Um outro Borges (trivialidades)

Segundo a sua polémica viúva, em entrevista à BBC Mundo, o autor de El Aleph gostava de sashimi (embora o seu prato favorito fosse “arroz com manteiga e queijo”). Já as suas preferências musicais não se ficavam pelos canónicos Brahms ou J. S. Bach. Segundo Kodama, também apreciava «coisas divertidas», como os Pink Floyd e os Rolling Stones. Espantado, o jornalista insiste:

¿Pink Floyd?
Sí, le encantaba. Tal es así que el himno para su cumpleaños no era el Happy Birthday sino The Wall.

¿Cómo lo descubrió?
No sé. La película The Wall es terrible y la vimos infinidad de veces. En un momento creo que sabía de memoria los diálogos. Le gustaba ese tipo de música porque decía que era una cosa de enorme fuerza, terrible pero vital.

¿Y los Rolling Stones?
Le encantaban, también decía que tenían una fuerza increíble. Un día estábamos en el hotel Palace de Madrid, esperando a que vinieran a buscarnos para cenar, y veo que viene Mick Jagger. Se arrodilla, le agarra la mano a Borges y le dice: “Maestro, yo lo admiro”. Borges, un poco asombrado, no lo veía, dice: “¿Y usted quién es, señor?”. Y él responde: “Soy Mick Jagger”. Borges dice: “Ah, uno de los Rolling Stones”. Mick Jagger casi se desmaya y pregunta: “¿Cómo maestro, usted me conoce?”. Y Borges dice: “Sí, gracias a María”. Yo le había contado a Borges que en una película que se llama “Performance” aparece una gran foto de Borges y creo que Mick Jagger leyendo a Borges.

Ignoro até que ponto estes gostos musicais de Borges correspondem à verdade (há quem seja mitómano com as vidas alheias), mas seria curioso perceber qual dos temas do álbum duplo The Wall cantarolava Borges em frente ao bolo de aniversário: Confortably Numb? One of My Turns (para chocar os amigos)? Hey You? Ou, previsivelmente, Another Brick in the Wall, com o refrão adaptado para «Hey, critics, leave Georgie alone»?

Pierre Assouline condenado por “difamar” María Kodama


Em Junho, o caso chegou aos tribunais e reacendeu-se na imprensa francesa. María Kodama, viúva de Jorge Luis Borges e gestora dos direitos da sua obra, processava por difamação o escritor e crítico literário Pierre Assouline. Em causa estava um artigo publicado no Nouvel Observateur, em Agosto de 2006, no qual Assouline acusava Kodama, enquanto executora testamentária, de se opor à reedição dos dois volumes da obra completa de Borges, na prestigiosa Bibliothèque de La Pléiade (Gallimard). Recorrendo a citações de um livro de Juan Gasparini, o antigo director da revista Lire dava a entender, entre outras coisas pouco simpáticas, que ela seria uma “viúva abusiva”.
O veredicto do julgamento, pronunciado quinta-feira, foi favorável a Kodama. Das quatro passagens em causa, três foram consideradas apenas “desagradáveis” mas a que sugeria “manipulações testamentárias” foi mesmo entendida como difamatória. Tanto Assouline como o director do Nouvel Obs, Claude Perdriel, terão que pagar mil euros de multa (embora esta pena esteja suspensa) e as despesas processuais.
Assouline tem 30 dias para apelar da decisão mas, tendo em conta o que escreveu ontem no seu blogue (o mais popular da blogosfera literária francesa), não o deverá fazer.
Curiosamente, no mesmo dia em que ficou a conhecer a má notícia, Assouline lançava o seu novo livro, Brèves de blog:

Esta é uma obra no mínimo singular, se não absolutamente inédita na sua estrutura. Assouline seleccionou cerca de 600 comentários, de entre os 150 mil afixados em quatro anos no seu blogue (La République des Livres, associado ao site do Le Monde), demonstrando que alguns deles são de elevadíssima qualidade intelectual e argumentativa. No prefácio, intitulado Le nouvel âge de la conversation (A nova era da comunicação), o autor chega a sugerir que as caixas de comentários dos blogues sobre livros são o equivalente nos nossos dias dos antigos salões literários.
Segundo Didier Jacob, um rival de Assouline (mas com ritmo hebdomadário), a tiragem inicial de Brèves de Blog foi de 16 mil exemplares.

María Kodama fala com Saramago sobre Borges

A Fundação José Saramago, com o apoio da Biblioteca Nacional e a colaboração da Editorial Teorema, vai organizar um encontro entre María Kodama, viúva de Jorge Luis Borges, e José Saramago, durante o qual conversarão sobre a figura e a obra do autor de O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam. O encontro acontecerá no Anfiteatro da Biblioteca Nacional, dia 20, sexta-feira, pelas 18h30, e contará ainda com a presença de dois dos tradutores das Obras Completas de Borges, editadas pela Teorema/Círculo de Leitores (Fernando Pinto do Amaral, poesia; e José Colaço Barreiros, prosa).

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges