmo os
que afinal não foram).
Se fosse hábil de tacto,
rendia-me ao origami.

CULTIVO DOMÉSTICO

O cheiro da menta
no canteiro improvisado
entrou depressa demais
nos meus pulmões.
O ar tornou-se um silêncio incómodo
– pouco e frio. Essas palavras,
que íamos agora ouvir, a apagarem-se
diante dos meus olhos. E a acenderem-se
logo depois, debaixo das tuas pálpebras.
Os néons substituíram toda a mobília
do quarto: já não o vejo.

Descobrimos a seguir os vapores
que se levantavam das minhas
mãos, até todas as chávenas vazias.
E calámo-nos.
Quase nada do que foi plantado
resistiu ao domínio da hortelã.
Os outros versos nunca chegaram a existir.

Atrás do balcão: Pedro Vieira

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32 anos, licenciado em Comunicação e Publicidade, trabalha na maior livraria do país

Depois de seis anos a assinar recibos verdes para a Câmara Municipal de Lisboa, onde trabalhava no pelouro da Juventude, achou que sabia fazer poucas coisas e atravessou o jardim do Campo Grande até à livraria que frequentava na hora do almoço. Por causa de uma carta de motivação escrita em tom atrevido, chamaram-no para uma entrevista na Bulhosa, que lhe deu um lugar na loja do Odivelas Parque. Pensou que seria uma hipótese de trabalho, uma forma de lidar com os livros, de que gostava, e que isso lhe poderia facilitar a integração e o dia-a-dia. Durou um ano e meio, esse período a que Pedro chama a sua “primeira encarnação na Bulhosa”. Seguiram-se mais dois anos e meio atrás do estirador, como designer gráfico, no Centro Cultural Olga Cadaval em Sintra, antes de reencarnar atrás de um balcão em Campo de Ourique. Esteve neste bairro desde que a Bulhosa tomou conta da antiga Barata. Saiu para fazer parte da equipa que abriria em Dezembro de 2007, ali ao lado, nas Amoreiras, a famosa livraria dos 3300 metros quadrados de superfície.

Cartão de leitor nos dias de folga
Os desenhos, a música pop e o jazz, bocados de conversas apanhados ao acaso, um roteiro da cidade em baixa definição — os interesses de Pedro Vieira estão à vista de todos no seu blogue, mas ele assegura-nos que não tem qualquer relação do género passional, com os livros ou seja com o que for. “Não tenho aquele discurso de que os livros são a minha paixão, morria se não os tivesse. Não ponho as coisas nesse pé, até porque acho que entram no campo da caricatura e dá-me vontade de rir.” Com ou sem paixão, irmaolucia gosta a sério dos livros e é isso que o leva, nos dias de folga da livraria, a procurar nas bibliotecas municipais o que não pode comprar. É frequentador assíduo de um edifício com “ar carcomido” na Calçada do Combro: “Tem uma vista espantosa para o Tejo, está sobre Santa Catarina, gosto imenso de lá ir; vou lá buscar aquelas coisas que a pessoa acha ‘se calhar não comprava isto, mas posso ler’ e recorro imenso ao empréstimo domiciliário.” Recentemente, tem vindo a trocar a Biblioteca Camões, no Largo do Calhariz, pela do Palácio Galveias: tem o maior catálogo e agora não se cinge às leituras presenciais. “Faço coisas disparatadas: vejo várias coisas que me interessam levar, sei que não vou ter tempo útil para ler aquilo e vou ter que as devolver. Sou um bocado garganeiro.”

Vampiro voyeur
A experiência no Odivelas Parque serviu para muito rapidamente desfazer qualquer resquício que pudesse ter da ideia romântica de livraria, “aquela história do velhinho de cachimbo, a folhear umas raridades, uma porta com uma sineta por onde entram sempre clientes interessantes”. Realmente isso não acontece. “Os livros estão nas prateleiras, alguém tem que os pôr e somos nós. E carregar com caixas e fazer devoluções não é assim tão divertido.”
Embora tenha ido parar ao negócio dos livros de uma forma circunstancial, imagina-se a ficar pelo ramo durante alguns anos, mas nunca pensou seriamente em fazer carreira dentro das livrarias. Gerir uma loja, por exemplo. “Acontece muito as pessoas que depois têm a responsabilidade de gerência de loja torrarem muito tempo nessas coisas e em burocracias. E isso não me agrada muito. Claro que gosto de acompanhar quando os vendedores vão à livraria e trazem as novidades, mas gosto mais do trabalho corrente, como as marcações de livros, que agora não tenho feito. Gosto disso. E do relacionamento com as pessoas também, embora às vezes funcione de uma forma um bocado vampiresca por causa do blogue. Esse contacto proporciona os momentos mais hilariantes. Alguns em que a pessoa fica zangada, humilhada, irritada, isso acontece-me. Se acontecer duas ou três vezes num dia, achas que nunca mais vai conseguir fazer aquilo, que lidar com o público realmente é uma porcaria. Mas também há coisas compensadoras. E outras em que me consigo abstrair e funciono um bocado como voyeur.”

Duelos na cidade
“Gostei muito de estar em Campo de Ourique. Só havia uma coisa de que eu não gostava particularmente: o negócio de jornais e revistas, porque cria muitos conflitos com os clientes. As reservas dos brindes, das socas da Caras e dos pins, mais os amuletos do 24 Horas e os santinhos. É uma coisa assustadora, mesmo. Fiquei com imensa admiração pelas pessoas que têm os quiosques, que estão sozinhas aí pela cidade.
Percebe-se que em Lisboa a geografia das livrarias conta muito, embora seja uma cidade pequena. Esta é a quarta onde estou. Os públicos variam muito e varia o comportamento das pessoas. Acho que nas livrarias se faz mais finca-pé, talvez para desafiar as pessoas que trabalham lá. Ou testá-las. Pode às vezes nem ser para envergonhá-las ou para humilhá-las, mas para fazer um teste, um confronto. São duelos.”

“Sida e Arte” e a Capela Celestina
“Têm acontecido coisas muito caricatas, como uma que descrevi há pouco tempo: um ex-presidiário foi à procura de pornografia para um seu suposto amigo. Outra: tínhamos um visitante recorrente em Campo de Ourique (um caso de problema mental mesmo sério, que agora parece estar mais controlado, pelo que tenho sabido), uma pessoa que ia lá ameaçar-nos de morte. Com música aos berros, cabelo e sobrancelhas rapados, vestido com uma gabardina, estava sempre a debitar: ‘I have my machine gun, I’m gonna kill you all‘, ‘Are you looking to me, bitch?‘, quando alguém olhava para ele. Mas depois vinha com um discurso articulado ao balcão, o que era completamente desconcertante. Depois, há episódios com clientes difíceis. Às vezes tem a ver com a educação das pessoas, às vezes com os pedidos insólitos e é preciso descortinar de que é que a pessoa está à procura. A coisa mais incrível que já ouvi foi procurarem pelo “Sida e Arte”. Era o Sidharta. As pessoas acabam por reconhecer, mas algumas fazem finca-pé, como a senhora que uma vez me pediu um livro sobre o pintor da Capela Celestina. E eu cometi o erro de emendá-la — percebo agora que, consoante a natureza da pessoa, temos de ser prudentes nisso. Emendei-a e foi como se estivesse a insultá-la, até chamou o marido, que estava no piso de cima da livraria. Acabei por desistir, por enfiar a viola no saco e dizer: ‘Eu realmente sobre a Capela Celestina não tenho nada.’ Depois o marido lá a chamou à razão e ela lá reconheceu. Mas acho que isto tem a ver com o atendimento ao público, não necessariamente com a livraria, com o objecto livro.”

Duas sugestões entre o sabonete e o caviar
“Há dois autores que tento sempre impingir. Um deles não é best-seller a uma escala Rodrigues dos Santos, mas acho que é reconhecido pelas massas: é o [Arturo Pérez-]Reverte. Adoro aquelas aventuras. Tanto as de capa e espada como as que embrulham a História no quotidiano. E então quando o cliente procura alguma coisa para interessar alguém que gosta de mistério, ou que gosta muito de romances que metam História ao barulho, tento desviá-lo dos sucedâneos do Código Da Vinci e tento encaminhá-lo para aí. Acho que ele consegue fazer muito bem essa síntese de História, aventura e mistério. Parece um escritor à moda antiga. Há um livro de que eu sou fã absoluto: A Tábua de Flandres. Para mim foi uma revelação, foi o primeiro livro que li dele e fiquei mesmo rendido. Não é nem sabonete nem caviar, é assim uma coisa que está algures no meio. A minha relação com os livros também é um bocado assim. Nunca tive muita pretensão de conhecer os grandes autores, sou uma nulidade em clássicos, passei completamente ao lado de coisas que são incontornáveis. E por outro lado, acho que consigo fugir ao lixo literário.
Outro autor com quem deliro completamente transformou-se numa espécie de ícone pop. É o Boris Vian. Foi uma descoberta que tento também mostrar às outras pessoas. Não sou particularmente romântico, mas há um livro dele, que é A Espuma dos Dias, que é delicioso. É, sem dúvida, um dos livros que mais gostei de ler até hoje e tento sempre “impingi-lo”. Mas sei que a pessoa pode achar completamente disparatada a cena da enguia que sai de dentro do lavatório ou a do senhor que quer curar a mulher que tem um nenúfar nos pulmões e só o quarto cheio de flores é que consegue fazer com que ela recupere. Quando tenho hipótese de brilhar, são esses dois autores que recomendo.”

[Texto: Margarida Ferra; Ilustração: autoretrato de Pedro Vieira]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges