Crescer no Irão

Persépolis – A História de uma Infância e a História de um Regresso
Autora: Marjane Satrapi
Título original: Persepolis
Tradução: Duarte Sousa Tavares
Editora: Contraponto
N.º de páginas: 351
ISBN: 978-989-666-112-0
Ano de publicação: 2012

Apesar do tremendo sucesso internacional de Persépolis (2003), a novela gráfica da iraniana Marjane Satrapi, e do impacto talvez ainda maior do filme de animação que a própria co-realizou em 2007, com Vincent Paronnaud, este livro de culto ainda não fora até agora disponibilizado ao público português em versão integral. Originalmente dividido em quatro volumes, Persépolis tem sido editado internacionalmente em dois: um primeiro intitulado A História de uma Infância, seguido d’A História de um Regresso. A editora Polvo, especializada em BD, chegou a publicar A História de uma Infância há nove anos, mas o segundo tomo nunca viu a luz, para desalento dos muitos admiradores portugueses de Satrapi. Agora, a Contraponto resolveu de uma penada esta lacuna, ao juntar o conjunto da obra num só volume.
Na verdade, esta opção é a melhor para o leitor, na medida em que permite uma percepção imediata e continuada do espantoso percurso de uma rapariga iraniana, da infância sob o espectro do fanatismo religioso imposto pela revolução islâmica até à maturidade precoce, aos vinte e poucos anos, depois de uma adolescência atribuladíssima, um casamento desfeito e uma série de outras experiências pessoais, narradas num tom que vai oscilando entre o mais puro sarcasmo e a melancolia de quem aprende à sua própria custa como podem ser dolorosas as arestas da vida quotidiana.
A narrativa de Persépolis começa em 1980, o ano em que Marjane, então a terminar a escola primária, se viu forçada pela primeira vez a usar o véu. A família Satrapi, liberal, opõe-se às mudanças e manifesta-se na rua contra a nova ordem religiosa, mas o processo de condicionamento das liberdades individuais já está em marcha. Esses primeiros anos da chamada Revolução Islâmica são vistos sempre pelo olhar cândido da criança que Marjane era, uma menina que sonhava vir a ser profeta quando crescesse e que misturava a fé com o materialismo dialéctico. Aos poucos, porém, ela vai descobrindo a verdade crua sobre a repressão política e os crimes de Estado, uma longa história que afecta a família há várias gerações. O avô materno, por exemplo, estivera preso por afrontar o poder do Xá. Já o heróico tio Anoosh, irmão do pai, detido por espionagem, pede a dada altura para receber a sobrinha na derradeira visita prisional, oferecendo-lhe um cisne esculpido em pão, antes de ser executado.

Na sua hiper-consciência política e lucidez crítica, a pequena Marjane faz por vezes lembrar a Mafalda, de Quino, que mais ou menos no mesmo período histórico (os anos 70 do século passado) também comentava o estado do mundo com desarmante autoridade moral. À medida que Marjane cresce e que o fundamentalismo vai alterando os hábitos das pessoas, tendo o conflito militar com o Iraque como pano de fundo, a sensação de sufoco aumenta. A protagonista não deixa por isso de experimentar as crises e dilemas típicos da adolescência. Na escola, desconstrói os rituais nacionalistas e o culto dos mártires. Nas festas, exibe uma camisola cheia de buracos ao melhor estilo punk. Falta às aulas para ver rapazes nos cafés. Pede aos pais para lhe trazerem, do estrangeiro, posters da Kim Wilde e dos Iron Maiden. E consegue inventar a alegria por entre os bombardeamentos, o controlo dos guardiães da Revolução e as falhas de electricidade.

Aos 14 anos, a sua natureza rebelde empurra-a sistematicamente para situações de confronto com as autoridades públicas. Preocupados com o feitio da filha, incapaz de conciliar a educação recebida em casa com a obediência forçada a normas sociais absurdas, os pais de Marjane decidem enviá-la para a Europa. É com a chegada à Áustria que se inicia a segunda parte do livro. Sozinha numa terra estranha, a adolescente iraniana sofre todo o tipo de choques culturais. Os obstáculos sucedem-se: linguísticos, sociais, amorosos. Mas ela acaba por adaptar-se, apura o sentido da sobrevivência em território hostil, cria um círculo de amigos, desilude-se, entedia-se, revolta-se, entusiasma-se, assiste entre espantada e assustada às metamorfoses do seu corpo, sofre as primeiras desilusões sentimentais, segue enfim as etapas, boas e más, que levam à formação do carácter. Embora difícil, marcado por momentos de grande tristeza e solidão, culminando num episódio de indigência que podia ter sido fatal, o período europeu corresponde à porta para a idade adulta e, paradoxalmente, à necessidade de um regresso às origens.
De volta a Teerão, Marjane sente muita dificuldade em encontrar um lugar numa sociedade em que não se reconhece. Fica deprimida, irritada com a futilidade das amigas, zangada com o rumo dos seus dias. Até que conhece Reza, um rapaz com quem acaba por casar, embora ao fim de um mês já durmam em quartos separados. As últimas páginas do livro acompanham o fim da relação e o divórcio, terminando com a segunda saída de Marjane, desta vez para França, em 1994, sete anos antes da edição do primeiro volume de Persépolis.
Além da expressividade das suas pranchas a preto-e-branco, o que torna irresistível a arte narrativa de Satrapi é a forma como a vida da autora nos surge de forma realista e verosímil, poucas vezes grandiosa, quase sempre banal, conseguindo-se através dela vislumbrar os grandes movimentos e contradições da sociedade iraniana, muito mais complexa do que sugerem quase todos os discursos ocidentais sobre a antiga Pérsia.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges