Mais uma declaração-mesmo-a-pedir-para-gerar-uma-polémica de Martin Amis

«People ask me if I ever thought of writing a children’s book. I say, ‘If I had a serious brain injury I might well write a children’s book’, but otherwise the idea of being conscious of who you’re directing the story to is anathema to me, because, in my view, fiction is freedom and any restraints on that are intolerable.»

E a polémica não se fez esperar.

Martin Amis: “A vida é muito resistente à arte”

Em tempos, ele foi o enfant terrible da literatura inglesa – o filho brilhante de um grande escritor (Sir Kingsley Amis) que insistiu em suplantar o pai. Agora, aos 60 anos, Martin Amis de enfant já não tem nada, excepto talvez o gozo de virar tudo do avesso com estrondo e estilo. Ao telefone, a partir de Londres, o escritor conversou sobre o seu último romance, A Viúva Grávida, publicado em Fevereiro no Reino Unido e cuja tradução portuguesa (pela Quetzal) acabara de receber.

O seu novo romance, A Viúva Grávida, foi arrancado a ferros: mais de cinco anos de trabalho e sucessivos adiamentos. A que se deveram as dificuldades para o concluir?
Bom, a verdade é que tentei escrever um longo romance autobiográfico, projecto que se revelou um desastre. Um desastre absoluto. A certa altura, apercebi-me de que o livro estava morto. Era uma coisa interminável e não havia maneira de lhe dar um fim. Quando tive consciência do impasse, fiquei de rastos durante umas semanas, mas depois compreendi que aquilo não era um romance, mas dois. Extraí a parte italiana, a única de que gostava mesmo, por não ser excessivamente autobiográfica. Retrabalhei então aquelas cerca de cem páginas, desligando-as da minha vida. E voltei a sentir a liberdade da ficção pura. A partir daí, foi tudo muito rápido. Escrevi cerca de 300 páginas em 18 meses.

Tenciona aproveitar o restante material?
Sim. Neste momento estou a concluir o próximo livro, State of England, uma novela. Mas depois avançarei para o romance que dará forma a esse material. Um livro provavelmente longo, autobiográfico, mas sobretudo sobre outros escritores, mais do que sobre mim.

No relato da revolução sexual que nos dá em A Viúva Grávida, as raparigas começam a comportar-se como rapazes e parecem conquistar uma certa igualdade. Mas três décadas depois, a enteada de Keith, o protagonista, reconhece que no fim de contas os rapazes voltaram a ganhar, como sempre.
É verdade. Infelizmente, a revolução sexual ainda não acabou porque milénios de dominação masculina não se alteram com um simples estalar de dedos. Apesar de alguns progressos, a ascensão das mulheres vai demorar pelo menos mais um século. E parte do problema deve-se ao facto de as mulheres não terem assegurado o essencial: uma paridade absoluta em casa.

A teoria dos cinquenta-cinquenta.
Exacto. A teoria dos cinquenta-cinquenta. Todas as outras liberdades teriam que emanar dessa. Mas elas assumiram uma atitude napoleónica, no sentido em que se limitaram a acumular poder sem assegurarem as bases desse poder. Ou seja, acabaram por ter de fazer tudo: o trabalho, as crianças, as tarefas domésticas. Tudo. É uma coisa muito difícil de sustentar.

Qual é a saída?
A saída é fazerem uma revolução permanente até atingirem aquilo a que aspiram. Mas o esquema dos cinquenta-cinquenta em casa será uma miragem enquanto os empregos das mulheres não forem tão bem pagos como os dos homens.

Este livro é também sobre a geração que viveu uma «era dourada» de desenvolvimento económico e paz. Uma geração poupada ao horror da guerra, mas com a ameaça nuclear sempre a pairar sobre a cabeça.
Foi uma espécie de concurso de pesadelos. Nós só combatíamos a nossa guerra quando estávamos a dormir.

E não podiam ser corajosos, não podiam ser heróis.
Não, não podíamos ser nada disso. Eu considero-me um veterano da Guerra Fria. Eu e todos os meus contemporâneos. Foi uma época muito estranha, em que sabíamos que o mundo inteiro desapareceria se algo corresse mal.

A descrição do verão de 1970, num castelo da Campânia, ocupa quase 80% do livro. Isto não cria um certo desequílibrio na estrutura narrativa do romance?
Bem, o que eu tentei foi quebrar essa sequência com saltos regulares para o presente, ou para o passado muito recente. Há cinco intervalos em que assistimos ao futuro do protagonista, de forma a se perceber que o que aconteceu naquele verão moldou de alguma forma a sua vida e a vida de outros. Se a sequência italiana não fosse interrompida, tornar-se-ia indigesta. E creio que este esquema de tempo duplo dá uma certa perspectiva e modulação à história. A sequência italiana é quase como uma experiência controlada, num mundo à parte. Mas depois o livro também desce àquilo que é apenas o dia-a-dia, a vida, sem artifícios. A questão é que a vida é muito resistente à arte. Por isso, temos que tomar liberdades enormes para lhe darmos uma forma literária satisfatória.

O protagonista do livro partilha consigo vários traços: a idade, a baixa estatura, o trabalho como crítico literário no início da carreira. Mas o facto de Keith ser órfão de pai e mãe boicota quaisquer tentativas de ver nele um simples alter ego.
Sim. É verdade que ele tem duas ou três coisas em comum comigo. Mas o facto de ser órfão, de ambos os pais terem morrido no dia em que nasceu, fazem dele uma página em branco, uma tabula rasa. Quanto a mim, tenho antecedentes muito bem definidos: o pai famoso no mundo das letras, uma mãe muito individualista, um irmão e uma irmã. O desenvolvimento do Keith é peculiar e as suas relações com as mulheres sofrem muito por causa da experiência vivida no castelo italiano. O meu passado não tem nada a ver com isto. E embora, tal como ele, eu tenha trabalhado numa agência de publicidade durante uns meses, antes de ir para o Times Literary Supplement, nunca me passou pela cabeça ficar por ali. Eu sempre soube que ia ser um escritor, uma figura do mundo literário, enquanto Keith fica preso noutra corrente de vida. Curiosamente, a personagem mais autobiográfica deste livro não é Keith, mas a sua irmã, Violet, que é uma versão muito aproximada da minha irmã, Sally. Ela morreu há cerca de uma década, aos 46 anos. E foi, de certa forma, uma vítima da revolução sexual.

Ao longo do livro, Violet vai ganhando importância, até se tornar a figura central do drama de Keith.
Ela já está no pensamento dele durante o verão em Itália, porque é uma espécie de exemplo negativo daquelas raparigas que pretendiam comportar-se mais à rapaz do que os próprios rapazes. Quando Keith regressa a Inglaterra e a sua vida continua, o drama de Violet emerge e depois de morrer é a sua sombra que permanece. Ela incapacita-o durante vários meses, precisamente o que aconteceu comigo. Dois ou três anos depois da morte da minha irmã, tive uma espécie de colapso. Nada de muito grave. Apenas um estado de terrível exaustão. E penso, como Keith diz, que isso se deveu à violência do instinto protector para com ela. Não podes fugir a estes sentimentos. Eles moldam-te. E eu tive de perceber isso em relação a mim mesmo.

Keith, o protagonista, tem uma manifesta dificuldade em lidar com o processo de envelhecimento.
Conhece alguém que não tenha?

Eu, por exemplo, não tenho. Mas talvez seja demasiado novo (38 anos).
Nesse caso, prepare-se. Vai ter uma surpresa muito desagradável. Acredite.

Fale-me dessa surpresa que me espera.
Só posso falar do que se passou comigo. Nunca supus que fosse tão humilhante. E também tão cómico, num certo sentido. É uma daquelas experiências que você, aos 38 anos, não pode compreender completamente. Experimente reler o livro quando tiver 60. Algumas das coisas só se tornarão nítidas quando as experimentar por si mesmo. Esta é uma daquelas experiências que se tornam indescritíveis – ou melhor, incomunicáveis – a quem não seja da mesma idade.

Além de muitas referências a romances clássicos da literatura inglesa do século XIX, há um autor quase omnipresente em A Viúva Grávida. É Philip Larkin, uma espécie de epítome literário da frustração sexual.
Eu estou neste momento a preparar os seus Poemas Escolhidos, para a Faber & Faber. E ele é um dos escritores sobre os quais escreverei no tal romance autobiográfico em curso. Eu conhecia bem o seu universo. Mas só retrospectivamente, depois de ler as suas cartas, é que me apercebi do caminho que ele empreendeu. Para colocar a coisa em termos heróicos, ele escolheu a escassez sexual para poder escrever os poemas que melhor reflectem essa condição.

Uma espécie de martírio sexual para fins poéticos.
Sem dúvida. Mas tudo tem origem, parece-me, numa forma de preguiça erótica, uma falta de energia. A minha mãe, que o apreciava muitíssimo, diz que ele tinha medo das mulheres. Já era careca aos 25 anos, gaguejava, e as mulheres assustavam-no. Acho que da parte dele houve uma grande falta de coragem. Sabe, naquele tempo os poetas tinham grande saída com as mulheres.

Ao contrário do que acontece hoje.
Pois, hoje os poetas têm que se esforçar mais. Mas na altura eram considerados maravilhosamente glamorosos. Foi uma boa altura para ser poeta. Eu tinha vários amigos poetas e eles tinham montes de namoradas. E muitos deles não eram mais atraentes do que o Larkin. Alguns feiosos tinham montes de namoradas. As mulheres valorizam os poetas porque eles representam a sensibilidade masculina no seu modo mais comovente, romântico, próximo e humano. Se o Larkin se tivesse dado ao trabalho, teria seduzido mulheres maravilhosas, que se sentiriam muito honradas por serem companheiras de Larkin. Mas ele só conseguiu ter quatro ou cinco mulheres com talento para o tornar miserável.

Ele poderia ter sido mais feliz, mas não teria escrito o que escreveu.
Exacto. Essa é, repito, a leitura heróica da sua vida. Mas ainda me horroriza aquilo a que se submeteu.

As suas intervenções públicas tendem a provocar controvérsia. Isso faz parte da sua pose ou…
[Interrompendo] Não, não, não. Nada disso. O problema é que a imprensa britânica presta uma atenção ridícula a tudo o que eu diga ou faça.

Quando sugeriu a instalação de «cabinas da morte» nas esquinas, com «um martini e uma medalha» à espera de quem se oferecesse para acabar com a própria vida, sabia que a polémica vinha a caminho.
Claro, mas essa questão também é abordada no meu romance. Eu não estava a referir-me às pessoas idosas em geral. Estava a falar de mim, da minha geração. Os babyboomers.

Os babyboomers que se transformaram hoje no «tsunami prateado»?
Sim. Nós estamos a inundar as sociedades no mundo inteiro. É um facto. E a pressão social dos mais velhos sobre os mais novos pode vir a desencadear uma espécie de guerra civil. Eu penso efectivamente que a eutanásia devia estar acessível, e acessível de uma forma fácil, mas com todas as salvaguardas legais. Outro romancista, Terry Pratchet, disse mais ou menos o mesmo, mas em termos mais sóbrios, e ninguém se escandalizou. As polémicas comigo têm sempre muito mais impacto.

Outra das polémicas recentes nasceu do seu ataque a J.M. Coetzee, o escritor sul-africano que acusou de não ter talento. Sabendo-se que ele já ganhou o Nobel e dois prémios Booker, enquanto o Martin não ganhou uma coisa nem outra, houve logo quem visse inveja nas suas palavras.
Não, não. Inveja não. Eu não quero escrever os romances dele. Mas já retirei o que disse. E pedi desculpa. Não volto atrás, porque acho que o que disse é verdade. Mas os escritores não se devem atacar uns aos outros. Aliás, não ataquei nenhum outro escritor.

E continua a achar que uma das diferenças entre os bons escritores e os maus é que os primeiros têm graça.
Claro. Acho que isso é mesmo verdade. Sempre foi assim. Os bons escritores são engraçados porque a vida é engraçada. Sou contra a ideia, típica do século XX, de que os nossos tempos são tão incrivelmente sombrios que o escritor tem que se purgar do princípio do prazer. Isso está pura e simplesmente errado.

Como escritor, se um dia descobrir que perdeu a graça, o que é que fará?
Espero ter a coragem de abandonar a escrita. Há um pequeno segredo da literatura moderna que é este: todos os escritores acabam, mais tarde ou mais cedo, por perder algumas das suas qualidades. Antigamente, ninguém dava por nada porque os escritores morriam cedo. Shakespeare morreu aos 54 anos, Jane Austen aos 41, etc. Mas os progressos da medicina fizeram com que os escritores morram agora duas vezes: morrem quando morrem e, antes disso, morrem quando morre o seu talento. Já falei disto com os meus amigos escritores e é uma coisa que nos preocupa. De momento, sinto-me bastante bem. Nos últimos anos não me tem faltado energia. Mas os escritores mais velhos tendem a aperceber-se de que mesmo os nossos clássicos preferidos nunca são suficientemente breves. Tchekov disse-o. Saul Bellow disse-o. Quando envelhecemos, pensamos: vá lá, não vamos pôr aqui todas essas coisas que estão a mais, vamos só dizer o que temos a dizer. Imagino que também eu seguirei esse caminho. Acredito que o meu futuro estará muito mais nas novelas e nos contos do que nos romances muito longos.

[Versão longa de uma entrevista publicada no suplemento Actual, do Expresso]

Teaser

Este sábado, no suplemento Actual do Expresso, será publicada a entrevista que fiz a Martin Amis sobre A Viúva Grávida, o seu mais recente romance, lançado quase em simultâneo no Reino Unido e em Portugal. Eis uma pequena amostra:

Keith, o protagonista, tem uma manifesta dificuldade em lidar com o processo de envelhecimento.
Conhece alguém que não tenha?

Eu, por exemplo, não tenho. Mas talvez seja demasiado novo (38 anos).
Nesse caso, prepare-se. Vai ter uma surpresa muito desagradável. Acredite.

Fale-me dessa surpresa que me espera.
Só posso falar do que se passou comigo. Nunca supus que fosse tão humilhante. E também tão cómico, num certo sentido. É uma daquelas experiências que você, aos 38 anos, não pode compreender completamente. Experimente reler o livro quando tiver 60 anos. Algumas das coisas só se tornarão nítidas quando as experimentar por si mesmo.

A ‘kakutanização’ de Martin Amis

Michiko Kakutani, a principal crítica literária do New York Times, é uma espécie de instituição cultural americana. Odiada pela maior parte dos escritores (sobretudo os consagrados, que ela parece fazer questão de massacrar), temida pelos editores, Kakutani tornou-se uma espécie de oráculo violento e mal-disposto que muita gente relativiza mas ninguém deixa de ler. Da longa lista das suas vítimas constam nomes como os de Norman Mailer (que a apelidou de kamikaze das letras), Tom Wolfe, Don DeLillo, Margaret Atwood, Susan Sontag, John Updike (um cliente regular), Jonathan Franzen, Nick Hornby, Nicholson Baker, Salman Rushdie, Jonathan Safran Foer, etc., etc., etc. Quando um romance leva uma sova brutal da senhora, tipo o tratamento que Vasco Pulido Valente deu a Miguel Sousa Tavares quando este publicou O Rio das Flores, diz-se que o livro foi kakutanizado. Por exemplo, a kakutanização de A Viúva Grávida, de Martin Amis (publicado em Portugal pela Quetzal), aconteceu no início desta semana.

Electricidade e gelo

A Viúva Grávida
Autor: Martin Amis
Título original: The Pregnant Widow
Tradução: Jorge Pereirinha Pires
Editora: Quetzal
N.º de páginas: 530
ISBN: 978-972-564-862-9
Ano de publicação: 2010

Durante a última década e meia, cada novo romance de Martin Amis foi recebido pelo mundo literário anglo-saxónico com doses iguais de ansiedade e desconfiança: será desta que ele volta a ser o grande escritor que já foi? Após a celebrada trilogia londrina (Money, 1984; London Fields, 1989; The Information, 1995), Amis parecia ter entrado cedo demais na curva descendente da sua carreira. Por exemplo, O Cão Amarelo (2003) foi quase unanimemente massacrado pela crítica e Tibor Fischer dedicou-lhe mesmo uma frase assassina que entrou para os anais das frases assassinas: «É como se o nosso tio preferido fosse apanhado a masturbar-se no recreio de uma escola.» Entretanto, surgiram A Casa dos Encontros (2006), um romance curto que pode ser visto como a ilustração ficcional do libelo anti-estalinista Koba o Terrível (2002), e The Second Plane (2008), volume com ensaios, artigos e dois contos sobre o 11 de Setembro, o fundamentalismo islâmico e as novas guerras que esses fenónemos engendraram. Quanto ao romancista ambicioso que muito jovem conseguiu sair, com brilho e bravura, da sombra do pai (Kingsley Amis), das duas uma: ou estava de licença sabática, ou paralisado pela perspectiva de um irremediável falhanço.
Anunciado para 2008, mas sucessivamente adiado até ao início de 2010, A Viúva Grávida acaba por ser vítima das altíssimas expectativas criadas à sua volta. Quem julgou que este livro marcaria o regresso triunfal de Amis à ribalta literária, vai ficar desiludido. Mas se avaliarmos o livro apenas pelo que é, e não pelo que esperámos que fosse, a desilusão atenua-se. Por muito que nos exasperem os impasses narrativos e a sobrecarga de referências literárias (Ovídio, Kafka, Bellow, Larkin, etc.), a verdade é esta: o talento de Amis sobreviveu bastante bem à ingrata (para ele) primeira década do século XXI.
Através de um protagonista, Keith Nearing, com quem partilha muitas idiossincrasias – a data de nascimento, a bibliofilia, a obsessão etimológica, os complexos com a baixa estatura –, Amis observa de perto os dilemas e traumas de uma geração inteira: a sua. A geração dos babyboomers, nascidos no pós-guerra e poupados ao sacrifício nos campos de batalha, filhos da Era Dourada do progresso económico, mas também vítimas do terror nuclear, esse «medo mortal» que feriu de vez a ideia do amor («Porquê amar alguém, se toda a gente podia desaparecer?»). Ou seja, a «Gente dos Anos Sessenta», agora transformada em gente de sessenta anos, o Tsunami de Prata, esse pesadelo das estatísticas etárias, homens e mulheres com dificuldade em envelhecer, e mais ainda em confrontarem-se com os resultados práticos da revolução sexual que tiveram o privilégio de protagonizar – essa «viúva grávida» que adiou ad aeternum o nascimento efectivo de uma nova ordem social.
As reflexões mais amargas são feitas por Keith em 2003, quando finalmente conclui uma história iniciada em 1970, num castelo da provícia italiana, onde em tempos pernoitou D. H. Lawrence. É durante esse Verão na Campânia que a sua vida se decide e compromete. Junto à piscina, rodeado por amigos, todos na casa dos 20, ainda «a tentar descobrir quem eram» e entregues à liberdade de tudo poderem dizer ou fazer, Keith está como os outros num processo de metamorfose identitária, no seu caso focado na descoberta simultânea dos labirintos do erotismo (entre «cus e mamas», com as raparigas a comportarem-se como rapazes) e da literatura (ele vai devorando, um a um, os principais romances ingleses do séc. XIX). Quando a «pastoral platónica» se transforma em «farsa pornoteológica», algo acontece – e o rasto desse acontecimento envenenará a vida futura de Keith.
O principal problema de A Viúva Grávida está precisamente na secção italiana: demasiado longa, demasiado plana e circular, por vezes aborrecida. Há sub-intrigas e personagens a mais; falta economia narrativa. Esse Verão de todas as tentações e embaraços, em que Keith sonha com uma rapariga e acaba na cama com outra, ocupa cerca de 400 das 530 páginas do romance. Para os «intervalos» que nos mostram a vida do protagonista em 2003, bem como as restantes histórias (resumidas a mata-cavalos na secção final do livro), sobram pouco mais de cem páginas. Devia ter sido ao contrário.
A dada altura, alguém atribui ao carácter de Keith «uma estranha mistura de electricidade e gelo». O mesmo se pode dizer deste romance: umas vezes é eléctrico (com relâmpagos de génio), outras glacial (deixando-nos cobertos por uma fina camada de tédio). Ainda assim, vale a pena atravessá-lo de ponta a ponta, nem que seja para descobrir a forma comovente como Amis descreve a fragilidade do Keith cinquentão, exposto a um mundo «cheio de lâminas e de espinhos».

Avaliação: 8/10

[Versão ampliada de um texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Martin Amis lê um excerto do seu novo livro

Espinhos e lâminas

«Keith debruçou-se sobre o lavatório do seu gabinete ou estúdio ao fundo do jardim, para tratar a ferida que tinha nas costas da mão. Essa ferida fora contraída no início de Março, quando os seus nós dos dedos haviam entrado em contacto não enfático com uma parede de tijolos. A ferida ia agora na sua terceira crosta, mas ele continuava a tratar dela, a afagá-la, a soprá-la, a acarinhá-la — à sua pobre mão. Estes pequenos aleijões eram como pequenos animais de estimação ou vasos de plantas que abruptamente ficassem a nosso cargo, que tivessem de ser alimentados, passeados ou regados.
Quando se passa o meio século, a carne, a cobertura da pessoa, começa a atenuar-se. E o mundo está cheio de lâminas e de espinhos. Durante um ano ou dois as nossas mãos andam tão arranhadas e esfoladas como os joelhos de um menino. Depois aprendemos a proteger-nos. Isto é o que vamos continuar a fazer até que, perto do fim, já nem fazemos mais nada — só nos protegemos. E enquanto aprendemos a fazer isso, uma chave numa porta é como um prego numa porta, e a tampa da caixa do correio é como um cutelo, e até o próprio ar está cheio de espinhos e de lâminas.»

[in A Viúva Grávida, de Martin Amis, trad. de Jorge Pereirinha Pires, Quetzal, 2010; romance que chegou hoje às livrarias]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges