Memória de uma residência

Em Setembro do ano passado, eu, a Margarida Vale de Gato e o Jaime Rocha participámos numa residência poética inserida no encontro ‘Poesia, Um Dia‘, organizado pela Biblioteca Municipal José Baptista Martins (Vila Velha de Ródão). Na aldeia de Foz do Cobrão, deambulámos, conversámos muito e escrevemos alguns poemas que foram lidos numa sessão aberta ao público.
Desta experiência nasceu o documentário Portugal: Poema em Construção, produzido pela Biblioteca, para o qual contribuí (sem saber na altura o destino que teriam aquelas imagens) na qualidade de interveniente e de operador de câmara. Eis o resultado final:

Poesia em Vila Velha de Ródão

De 14 a 19 de Setembro, a Biblioteca Municipal José Baptista Martins, em Vila Velha de Ródão, vai receber uma série de espectáculos, exposições e ateliers centrados em textos poéticos. Uma das iniciativas é uma residência literária, na aldeia de Foz de Cobrão, em que fui convidado a participar na companhia de Margarida Vale de Gato e Jaime Rocha. Ecos e imagens do que se passar nesses dias chegarão, mais tarde ou mais cedo, a este blogue. Mais informações sobre o ‘Poesia, Um Dia’ e a programação completa, aqui.

Economia e poesia

Na mesa 3 das Correntes, discutiu-se o seguinte mote: «A poesia é o resultado de uma perfeita economia das palavras». Gostei particularmente da intervenção da Margarida Vale de Gato, cheia de verve e magnífica prosódia, sem medo de ser «barroca e verborreica». Eis o texto completo, com dois poemas integrados no torrencial fluxo de um discurso empolgado e empolgante:

«Economia e poesia, era o que mais querias. Poupar as palavras, pô-las a render. Às palavras contadas descontávamos o encontro, que necessita de logística, criávamos o supérfluo, um desejo imperativo e virtual, sem matéria nem peso nem carne, mas de aparência premente e vital, e exigíamos resultados ao poeta de serviço, corretor da Babel. O poeta de serviço metia ao bolso as palavras negativas e enjorcava um poema cheio de afirmações e de bons sentimentos. A balança de pagamentos bajulava a poesia alemã, esforçando-se por honrar a eterna dívida externa. O texto vai na sétima, agora oitava, linha, passou por isso a perfeição, e ainda não disse a palavra austeridade. Ai pois não, se somos lixo tomai lá que palavras são luxo, e poesia não é circuito nem é fluxo nem refluxo que ignore o que por aí se diz, o que por aí se canta e sofre, a manta que se pinta, poesia é sopro, sim, haverá quem o guarde só para si, mas não será soma nem resultado nem produto, quando muito é lucro, quando muito é estupro desta acrítica gramática, será serviço, por que não, mas servil? Uuuhhh põe-te em guarda poeta se já douras a pílula e arranjaste um sistema, ou ainda pior um esquema, desconfia muito do governo, se tens um, e sobretudo se te elege, a vida custa a ganhar já se sabe, mas dizemos por aí, nós, os que saímos à rua, marcha pequena que finalmente acorda e se põe a palrar, que à falta de papel andamos aos cartões e com eles enchemos as esquinas e as praças e nos pomos a abanar as mãos e a discutir seriamente as nossas vidas e a democracia com os fundilhos nas calçadas, dizemos por aí que basta, que inevitável é a tua tia e não se sabe como vai isto acabar, é como o amor, interminável enquanto dura, e há tanto tempo que por aqui não havia nada que se pareça, poesia é isto, não é soma feita, é procura e processo, imperfeita,

barroca e verborreica como eu, mas sem peneiras, meu bem,
experimentando a mão e a maneira
a poesia, como a gente, acha-se linda, desce à primavera.
e a água muda em madeira e a densidade em arco
devemos arejar o fígado, tratar a raiva,
laurear a pevide
trazer à brisa os cascos dos barcos
pois temos vivido submersos;

há amantes sem dinheiro, há pedintes de versos ao peito,
e há quem esqueça o trato cordato e queira pegar em pedras do fundo de perspectivas em falta
a reguilice desconjunta abala o planeamento
urbano mais do que a luta organizada,
que chatice, nem todo o grito é exacto, há revolta que não sabe que forma quer, dor sem acordo de discurso, balbucio, palavrões que inquietam, letreiros tão diversos.

Não é a desordem nem o excesso que impede um estado, mas o movimento que difícil e admiravelmente se põe em marcha num estado de austeridade.
Por mim sei que pouco me une aos meus semelhantes e porém não creio que haja pior solidão nem caminho mais perto para o fim.
Cada um no meio dos outros, alguns pelo seu bem comum: vamos ver.
A poesia nem sempre resulta nem nunca dá de comer.
Mas se falhar a economia haja outras coisas com matéria
para nos darmos
o que livre da miséria.

Só abdicando da respeitabilidade, nesta vida competitiva, podemos suspeitar da infinita realidade desmedida. Posso e já escandi versos e admito que há modéstia e coragem na procura de uma única frase bem lançada e precisa. Ao contrário da economia a matemática não me faz estrilhar. Gosto dela desde que não seja resultado, nem seja medição nem muito cálculo mas assim mais equação. Há beleza no pensamento abstracto, na eterização, na condensação, como há nos números primos e solitários, o belo de se ser único, o mistério de se ser regular até ao infinito ou irracional como pi. A poesia participa dessa esfera também mas faz falta que se suje, bem como que a admiração do rigor abra lugar ao riso. Este é um tempo profano e de nada serve a aparência do religioso se não for também aparição. Eu quero hoje que a palavra mova, necessito da palavra denúncia e da palavra nova que me darás, táctilintactotérmica, o que eu gostava da palavra mágica, da palavra ternura, coanilada, e viçoardente.
É maravilha e tristeza isto da escrita a correr além daqui e de mim, tão fácil montar e povoar mundos assim, iludir solidão, construir abrigos. Foram talvez os surrealistas que mais denunciaram este risco e impunidade do literário, reclamando a palavra-acção. E que fizeram? Desataram a desenterrar o sonho no mundo, a fazer armas automáticas de arremesso ao edifício da razão, queriam a revolução e marimbavam-se para a economia, e terão desconhecido pelo menos de início que dariam meios sofisticados à publicidade, ao marketing, ao mercado de ilusões, às campanhas de marcas e de partidos.
Colocamo-nos então uma pergunta cheia de gravidade: há alguma coisa que se possa fazer? Tens olhos, ninguém tem de te dizer para ver. Aqui na Póboa, por exemplo, eu beijo com os meus olhos e aqui bou, bôo eu, a tourear-te outra bês com a minha berbe. Somos muito perigosos nós com os nossos sotaques, as nossas falas malabares, corremos o risco, com tanta falta de contenção e despojamento de não estar preparados nunca para a verdade e, pior, para o gesto. Na minha história e neste tempo que lugar há para tudo isto que digo e como devo dizê-lo. E já pensei até em calar-me, não dizer mais, que estou a azular o mundo e a escritura não cura. Mas não, isso ainda eu não quero. Quero falar para que façamos. E no meio disto há o medo de parecer frívola ou assim de com alguma alegria te convidar à partilha e te chamar para aquilo que não sei como vais querer e se calhar quererás com ideal diferente do que eu achava que era bom para ti. Mas não quero estar mais sozinha nem pensar que a poesia é dedicação mais alta, ou que consigo brincar aos deuses e ao fim do mundo guardando a palavra archote, pelo que reflecti um poucochinho e fiz estes versos para ti:

Democrítica

Mais tempo, admito, gasto a passar mal
por relativo amor e altivez
do que a fazer política, e prezo
sobre o consenso o rasgo original,
herança doentia do burguês
de génio, que nega ser geral
o raio que trilhou seu ideal,
e deixa que o isente a lucidez
da desprendida rota da unidade
além da sua esfera. Mais consola
levantar os óculos à verdade,
suspensa ao clamor mudo lá do fim
da literatura, onde não rola nada
excepto, além das massas, o sublime.
Precário verso, se o gesto
o não redime –
paira só na frouxa linha acima
dos meus ombros
onde ruo assolidária e sem assombros.
Agora, se descerem os médios
à rua os verdadeiros pobres a gente
atenta e recíproca a encher de pulmões ar
canto atrito resistência translação,
a derrubar consumo e cómodo sem afecto
e esta economia ávida que há muito não vê
pessoa que não faça género ou número, então
não seja eu por mim avara na poesia,
e, mais que busque luz, eu desconhecendo, dê.

Margarida Vale de Gato»

Quatro poemas de Margarida Vale de Gato

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES

Para aqueles que insistem em diluir
isto que escrevo aquilo que eu vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.

À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.

Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita

um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema, o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz.

***

ÉMULOS

Foi como amor aquilo que fizemos
ou tacto tácito? – os dois carentes
e sem manhã sujeitos ao presente;
foi logro aceite quando nos fodemos

Foi circo ou cerco, gesto ou estilo
o acto de abraçarmos? foi candura
o termos juntos sexo com ternura
num clima de aparato e de sigilo.

Se virmos bem ninguém foi iludido
de que era a coisa em si – só o placebo
com algum excesso que acelera a líbido.

E eu, palavrosa, injusta desconcebo
o zelo de que nada fosse dito
e quanto quis tocar em estado líquido.

***

A IMAGEM ROMÂNTICA

Há outras coisas, Horácio,
e a tua filosofia é barata,
na verdade não custa fixar
as coisas ideais à distância:
terás vista panorâmica
mas sempre a visão é polémica.

Gostava que alguém me mostrasse,
mas não terei nunca garantia
de que envelhecer faça sentido.

As pessoas prostram-se, queremos que nos digam
porquê não haver luz nos seus rostos. Crestam
os cravos, antes rubros. Não há modo
de saber se as monarcas
têm memórias arenosas de lagarta.
Tudo sucede dentro de estanques
casulos, a seda é densa,
não se faz ideia
se isto acaba. Estrelas foscas
correm, pessoas morrem, a vida
é breve, impávido o
real se esquiva a designar.
Comparar é colidir: o verbo
talvez nos leve
a mais nenhum sinal.

***

COM PAIXÃO E HIPOCONDRIA

Confortamo-nos com histórias laterais,
evitamos o toque, há risco de contágio;
por mais que preservemos a franqueza
passou o estágio já da frontal alegria:
estamos bem, obrigada, embora aquém
de antes – entretanto admitimos não
saber, e enquanto resta isto indefinido,
mesmo com luvas, pinças de parafina,
não sondamos mais, sob pena de crescer
um quisto nesse incisivo sítio onde
achámos sem tacto que menos doía

[in Mulher ao Mar, Mariposa Azual, 2010]

Lançamento de ‘Mulher ao Mar’

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Finalmente, eis o muito aguardado primeiro livro de poemas de Margarida Vale de Gato: Mulher ao Mar (Mariposa Azual). A autora, sobretudo conhecida pelos seus excelentes trabalhos de tradução a partir do inglês, vai celebrá-lo, ao livro, com um «Baile da Revolução» na noite do dia 25 de Abril, o que me parece mais do que adequado.
Pela minha parte, depois de ouvir Hélia Correia, tenciono dançar ao som de Bella Ciao & etc.

Sobre a universalidade da literatura

Na nona mesa das Correntes d’Escritas, a Margarida Vale de Gato, uma das organizadoras do colóquio sobre Edgar Allan Poe que daqui a nada começa na Faculdade de Letras de Lisboa (ver post anterior), leu o seguinte texto, que em minha opinião merece, depois daquela passagem efémera pelo Auditório Municipal da Póvoa do Varzim, uma segunda vida:

«1. A universalidade da literatura e a originalidade da escrita

A universalidade da literatura é uma ideia bonita, especialmente para quem a ela se dedica, já que todos nós gostamos de pensar que o que fazemos é importante, e até mais do que isso, essencial. Gostamos de pensar que a necessidade da literatura faz parte: 1) duma necessidade do homem e da mulher se exprimirem artisticamente desde o princípio dos tempos; 2) duma necessidade de configurar através da palavra explicações para o mundo e para a identidade. Daí que uma das evidências que se pode apresentar para a universalidade da literatura seja a sua base quer num número restrito de temas comuns (o amor, a morte, a guerra, a loucura, o medo da loucura) quer mesmo num número possivelmente quantificável de enredos que nos vêm desde os mitos, os quais sabemos, tais como os contos tradicionais, repetirem-se em culturas separadas por grandes distâncias quer geográficas quer temporais.
A isto, porém, pode contrapor-se que a literatura – o que torna um texto literário – não é propriamente isso. Um enredo não faz necessariamente uma obra literária e os temas comuns (amor, morte, guerra, loucura) podem ser expressos de outras formas que não literárias. Nem sequer é a linguagem que faz a literatura. Como dizia ontem Santiago Gamboa: “nós, os escritores, não representamos adequadamente a humanidade; nem a realidade nem a linguagem na sua origem são literárias.”
Muitos defendem que literatura não é o que é dito, mas o modo como é dito. E aí surge a questão do estilo, de onde advém a necessidade de originalidade – que não convive confortavelmente com a universalidade. Se o universal é o comum, e nós acreditarmos no título de uma outra mesa aqui das Correntes, “é literatura tudo o que não é evidente” – portanto, justamente, o único, o original, o marginal –, em que ficamos?
Não creio que a universalidade da literatura seja uma existência, mas antes uma aspiração. A universalidade da literatura só pode fazer sentido como utopia que mova o escritor. E se pensarmos assim, pode dizer-se que pode ser ambição do escritor o inscrever-se na humanidade, o dar o seu contributo único, individual – subversivo, original – para tornar o universal mais amplo.
Um escritor tem um material, a linguagem, com uma série de convenções e aplicações com possibilidades ilimitadas da comunicação. Para mim, é na função comunicativa da linguagem que reside o seu potencial universal; mas o escritor vai buscar esse potencial para nele fazer preferencialmente outra coisa: expressar arte, expressar-se a si. Assim, voltamos ao conflito: o escritor poderá idealmente querer comunicar universalmente, mas antes de tudo quererá, penso, expressar-se individualmente, num registo de diferença, porque acha que tem coisas a dizer ao mundo, ou sobre o mundo, que o mundo ainda não previu nem incluiu.

2. A Tradução como o vento das escritas

Eu, que sou tendencialmente de ideias fixas, e que desde pequena meti na cabeça que queria viver a escrever, curiosamente, partindo dum amor à literatura fui desembocando cada vez mais – primeiro por um percurso pessoal (passando a adolescência nos Estados Unidos, conheci o trânsito linguístico) e depois profissional (até agora ainda só consegui viver da escrita como tradutora) – naquilo que na literatura se pode comunicar. Como tradutora, estou bem melhor com a universalidade da literatura, visto que contribuo para que se liberte da sua ancoragem mais nativa por contraposição às outras artes (música, pintura, fotografia), no esforço de superação das suas contingências, primeiro linguísticas, mas também culturais, espaciais e temporais. Porque um tradutor não só atravessa línguas, o tradutor atravessa também contextos, espaços, tempos. Nesse sentido, uma metáfora que lhe serve pode ser retirada da primeira parte do título desta mesa: o vento.
Várias imagens bíblicas – possivelmente outros tantos mitos desses que dizemos serem universais – servem a tradução. O mais conhecido será o da Torre de Babel, de que um dos meus teóricos preferidos sobre o tema, George Steiner, nos fala, e que serviu também ao grande tradutor português João Barrento para expor as suas ideias sobre tradução, O Poço de Babel. Saber se foi vingança ou ardil de Deus condenar os homens a falar diferentes línguas, por ousarem pretender que um monumento chegasse à sua altura, é ainda uma questão em aberto. Em conversa com Ana Luísa Amaral, com quem tive a honra também de aprender muito neste encontro – e com cujos livros tenho aprendido muito ao longo da vida – ela falava-me no mistério, também bíblico, da Visitação. A ideia da visitação é muito cara a uma concepção romântica da poesia, e na tradução aplica-se muitas vezes a um estado de possessão do tradutor pelo mesmo espírito que animou o autor. É, também, uma bela imagem, mas para mim, não é ainda a que me serve em tradução, porque em tradução, mais do que me imaginar em comunhão com um autor, eu considero-me em trânsito entre este e o leitor. Defendo o tradutor como alguém que deve ter a humildade e a gratidão de ser um veículo. Daí que a metáfora bíblica mais recorrente no meu imaginário de tradução seja a do Espírito Santo, o sopro ou o vento do Deus. Também gosto, confesso, do Espírito Santo que se divide em línguas de fogo na Ceia de Pentecostes e manda os apóstolos para fazerem entender a palavra divina pelos homens de todas as terras e idiomas. Sendo uma imagem de graça e iluminação, o Espírito Santo não revela a Verdade, não é uma visitação que invista o visado dum conhecimento especial que lhe permita chegar à Fonte, antes dá o meio pelo qual Deus se faz Homem; na Catequese explicavam-me que o Espírito Santo era o amor entre o Pai e o Filho, e também o Amor que levou o Pai a fazer-se Filho para viver e ser frágil ao ponto de morrer com os Homens. Para mim, a tradução é essa versão comunicável da graça, essa versão que toma um determinado corpo para chegar ao Outro.
Não me empenho especialmente em defender o tradutor como um autor, sequer como co-autor, nem tampouco, por mais lisonjeador que isso possa ser, como criador. Claro que o tradutor também cria, ou sobretudo recria. É, todavia, um criador secundário, e deve depender sempre do que foi gerado pelo autor. Habituei-me a pensar no autor como criador de universos e no tradutor como seu satélite; cada vez penso mais nesse satélite como uma sonda, um vaivém espacial, que reporta as constelações, as crateras e os mares do autor aos homens cá na terra – mais propriamente, recorrendo ao título duma mesa de ontem, cá no bairro, cá na rua. Ao tradutor aplica-se certamente o lema de pensar globalmente e agir localmente, quando ele actualiza um texto – por exemplo, uma das obras ditas universais da literatura – para o público da sua língua, da sua época, e aí ele é mais um executor do que um criador. E, no entanto, se não fosse essa tarefa, às vezes tão circunscrita (um tradutor de uma peça de teatro, por exemplo, que trabalha com encenadores e actores pensando num público-alvo específico), os clássicos, esses tais universais da literatura, não perdurariam enquanto universais. Daí que numa formulação feliz, Walter Benjamin, no seu ensaio precisamente intitulado “A tarefa do tradutor”, fale da tradução como uma “sobre-vida”, garantindo a sobrevivência do texto e insuflando-o de novas vidas. No entanto, sobre este ensaio, devo acrescentar que é para mim um texto conflituoso, precisamente porque Benjamin está, acho eu, muito preso a uma ideia de comunhão entre autor e tradutor que lhes permita recuperar uma espécie de linguagem pura. Tal como a ideia de universalidade de literatura, também acho bonito o pensamento de Benjamin, mas não me serve. A tradução, do meu ponto de vista, existe também para se sujar e promiscuir com o leitor. Para mim, e pegando na oposição que antes delineei entre a ambição de uma comunicação universal e a expressão artística original, a diferença entre tradução e literatura é que a literatura, se quiser, pode desprezar a função comunicativa da linguagem e ater-se apenas à sua função expressiva até chegar a uma poeticidade em que a palavra se torna independente duma necessidade de mensagem. Mas a tradução não pode descurar a função comunicativa da linguagem, nem a procura duma mensagem, por mais que o autor não a tenha lá posto. Afinal, se um tradutor é um mensageiro, como pode haver um mensageiro sem mensagem?
Mas se dissemos antes que a literatura não se faz nem da mensagem, nem da linguagem, a tradução corre o risco de passar ao lado da literatura. Pois corre. Robert Frost disse numa frase lapidar e cruel: “a poesia é o que se perde em tradução”. Todo o meu esforço de tradutora, a bem dizer, é contrariar isto. Eu quero meter a poesia nas minhas traduções. Quero que elas carreguem o que está lá de investimento incomum dum determinado autor (seja de sonoridade, de construção frásica, ou de metáforas como nós na garganta), mas também me sinto grata por meter nelas um esforço de trazer para o outro, fazer chegar ao outro – que pode não estar, que não tem de estar, nas intenções dum autor. Para mim, a maneira como a tradução pode contribuir para a universalidade da literatura não tem a ver com uma inscrição na posteridade tal como a conceberá um autor que se proponha escrever uma obra-prima universal. Tem a ver com um compromisso aqui e agora, com, mais do que criar novas condições de possibilidade (isso é tarefa dos autores), transmitir o mais possível nas condições possíveis.
Uma vez que sou, porém, uma criatura contraditória, e porque tenho por outro lado as minhas ambições de escrita pessoais, resolvi que não ia deixar passar este momento em que também posso fingir que vim ao Correntes d’Escritas por ser um bocadinho escritora, sem apresentar um pedaço de poesia da minha autoria. E até trouxe um que vem bastante a propósito. Primeiro, porque foi feito num encontro com algumas semelhanças com este, embora mal “acomparadas” em benefício deste. Ou seja, não era de escritores maduros como aqueles com quem tenho o prazer de estar hoje, era entre chamados “jovens criadores”. No entanto, tal como neste, trazia a oportunidade dum convívio de boas conversas e boas bebidas no lounge do hotel onde estávamos hospedados, e onde, sendo internacional, se podiam justamente discutir questões como “será que alguém vai perceber o que há de verdadeiramente literário na minha obra passando isto para uma língua franca, ou universal, como o inglês?” Segundo, e relacionado com isto, porque foi pensado também como resposta à tal citação de Robert Frost de que “a poesia é o que se perde na tradução”. Chama-se “Hotel Lounge”, e nele o lounge surgiu-me também como imagem de tradução.

Hotel Lounge

Entre vocês e eu na arriscada
via rápida dos artistas há
um baldio de línguas que se tresmalham
incandescentes queimam os ouvidos
internarmente eu lamento discordar
mas sendo a poesia o que perde
a tradução
haverá então coisas mais importantes
para guardar e eu não vejo
forma outra de sair deste ruído
senão um esforço extremo distendido
no transporte de chegarmos.

Eu lamento discordar
mas para mim são alvos desiguais
ter em vista o chegarmos a outrém
ou escudarmos a perda que se arrisca.

E mesmo assim no lounge do hotel
se enfim depositamos os punhais
no parapeito do balcão, rondamos,
estrangeiros num abrigo, as bebidas
e as pontas de vidas e cigarros,
será jamais possível emalhar nossas
línguas sem que o verso seja lenocínio?
e vão tomar-me por aquilo que eu sou ou
por aquilo que em mim miram ou
pode haver uma outra via de sair
a via em que mudamos ao falar
quando folgamos
o freio do orgulho de ser único?

Embaraça-me, de resto, discordar
dum tão distinto parecer,
e quero mesmo assim agradecer
as lenitivas vias de acedermos
ao encontro provisório ou comunhão
aturdida no terreno transitório
de um lounge no hotel.

Margarida Vale de Gato»

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges