A língua nómada

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A Ressurreição da Água
Autora: Maria Antonieta Preto
Editora: QuidNovi
N.º de páginas: 158
ISBN: 978-989-628-008-6
Ano de publicação: 2008

Com Chovem Cabelos na Fotografia (Temas e Debates, 2004), Maria Antonieta Preto (MAP) entrou de rompante na cena literária portuguesa, acumulando elogios quase unânimes da crítica. Apesar de uma ou outra fragilidade narrativa, as 18 histórias do volume de estreia – nas quais se fixava uma visão mitificada do Alentejo rural: decadente e triste, abandonado e violento, crepuscular e lírico – eram de facto, mais do que uma promessa, a expressão de uma escritora de corpo inteiro.
Ao regressar ao conto em A Ressurreição da Água, agora editado pela QuidNovi, MAP confirma o seu talento ficcional e a sua fé inabalável nos poderes da literatura: “Conto-te, querida neta, para que contes sempre. Quem faz o conto és tu a partir de mim, e outros a partir de ti. Porque aquilo que se conta sonha-nos e transforma-nos e dá-nos um mundo dentro de outro mundo. O mundo nunca é verdadeiro sem todos os mundos dentro dele.” É nestes outros mundos, bizarros e introspectivos, muitas vezes difíceis de penetrar (ou até de compreender), que a autora nos vai mergulhando, com uma prosa tão etérea que dá a sensação de estar sempre prestes a transformar-se em poesia.
Tal como no primeiro livro, voltamos a encontrar um Alentejo reconhecível (mas nunca nomeado), mulheres velhíssimas, padres incapazes de ter mão nas cerimónias litúrgicas, segredos guardados em arcas, cenas de violência doméstica e até palavras ditas no útero por quem ainda não nasceu. A diferença é que a escrita de MAP se tornou mais barroca e abstracta. Em vez de alcunhas de forte pendor regionalista, surgem nomes ostensivamente desligados da onomástica nacional: Carofénia, Pertólio, Vidânia, Sélmio, Noalma. E embora a matriz alentejana persista, sobretudo nas descrições de uma terra exangue, eternamente à espera da chuva redentora (como no belíssimo conto que dá título à obra), é como se MAP procurasse diluir os contornos geográficos da paisagem, tornando-a mais universal e como que fora do tempo, um lugar onde a morte paira, omnipresente, sobre todos os gestos. Um lugar onde há lenços bordados que contam vidas ancestrais, malignas penas de corvo, rosas salvíficas e cortejos de querubins; além de personagens que comem pedras e morrem muito, de tristeza, amor ou vergonha.
Apesar de alguns passos em falso (como O conto dos sabonetes, muito fraco e disparatado), MAP aprimorou um estilo e uma voz singulares, talvez fechados em demasia sobre si mesmos, mas ainda assim fascinantes. Mais do que as capacidades de efabulação, valem aqui a riqueza e a liberdade do trabalho sobre a linguagem. Como se diz em A Língua das Rosas: “A minha língua é nómada. A minha língua está em toda a parte do mundo. A minha língua está onde existe o requinte, a nobreza, a espontaneidade, a lucidez, o respeito. (…) A minha língua não gosta de cangas nem de ferros.”

Avaliação: 7/10

[Texto publicado no suplemento Actual do Expresso]

Avondo

«Ao abrir a porta, para ouvir a chuva, escapando-se por breves momentos do calor do serão, os seus olhos tingiram-se de sangue – da cor do sangue que os sanguinhos escorrem dos troncos nos anos felizes. E de Tâmara começaram a cair memórias do ano que passara…

Eulípio, seu marido, a chegar a meio dos setenta anos, arrumava a carqueja de acender o lume, sobrara um bocadinho, a um canto da chaminé, tomando devagar conta de um grosso tronco de azinho, teria avondo para o serão, levantou os olhos para Tâmara, sua mulher, em estado de espanto, mas um estado de espanto natural. Queria ouvir cair as memórias, como agora podia ouvir cair a chuva. Ele que tanto gostava de ouvir a chuva a bater nas telhas…

Betuma, solteirão, homem dessas idades de Eulípio, atracado a umas pedras antigas, encontradas numas escavações, feitas a poder de braços e a pedido da sua tia Ágara, mulher viúva, quase da idade da pedra, que sonhava com iludidos tesouros, arrastou a cadeira até ficar, por pouco, dentro do lume. Depois, juntou os pés em cima de alguma cinza e preparou o corpo em cómodos convenientes no assento da cadeira (mais alta do que a das mulheres) para ouvir aquilo que lhe ia por dentro da sua terra, que era o mesmo que aquilo que lhe ia por dentro de si, e sentou o olhar em Tâmara. Ele que tanto pisara a dor no ano que passara, ele que tanto se metera à vereda, que calcorreara terrenos a direito, terrenos a subir, a procurar em vão estevas, pampilhos, sargaços, margaças, carrasqueiros, medronheiros, lentiscos, adernos, tojos, alecrim, rosmaninho. De quando em vez, lá lhe apareceram roselas. Folhas de roselas, pouco feitas, a lembrar as de hortelã, em terreno seco, ainda serviram para alguma coisa…

Ágara, a velha mais velha daquele monte, não demoraria muito para chegar aos cento e oito anos de vida, findos os lamúrios – como em todos os serões que ainda se faziam no monte dos Esquecidos de Cima à roda do lume – de que queria morrer, de que já bastava o tempo, de que já cá não estava a fazer nada (conversa fiada, isso lhe atentavam todos nas manhas e na saúde), acartou os olhos para junto dos de Tâmara, carregada com tão vasta genica que era ela muito superior à que lhe escasseava agora para acartar os cântaros de água do poço até à sua casa; mas ai de alguém que lhe viesse tentar acalmar o peso e a estafa. Se calhar, era mais certo uns moitanitos de sal a desfazerem-se, mesmo nos anos enguiçados, do que alguém fazer-lhe essa desfeita…»

[in A Ressurreição da Água, de Maria Antonieta Preto, QuidNovi, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges