“Uma sala onde não se entra”

Na sua espantosa singularidade, a obra de Maria Gabriela Llansol devia ser imune ao consenso, mesmo aquele que tende a formar-se quando um autor maior desaparece, rasurando automaticamente um passado tudo menos unânime.
Pela própria natureza da escrita — fragmentária, impossível de catalogar (é poesia? é ficção? é filosofia?), teoricamente densa e criadora de um complexo universo de referências simbólicas que a legitimam e justificam —, os livros desta autora são talvez os mais herméticos da literatura portuguesa contemporânea. Das duas, uma: ou o leitor se perde na vertigem de um pensamento que parece sempre exterior (porque inalcançável), ou começa de imediato a tirar notas para a sua futura tese de doutoramento.
Talvez por ser assim, tão desafiante como fechada sobre si mesma, Llansol personificou como poucos o paradigma da literatura dita difícil. Havia um culto llansoliano, capaz de unir pessoas que esperavam de cada parágrafo seu, de cada diálogo imaginário com Hölderlin, uma revelação epifânica; e havia os que a desprezavam por verem nela um exemplo extremo de literatura que sabe que é literatura, mas aqui reduzida a um penoso exercício de solipsismo sorumbático, cheio de misteriosos envios, mitologias privadas e formalismos (os travessões, os espaços em branco, os efeitos rítmicos da prosa).
Devo dizer que nunca soube como e onde me colocar diante dos textos de Llansol. Não fiquei de joelhos, esmagado, como alguns deles parecem exigir que o leitor fique. Mas também não os descartei pelo simples facto de me dificultarem a entrada na sua lógica, no seu sentido. Em última análise, o que sempre me fascinou em Llansol foi a sua linguagem, o modo como obrigava a língua portuguesa a superar-se, mais do que as deambulações metafísicas por uma realidade sempre demasiado próxima do sublime para o meu gosto.
A linguagem de Llansol, a sua incandescência, eis o que ainda hoje me perturba. Aí, e só aí, encontrei o “limite” de que fala Luís Quintais, a visão da sua escrita como “uma sala onde não se entra porque não se acha digno de nela entrar”.

Maria Gabriela Llansol (1931-2008)

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«PARTÍCULA 100 — Ela (Ética)

Ela não é a beleza absoluta, mas é um indício de certeza. Ela não é a beleza relativa. É apenas o espectáculo em cena, que a inteligência oferece à beleza.»

[in Os Cantores de Leitura, Assírio & Alvim, 2007; a fotografia é da Fátima Rolo Duarte (incluída neste portfolio) e foi publicada no blogue Espaço Llansol, da Associação de Estudos Llansolianos, com sede em Colares]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges