Gonçalo M. Tavares candidato aos prémios Femina Étranger (com Maria Velho da Costa) e Médicis


Foto de Matej Povse

O júri do Prix Femina anunciou ontem à noite a sua première sélection (que é como quem diz longlist em francês). Entre os autores candidatos ao Femina Étranger estão Gonçalo M. Tavares (por Apprendre à prier à l’ère de la technique, Viviane Hamy) e Maria Velho da Costa (por Myra, La Différence). Já o Femina para romances franceses será disputado entre 13 escritores, entre os quais Michel Houellebecq (La Carte et le territoire, Flammarion), Virginie Despentes (Apocalypse Bébé, Grasset) e Antoine Volodine (Ecrivains, Seuil).
Gonçalo M. Tavares está ainda na lista de finalistas do Prix Médicis para romances estrangeiros, onde terá pela frente alguns pesos-pesados, como Thomas Pynchon, William Boyd ou Per Petterson.
Apprendre à prier à l’ère de la technique chegou ontem às livrarias francesas, juntamente com mais um volume da série ‘O Bairro': Monsieur Brecht (ambos traduzidos por Dominique Nédellec). A propósito do lançamento do último volume da tetralogia do Reino, vale a pena ler a entrevista que GMT deu ao site Chroniques de la Rentrée Littèraire.com.

Um jardim para Sophia

Evocação de Sophia
Autor: Alberto Vaz da Silva
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 102
ISBN: 978-972-37-1453-1
Ano de publicação: 2009

Das muitas formas possíveis de evocar Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), Alberto Vaz da Silva (AVS) escolheu uma das menos ortodoxas, ao acrescentar às previsíveis recordações pessoais uma abordagem astrológica e grafológica da homenageada. Discreto por natureza, o autor mantém uma distância de segurança face ao objecto do discurso, como que para respeitar a essência do mistério de Sophia. Amigo próximo da escritora, AVS nunza faz alarde dessa amizade, nem do facto de a ter acompanhado em alguns dos melhores e piores momentos da sua vida.
Se menciona, por exemplo, uma viagem que os dois fizeram à Sicília, em 1990, com a mulher de Alberto (Helena Vaz da Silva) e João Bénard da Costa, é para recuperar a felicidade desse mergulho nas raízes da nossa civilização e sublinhar a certeza de que «ela pertencia às colunas gregas que se erguem como hieróglifos secretos na luz mediterrânica». E se relembra os interrogatórios da PIDE, a que ambos foram sujeitos por terem subscrito o «Documento dos 101», é apenas para revelar a têmpera e coragem de quem nunca se resignou com o estado das coisas: «Esta Sophia dos tempos duros da resistência ao salazarismo, da luta pela liberdade e pela justiça, constitui o núcleo da minha memória.» Uma memória singular e à sua maneira poética, porque sempre amparada, na sua trajectória, pelas palavras de Sophia: versos escolhidos, excertos de cartas a Jorge de Sena, dedicatórias em livros, prosas da escritora sobre as casas onde viveu. No posfácio, José Tolentino Mendonça aponta em AVS uma «sabedoria de jardineiro» e esta Evocação pode realmente ser vista como um jardim, a que os canteiros dedicados ao perfil astrológico e à análise da caligrafia, actividades caras ao autor, em minha opinião nada acrescentam de relevante.
Essencial é o prefácio de Maria Velho da Costa, Sophia: Vozes, 17 páginas belíssimas com «cenas vivas» da intimidade das duas escritoras, que diziam os respectivos nomes em francês e se deixavam ficar à noite a falar no alpendre, depois da praia, brilhando «na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo». Dezassete páginas magníficas que de certa forma eclipsam, mesmo se involuntariamente, o resto do livro.

Avaliação: 5,5/10

[Texto publicado no número 89 da revista Ler]

Prémio Casino da Póvoa para ‘Myra’, de Maria Velho da Costa

O Prémio Literário Casino da Póvoa, no valor de 20 mil euros, distingue este ano a escritora Maria Velho da Costa pelo romance Myra (Assírio & Alvim). A decisão do júri, composto por Patrícia Reis, Carlos Vaz Marques, Dulce Maria Cardoso, Fernando J.B. Martinho e Vergílio Alberto Vieira, foi anunciada durante a Sessão Oficial de Abertura das Correntes d’Escritas, no Casino da Póvoa de Varzim, esta manhã.
Os restantes nove finalistas eram: A Eternidade e o Desejo, de Inês Pedrosa (Dom Quixote); A Mão Esquerda de Deus, de Pedro Almeida Vieira (Dom Quixote); A Sala Magenta, de Mário de Carvalho (Caminho); o apocalipse dos trabalhadores, de valter hugo mãe (QuidNovi); O Cónego, de A. M. Pires Cabral (Cotovia); O Mundo, de Juan José Millás (Planeta); O verão selvagem dos teus olhos, de Ana Teresa Pereira (Relógio d’Água); Rakushisha, de Adriana Lisboa (Quetzal) e Três Lindas Cubanas, de Gonzalo Celorio (Quetzal).
Em 2009, ganhou Gastão Cruz, com A Moeda do Tempo (Assírio & Alvim).

Sophia e Maria

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Fotogramas do filme ‘Sophia de Mello Breyner Andresen’, de João César Monteiro (1969)

«Eu saía da água junto aos joelhos dela, a sentir-me translúcida, levíssima como o cefalópode com muitos braços, uma galáxia de braços. Não era para ela, era com ela. Poucas coisas são tão alegres como o egoísmo de duas crianças síntonas no seu brinquedo, que era o mar.
– A partir de certa idade, Maria, o mar rejeita-nos.
– Ora, Sophia, é só a água na cara que a enerva, isso há-de passar.
Não era caridade, era compaixão. Compaixão com ela do que um dia havia de me esperar. O mar hostil.
Íamos já a caminho de casa, do delicioso spaghetti frio que ela temperava com ervas e azeite virgem, alcaparras ou anchovas, do peixe frio marinado em calda, como se come no mar, comido no alpendre, debaixo da renda de heras. E da noite, que já avermelhava no horizonte marinho do almoço tardio.
Da noite, em que vestidas de lavado, cabelo desamarrado, o dela uma sedinha solta, o meu afrodionisíaco, como ela o dizia, roupas longas, soltas e largas, falávamos de tudo e de nada, até às mais altas horas, que lhe convinham, a ela e a mim. Bebíamos vinho branco gelado, não havia retsina, pena para ela, bom para mim, que não gosto de quase nada do que vem da Grécia, excepto a comida e as azeitonas talhadas com alho e tomilho, o que a chocava, mas não tanto quanto seria de esperar.
– Ruínas, por mais belas, amarguram-me, Sophia.
Falávamos na noite, no alpendre quase morno, sem tom nem som. Nenhuma das duas era desesperadamente musical. Não havia música nem nos fazia preciso. Falávamos mais de todos do que de tudo; do tudo eram a arte e a poesia – nem política, nem mundos a mudar. Não era a prudência de pertencermos a facções políticas diferentes. Era a força de indiferenciação da noite, quando as mulheres falam. Falávamos de amores, de filhos, de amigos e desamigados. Desse mundo ginecêutico e caótico, onde tínhamos ambas de manter aparências. Brilhávamos na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo, mortais e imortais, passe a solenidade.
Porque não éramos solenes.»

[in Sophia: Vozes, de Maria Velho da Costa, prefácio ao livro Evocação de Sophia, de Alberto Vaz da Silva, Assírio & Alvim, 2009]

Dor e dano

Myra
Autora: Maria Velho da Costa
Editora: Assírio & Alvim
N.º de páginas: 221
ISBN: 978-972-37-1369-5
Ano de publicação: 2008

Na cena de abertura deste romance, Myra encontra Rambo, um cão de combate ferido, numa praia atravessada por «carris desconjuntados», «chorões apodrecidos» e marcas das «marés vivas sujas de crude». O narrador assinala: «O céu estava baixo e muito escuro.» É uma caracterização meteorológica, claro, mas também metafórica. Durante o resto da narrativa – embora aqui e ali se assista a uma aberta – o horizonte das personagens permanecerá igual ao céu da primeira página: opressivo, de um violento negrume, sempre à beira da tempestade devastadora.
Myra é uma rapariga russa que deambula pelas paisagens tristes do Portugal contemporâneo, em fuga rumo ao Sul, mas com esperanças de voltar ao Leste de onde emigrou. Durante a longa jornada iniciática, sempre com o Pitbull Terrier por perto, ela revela um extraordinário instinto de sobrevivência, feito de «manha e força». Conforme as circunstâncias, ora cita Camões, ora fala como a lerdinha que não é. E assim vai avançando por entre «criaturas íngremes», através dos vários círculos do Mal, num mundo cheio de «dor e dano».
A primeira parte do romance é composta por uma sucessão de encontros on the road: com um camionista alemão, amante de uma pintora desbocada que faz lembrar Paula Rego; com um padre, heterodoxo ao ponto de dizer que «a castidade é porca» (enquanto transporta na sua carrinha uma mulher a morrer de SIDA); com um marinheiro cego e maneta chamado Alonso (como o herói do Quixote); entre outras personagens menores. Isto até descobrir Orlando/Rolando, um «rapaz pardo» que lhe aparece todo vestido de branco junto a um Land Rover também branco, «parado como um dócil corcel expectante». A partir daqui, a história como que estaca na esfera deste cabo-verdiano, a quem Myra se entrega num idílio amoroso, cortado cerce por uma cena de carjacking que precipita de vez a acção no mais sórdido sub-mundo do crime.
De certa forma, Maria Velho da Costa escolheu ficar com um pé no romance de aventuras picarescas do séc. XVIII e outro na exploração pós-moderna das possibilidades da linguagem. O seu principal mérito está justamente na forma como gere esta dicotomia, por um lado explorando e sabotando as regras romanescas clássicas, por outro abrindo o seu livro a vários idiomas (o inglês, o francês, o russo, o alemão, o italiano, o crioulo; além do português em muitos registos: do mais elevado ao calão e aos regionalismos), bem como à simples celebração da literatura, escondida em diversos envios e homenagens a outros escritores, como Herberto Helder, Manuel Gusmão, Jorge de Sena, Adília Lopes ou Helder Macedo.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 76 da revista Ler]

MVC

Myra, o regresso à ficção de Maria Velho da Costa (que pré-publicámos aqui), só surgirá nos escaparates lá mais para o fim do mês. Enquanto esperamos, a Assírio & Alvim deixou-nos espreitar a capa. Vai ser assim:

Tal como no livro de Herberto, a ilustração é da pintora Ilda David’.

Pré-publicação: ‘Myra’

O novo romance de Maria Velho da Costa, Myra (Assírio & Alvim), sucessor de Irene ou o Contrato Social (2000), só vai para as livrarias dentro de cerca de um mês. Data prevista: 23 de Outubro. Enquanto esperam, os muitos admiradores da ficcionista podem levantar desde já uma pontinha do véu. Eis, na íntegra, o segundo capítulo do livro:

«Era noite cerrada. O camionista Kleber segue pela faixa da direita. As traves de madeira estralejam por detrás da cabine. Ora se vê, ora não se vê bem o perfil hirsuto, ruivo, de Kleber. A miúda vai sentada ao seu lado com o cinto de segurança por cima da manta de que só tira uma das mãos para afagar a cabeçorra do cão aos pés. E para ter comido o hamburger que Kleber lhes comprou na estação de serviço.
Os antigos egípcios acreditavam que era um deus-cão, Anubis, que os conduzia na barca dos mortos, diz Kleber.
Eu queria que este se chamasse Tzar, mas eles não deixaram. Que era falta de respeito. Ficou César.
Vem a dar ao mesmo, Sónia. Um nome é um destino. E depois?
Não é não, senão a pessoa mudava de destino cada vez que mudasse de nome. E depois, já lhe contei, só que comecei pelo fim, quando o Senhor Kleber me apanhou na berma, toda encharcada, com o César neste estado.
Myra continuou a bela narrativa. Kleber não parecia espantado, nem incrédulo. Como se tudo na vida fosse possível.
Depois eles fizeram-me vir de lá tinha eu seis anos para eu não ficar ladra como os meus irmãos. A minha avó chorou muito. Eu vim de carrinha em carrinha. Ninguém tinha papéis, mas os que me iam trazendo tinham sempre dinheiro e onde ficar. Quando cheguei aos meus pais não os conheci. Eles também choraram muito mas eu chorava mais com saudades de casa da avó, que era muito pobre mas tinha um quintal e às vezes lá conseguia que eles lhe dessem dinheiro para comprar um ganso que ela engordava com sobras de pão seco e couves do quintal. Isto no Verão porque no Inverno passávamos muito frio a pedir na neve à porta de S. Basílio e das entradas quentes do Metro, até nos enxotarem por causa dos turistas. Escumalha russa, diziam, escumalha russa.
Santa mãe Rússia, disse o Sr. Kleber, abrandando para deixar passar uma carrinha com um carregamento de fardos de palha. Para lá cortiça, para cá palha e betoneiras. Santa mãe Mundo. O cão vai vivo?
Vai sim, agora que comeu e bebeu água da chuva. E vai quente.
E Myra afagou o que não seria mais Rambo.
Vais bem, César?
E o cão agitou a cauda.
Bom, bom, também sabia mentir.
E depois? disse o Sr. Kleber. Como foi cá? Desamarra-lhe a corrente. Há para aí um cinto, o bicho no estado em que está não precisa de levar tanto ferro no cachaço.
Tantos cuidados, pensou Myra. Se eu tiver que fugir deste, como é que faço?
E continuou com a sua narrativa mirífica pela noite e estrada dentro. Clareava. Havia plainos e sobreiros descarnados e casas caiadas, com os pés, as portas e as janelas em azulão. Casas caiadas. Já não estavam na auto-estrada mas num ramal bordejado de mimosas em flor. Pode-se ser morto e esquartejado em qualquer lugar, mas Myra, ladina, não tinha muito por onde escolher. Nem que ele lhe pedisse uma mamada e isso ela tinha aprendido a fazer.
Falta muito? perguntou Myra, no desvio do descampado deserto, agreste de árvores cinza na madrugada, rebanhos de ovelhas e bois com a cabeça descida à terra ocre, de fome, de sono.
Falta o que falta da tua história. E o Sr. Kleber sorriu.
Não tenhas medo, miúda. Em todas as histórias há sempre uma ponta do paraíso, um véu de clemência que estende uma ponta, fugaz que seja.
O Sr. Kleber é professor?
Não, mas fui bem ensinado. Não como crianças e muito menos carne de cão. Ora diz lá, que até chegarmos há tempo.
O que é uma herdade, senhor Kleber?
É aquilo que se herda, mas também se compra e vende.
É sua, a casa?
São várias casas, como cogumelos aos pés de um castanho, que é a patroa, na Casa Grande. É para lá que vais. E depois? Há quanto tempo tens o cão, Sónia?
Há cinco anos, mentiu Myra mais.»

‘Myra’

Em declarações à Lusa, Maria Velho da Costa explica que o seu novo romance parte da relação de amizade que uma adolescente russa imigrada em Portugal estabelece com um cão de raça perigosa.
Sobre o facto de publicar na Assírio & Alvim, esclarece que não tem qualquer divergência com o grupo LeYa (de que faz parte a sua antiga editora: Dom Quixote). A mudança foi uma questão de “oportunidade” e deve-se também à admiração que sente pela pintora Ilda David’, responsável pela ilustração do livro.
Maria Velho da Costa afirma ainda que o livro sairá em Outubro, embora a Assírio o tenha agendado para o final de Setembro.

O acontecimento literário do ano

Não é um, são dois. Durante o mês de Setembro, a Assírio & Alvim vai publicar um livro de Herberto Helder com material poético inédito e Myra, o novo romance de Maria Velho da Costa (que assim se transfere para a editora de Manuel Rosa, deixando para trás a Dom Quixote e a Caminho; ou seja, a LeYa). O título de Herberto não podia ser mais herbertiano: A Faca não Corta o Fogo – súmula & inédita.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges