Prémio Fundação D. Inês de Castro 2012 para Maria do Rosário Pedreira

A distinção, composta «por um troféu desenhado pelo escultor João Cutileiro, uma estadia de oito dias na Quinta das Lágrimas, em Coimbra, onde viveu Inês de Castro, e por “um valor pecuniário simbólico”», foi atribuída ao livro Poesia Reunida, editado há poucos meses pela Quetzal. O júri, de que fizeram parte José Carlos Seabra (presidente), Mário Cláudio, Fernando Guimarães, Frederico Lourenço e Pedro Mexia, distinguiu ainda a obra de Almeida Faria com um Tributo de Consagração.

A música certa

Poesia Reunida
Autora: Maria do Rosário Pedreira
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 256
ISBN: 978-989-722-047-0
Ano de publicação: 2012

Os três primeiros livros de poesia de Maria do Rosário Pedreira – A Casa e o Cheiro dos Livros (1996); O Canto do Vento nos Ciprestes (2001); e Nenhum Nome Depois (2004) – encontravam-se há muito tempo esgotados, pelo que a sua reunião num só volume de Poesia Reunida, com chancela da Quetzal (um regresso a casa ao fim de 15 anos), permitirá a muitos leitores um grato reencontro e a outros uma importante descoberta.
Não tendo sofrido qualquer tipo de «revisão, corte ou acrescento», estes livros iniciais permitem comprovar a constância dos temas e a consistência do dizer poético de Maria do Rosário Pedreira. Com subtis variações ou deslocamentos, os poemas são o testemunho e a expressão de um amor que é vivido até ao limite, quase sempre em estado de perda. No prefácio, Pedro Mexia assinala que «esta poesia não teme o trágico nem o ridículo, que é o trágico visto de fora». Ou seja, entrega-se de peito aberto a um «ultra-romantismo» arriscado, sem nunca cair na facilidade do mero derrame sentimental (mesmo se dele escapa, por vezes, apenas in extremis). O segredo está na ênfase recatada desta voz que se maravilha e desilude, uma e outra vez, com a improbabilidade do encontro de duas vidas, dois tempos que se unem, para depois voltarem a bifurcar-se, deixando as feridas da ausência, da solidão e da espera.
O que se define nesta poesia é uma paisagem emocional carregada de sinais (os objectos, os cheiros, as memórias que deixamos na casa e nos corpos), uma linguagem capaz de captar e decifrar as mais ínfimas vibrações que os amantes despertam um no outro:

Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,

se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas –
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós

o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.

Aos livros conhecidos, Maria do Rosário Pedreira acrescenta um conjunto de inéditos (A Ideia do Fim), onde descobrimos, em vez da falta, uma espécie de plenitude. O amor continua a ser uma violência, mas uma violência tranquila. A «desordem» do tempo em que «andava de ferida em cicatriz» ficou para trás. A ambição pode resumir-se a «ser velhos juntos nos degraus da casa», e é a própria «ideia do fim» que traz consigo «a música certa para os meus versos».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 117 da revista Ler]

Quatro poemas de Maria do Rosário Pedreira

Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse
em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia
na saia a mordedura quente, a ferida, a marca
de todos os enganos, faria quase tudo

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,
e guardaria calados os fantasmas do medo, que são
os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele
e negar que o amava, porque amá-lo era um engano
ainda maior do que mentir-lhe. E, por amor, punha-se

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre
a caira da folha, a prolongar o desencontro.
E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;
arabescos, ainda que só se lembrasse de serpentes.

***

Lê , são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.

***

Vejo brilhar uma estrela que,
pelos vistos, já morreu – assim
a minha vida: luminosa e, porém,
assombrada pela escuridão. Sorte a

daqueles que só conhecem a morte
pelas mãos frias – toda a vida fiz luto
por corpos ainda sãos. A felicidade

faz-me, apesar de tudo, infeliz –
é sempre a ideia do fim que traz
a música certa para os meus versos.

***

As palavras começam a ficar velhas: têm
dores nas articulações e rangem, de vez
em quando, sem razão; reclamam óleos
e resinas, tempo e açúcares mais lentos.

Mas também eu estou velha demais para
oficinas, tão cansada de livros e papéis,
morta por viver outras coisas – por amor,

talvez espreitasse de novo nas mangas do
mundo e escrevesse uma fiada de búzios
no pulso da areia. Mas quantos dos teus
beijos perderia? Perdoem-me os que

ainda esperam por mim. Não sei se volto.

[in Poesia Reunida, Quetzal, 2012]

Maria do Rosário Pedreira sobre ‘Curso Intensivo de Jardinagem’, de Margarida Ferra

Aqui.

Horas Extraordinárias

Excelente notícia: Maria do Rosário Pedreira, uma das melhores e mais atentas leitoras deste país, começou ontem um blogue sobre as horas extraordinárias (ou seja, «as que passamos a ler», dentro ou fora do horário de trabalho). Eis uma página que tem tudo para se tornar uma referência na felizmente cada vez mais vasta blogosfera literária portuguesa.
Bem-vinda, Maria do Rosário.

Maria do Rosário Pedreira transfere-se para a LeYa

O «comunicado» chegou há pouco e é bastante explícito:

«Na sequência de uma proposta de trabalho (Leya-se: irrecusável) para continuar a sempre fascinante descoberta de autores portugueses (mas não só), informo que cessarei as minhas funções como Editora da QuidNovi no próximo dia 31 de Dezembro. Foi um projecto que acarinhei praticamente desde a raiz e no qual trabalhei com uma equipa excepcional de que lamento, obviamente, separar-me; mas, a partir de certa idade, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos e, como tal, senti que não podia deixar de aceitar mais este desafio.
(…) Mais informo que a Ana Maria Pereirinha, que quase todos já conhecem, assumirá neste momento a responsabilidade por todos os projectos em curso.»

À Maria do Rosário Pedreira, que tem feito um trabalho excepcional enquanto editor (no sentido anglo-saxónico do termo), cujos frutos estão à vista na quantidade de novos autores de ficção portugueses que descobriu e trabalhou (entre os quais três Prémios Saramago: José Luís Peixoto, valter hugo mãe e João Tordo), à incansável leitora quero daqui enviar um grande abraço e o desejo de que os seus novos projectos, como os anteriores, sejam coroados de êxito.
Quanto à QuidNovi, creio que fica, com a Ana Maria Pereirinha, em excelentes mãos.

PS – Mais informação nesta notícia do Público online.

Dois poemas de Maria do Rosário Pedreira

Não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior
para quem acreditou que o teu amor era para
a morte. Não fales – tenho também ciúmes

da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais.

***

Não sei por que razão o mundo se inquieta
quando estamos sozinhos. Talvez não saiba
que esgotámos os olhos no rigor dos espelhos
e que, por isso, não somos capazes de traçar
um caminho senão para o evitarmos. Na verdade,

se cai a noite, estiolam-se as aventuras entre nós –
o teu silêncio respira longamente, às vezes
paira sobre as dunas do meu corpo a conspirar,
como um tear de nuvens a fiar tempestades
ou um vento salgado a prometer naufrágios;
mas nunca converte o assomo numa história.

Não sei porque se aflige tanto o mundo
se ficamos sozinhos. Talvez ignore
que nós não somos mar de nenhuma praia,
que escolhemos poupar às falésias as cicatrizes
das ondas; e tudo para não aprendermos
o verdadeiro nome das feridas.

[in revista Relâmpago, n.º 22, 2008]

Os sete mandamentos de Maria do Rosário Pedreira

Mandamentos é exagero. Serão antes princípios, coordenadas, guidelines. E foram resumidos ao responder à terceira pergunta de uma entrevista por e-mail, feita pelos BlogTailors:

3. Que características considera essenciais a um editor?
Ter lido muito e continuar a gostar muito de ler (digo isto, porque ao fim de muitas más leituras, corremos o risco de perder o gosto); ter uma cultura geral que lhe permita avaliar os originais que recebe ou conhecer as pessoas certas para o ajudarem nessa tarefa; ter faro para perceber os livros que interessam ao público e os que, mesmo sendo bons, nunca sairão de uma prateleira da livraria; ser cordato nas suas relações com os autores (para os quais às vezes é precisa uma enorme paciência); ter sempre presente a existência do público leitor e não confundir os seus gostos pessoais com os desse público; ter a noção de que um livro tem sempre de ser algo que enriqueça, e nunca algo que estupidifique e manipule; ter a noção do valor do dinheiro (sobretudo quando se trabalha para outrem) e não o gastar superfluamente.

A conversa completa pode ser lida aqui.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges