Jornadas Llansolianas

As quintas Jornadas Llansolianas de Sintra, organizadas pelo Espaço Llansol, reúnem este ano «seis tradutores de Llansol (de Espanha, França, Alemanha, Áustria e Estados Unidos), vários artistas que “traduziram” o texto de Llansol para outras linguagens (pintura, desenho, cinema, música) e escritores, professores e actores que comentarão e lerão as singulares versões de poetas franceses por Maria Gabriela Llansol». As Jornadas decorrerão nos dias 12 e 13 de Outubro, no Palácio Valenças. Programa e informações adicionais, aqui.

Llansol, Belo, Tavares

O Centro de Estudos Portugueses do Departamento de Linguística, Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal do Paraná, em Curitiba (Brasil), vai acolher, na próxima segunda-feira, uma sessão em torno das obras de três autores portugueses: Maria Gabriela Llansol, Ruy Belo e Gonçalo M. Tavares. Participam os professores e escritores Júlia Studart, Davi Pessoa e Manoel Ricardo de Lima.

A letra E

Este fim-de-semana, uma exposição de materiais do espólio que documenta a infância e o nascimento para a escrita de Maria Gabriela Llansol inaugurou a nova área aberta ao público do Espaço Llansol: chama-se Letra E.

Objectos llansolianos

Num post do Espaço Llansol.

Outubro, mês de Llansol no Brasil

«Acompanhando a saída dos três primeiros diários de Maria Gabriela Llansol em edição brasileira, inserida num projecto de edição da Obra que continuará nos próximos anos (na Editora Autêntica, de Belo Horizonte), o mês de Outubro será tempo de presença intensa e múltipla de Llansol em várias cidades e universidades do Brasil», informa o Espaço Llansol. Mais informações aqui.

Dois fragmentos de Maria Gabriela Llansol

«A luz de ler na luz», aqui.

Ecos do Dia Llansol no CCB

Podem ser vistos e lidos no blogue do Espaço Llansol, aqui, aqui, aqui e aqui.

‘Grande Maior’


Fotografias de Vina Santos

O Grande Maior era a «árvore favorita» de Maria Gabriela Llansol, um imponente plátano que permanece na Volta do Duche, em Sintra, depois de a escritora que nele via «imagens translúcidas de beleza» ter desaparecido. No final de Dezembro, a autarquia (em conjunto com o Espaço Llansol) descerrou uma placa «que assinala a presença desta árvore como figura em Parasceve», um livro publicado por Llansol na Relógio d’Água, em 2001. Na altura, Hélia Correia, Maria Etelvina Santos e Helena Vieira leram um texto dos cadernos inéditos da escritora, reproduzida parcialmente aqui.

A 21 de Abril de 1976, escrevia Maria Gabriela Llansol:

«Abandono este dia, mas estou nele. Levo-o comigo. Tudo são associações, entradas por outras portas para outras salas, na porta seguinte está marcado um detalhe da porta anterior, e assim sucessivamente sem fim.»

[in Uma Data em Cada Mão – Livro de Horas I, Assírio & Alvim, 2009]

A casa amada e a causa amante

Alexandra Lucas Coelho visitou, sala a sala, recanto a recanto, a última casa de Maria Gabriela Llansol. Eis alguns vislumbres do texto publicado hoje – dia em que a autora de O Senhor de Herbais faria 77 anos – no suplemento P2 (Público):

«A Estalagem da Raposa é uma daquelas casas de Sintra que de fora parecem estar bem assentes na vila, e por dentro afinal estão suspensas, com o horizonte a rodar nas janelas, castelo-palácio-mar-verde, e som só de pássaros no telhado da cozinha.
Aqui morreu, a 3 de Março, Maria Gabriela Llansol, autora de uma das mais radicais metamorfoses da escrita contemporânea, obra de espantar, incessante. (…)
O chão é de tábua corrida, as paredes foram recentemente pintadas de branco, a luz atravessa os quartos. Esta é a primeira sensação – silêncio e claridade.
(…) O visitante ainda não pousou o casaco e já está dentro dos livros de Llansol, um mundo em que figuras históricas e anónimas, criadores e criaturas, objectos, pedras, plantas, animais se cruzam, estão vivos, falam uns com os outros. O que todos têm em comum é Maria Gabriela. Ela toma-os e escreve com eles.
À direita, de onde a luz vem, fica o escritório. É a única divisão onde tudo se mantém como estava, a começar pela secretária com uma obsoleta Olivetti eléctrica tão usada que já tem papelinhos colados no “azert”, onde as letras desapareceram. Há bonecas com vestidos de princesa e loiça de brincar, os livros mais importantes muito lidos e, como em todas as divisões seguintes, plantas e centenas de objectos, a meio caminho entre um gabinete de curiosidades e uma loja de velharias.
(…) Por baixo da janela estão as bonecas, pousadas em cadeiras, com o seu tabuleiro de chá para seres minúsculos.
Etelvina Santos – É o cantinho dela e da Hélia [Correia]. Sentavam-se aqui as duas a conversar. As conversas que a Maria Gabriela tinha com cada um de nós eram muito diferentes.
João Barrento – Ela percebia a natureza da pessoa. Depois, aqui não há objecto que não tenha sido transformado. Alimentam livros inteiros. Vamos reconhecendo: Cá está o pássaro do Lalique! Olha a jarra azul!
Literalmente uma jarra azul, junto à secretária. Tem sido uma revelação contínua como tudo é material e não metáfora.
(…) Entretanto Etelvina pegou numa pequena gazela.
ES – “A erva verde e a patinha recolhida…” É mesmo isto!
JB – Da descrição do objecto nasce a escrita, que é a passagem para a dobra, para o outro lado. Até em Amigo e Amiga, ela vai pela rua e a partir daí desencadeia-se o processo da escrita. Não para contar uma história, nunca. Há pensamento sobre o que se vê e um trabalho de linguagem para fixar as iluminações que lhe vêm constantemente.
ES – Ela dizia que gostava de escrever um livro em bruto.
JB – Les bêtes, les brutes. Existe uma interferência do francês nela. E nos primeiros cadernos escrevia em francês.
(…) Da divisão seguinte vê-se o mar ao fundo, em dias claros. É uma sala com mesa de trabalho e vitrinas para os objectos mais preciosos. Mas antes era o quarto de Maria Gabriela. O chão estava cheio de plantas e pilhas de livros. Havia uma cama com a cabeceira encostada à parede que agora tem uma grande pintura de Ilda David’, da série Nuvens.
(…) JB – Neste caderno, ela chama a si própria uma camponesa da escrita.
ES – Depois, havia uma loja em Campolide que vendia roupas usadas e a Maria Gabriela ia lá e transfigurava-as. Não gostava de roupas novas.
E tudo pode ser matéria física para escrever.
JB – O mesmo objecto mudado de lugar gera nova escrita. Foi o que ela fez com os milhares de objectos que herdou.
(…) Os cadernos estão guardados na divisão seguinte. Era um pequeno quarto de arrumos que Barrento e Etelvina forraram com estantes. Dezenas de dossiers de arquivo com toda a correspondência e todas as fotografias, e dezenas de cadernos manuscritos.
JB – Há um primeiro núcleo numerado e datado com 76 cadernos. E depois há mais 73 cadernos de formato diverso, recuando até aos anos 60.
Só as fotografias cobrem mais de cem anos. Tudo o que era papel estava num caos. Durante três meses, João Barrento e Etelvina só limparam e arrumaram.
Agora, ele abre o seu portátil para mostrar o sistema de catalogação que permite ver cada caderno página a página.
JB – Vamos começar com uma edição digital dos cadernos 1 a 76, acompanhados de quatro índices: onomástico, lugares, figuras e temas. Isso permite a consulta na edição manuscrita. Depois vamos fazer uma transcrição parcial dos cadernos, por ordem cronológica, uma série que se chamará Livro de Horas e sairá na Assírio & Alvim. Mas, entretanto, os investigadores poderão trabalhar on-line os manuscritos. (…) A digitalização dos 76 cadernos numerados está quase completa. São 17 mil páginas, nesta primeira fase. Com os restantes cadernos irá para 25 mil.
Cada caderno demora dois a três dias a ser digitalizado. Alguns têm muitos papéis soltos dentro, que também são catalogados. Barrento e Etelvina passam aqui dois dias por semana, ela vinda de Cascais, ele vindo de Lisboa, e depois trabalham em casa. Etelvina, que se doutorou com uma tese sobre Llansol, deixou mesmo de dar aulas na Universidade para se dedicar a isto. Está à espera de saber se terá uma bolsa de pós-doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia. Quer desenvolver um projecto para estudar Fernando Pessoa na obra de Llansol e conjugá-lo com o espólio.
Barrento, que nos últimos tempos suspendeu as suas traduções de Musil e Benjamin por causa dos trabalhos llansolianos, chama a isto o espírito da “causa amante”.»

“Uma sala onde não se entra”

Na sua espantosa singularidade, a obra de Maria Gabriela Llansol devia ser imune ao consenso, mesmo aquele que tende a formar-se quando um autor maior desaparece, rasurando automaticamente um passado tudo menos unânime.
Pela própria natureza da escrita — fragmentária, impossível de catalogar (é poesia? é ficção? é filosofia?), teoricamente densa e criadora de um complexo universo de referências simbólicas que a legitimam e justificam —, os livros desta autora são talvez os mais herméticos da literatura portuguesa contemporânea. Das duas, uma: ou o leitor se perde na vertigem de um pensamento que parece sempre exterior (porque inalcançável), ou começa de imediato a tirar notas para a sua futura tese de doutoramento.
Talvez por ser assim, tão desafiante como fechada sobre si mesma, Llansol personificou como poucos o paradigma da literatura dita difícil. Havia um culto llansoliano, capaz de unir pessoas que esperavam de cada parágrafo seu, de cada diálogo imaginário com Hölderlin, uma revelação epifânica; e havia os que a desprezavam por verem nela um exemplo extremo de literatura que sabe que é literatura, mas aqui reduzida a um penoso exercício de solipsismo sorumbático, cheio de misteriosos envios, mitologias privadas e formalismos (os travessões, os espaços em branco, os efeitos rítmicos da prosa).
Devo dizer que nunca soube como e onde me colocar diante dos textos de Llansol. Não fiquei de joelhos, esmagado, como alguns deles parecem exigir que o leitor fique. Mas também não os descartei pelo simples facto de me dificultarem a entrada na sua lógica, no seu sentido. Em última análise, o que sempre me fascinou em Llansol foi a sua linguagem, o modo como obrigava a língua portuguesa a superar-se, mais do que as deambulações metafísicas por uma realidade sempre demasiado próxima do sublime para o meu gosto.
A linguagem de Llansol, a sua incandescência, eis o que ainda hoje me perturba. Aí, e só aí, encontrei o “limite” de que fala Luís Quintais, a visão da sua escrita como “uma sala onde não se entra porque não se acha digno de nela entrar”.

Maria Gabriela Llansol (1931-2008)

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«PARTÍCULA 100 — Ela (Ética)

Ela não é a beleza absoluta, mas é um indício de certeza. Ela não é a beleza relativa. É apenas o espectáculo em cena, que a inteligência oferece à beleza.»

[in Os Cantores de Leitura, Assírio & Alvim, 2007; a fotografia é da Fátima Rolo Duarte (incluída neste portfolio) e foi publicada no blogue Espaço Llansol, da Associação de Estudos Llansolianos, com sede em Colares]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges