Uma ponte no Bósforo

Fala-lhes de batalhas de reis e de elefantes

Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes
Autor: Mathias Énard
Título original: Parle-leur de batailles, de rois et d’eléphants
Tradução: Pedro Tamen
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 159
ISBN: 978-972-20-5174-3
Ano de publicação: 2013

Quando desembarca em Constantinopla, em Maio de 1506, Miguel Ângelo, escultor ainda jovem (31 anos) mas já elevado a «herói da república de Florença», tem à sua espera um enorme desafio. Para trás ficou o braço-de-ferro com o Papa Júlio II. Exigente e autoritário, o Sumo Pontífice quer que ele trabalhe nos mármores do túmulo papal – «imenso monumento que iria pavonear-se mesmo a meio da nova basílica» de São Pedro, em Roma –, embora seja menos lesto na hora de pagar o que prometeu. Por isso, Miguel Ângelo aceita o convite feito pelo sultão Bayazid II: um mês de estadia junto ao estreito do Bósforo, a troco de uma fortuna (cinco vezes mais do que recebera nos dois anos anteriores), para desenhar uma ponte sobre o estuário a que chamam Corno de Ouro. O desafio torna-se ainda mais estimulante porque fora lançado antes a Leonardo Da Vinci, cujo projecto, «inventivo mas impossível de construir», o sultão considerou «bastante feio». É pela rivalidade que o convencem: «Se aceitardes ireis ultrapassá-lo [a Da Vinci] em glória, porque triunfareis onde ele fracassou».
Num primeiro momento, esmagado pela sensações que Constantinopla lhe desperta e pelo fausto da corte otomana, Miguel Ângelo recolhe-se, fica no quarto a desenhar «cavalos, homens e astrágalos», talvez consciente de que é um homem feio, pouco sociável e mal cheiroso (nunca se lava). Depois, aos poucos, vai conhecendo a cidade «perturbadora» que lhe faz lembrar Veneza, apropria-se dos seus ritmos, da sua energia, da sua «matéria». Observa «imagens, rostos e cores», tira notas, faz esboços e listas de objectos (enumerações que ganham uma qualidade poética: «gaxeta, cabrestante, varanda, portaló, carlinga»; «pórfiro, brocatelo, obsidiana, cianite»), escreve cartas ao irmão, tenta saber notícias do Papa, hesita e duvida das suas escolhas, até porque os turcos também tardam em pagar e Constantinopla arrisca tornar-se uma «dulcíssima prisão».
Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes começa por ser isto. Ou seja, um relato das indecisões e derivas de Miguel Ângelo no lugar de todas as clivagens, entre Ocidente e Oriente. Ele sabe que o chamaram para «acrescentar beleza ao mundo» e sente o peso da responsabilidade. Se a arquitectura é a «arte do equilíbrio», ele deve encontrar a conjugação ideal entre «a cadência dos arcos, a sua curva, a elegância dos pilares». Mas a ponte escapasse-lhe e os esboços ficam aquém da grandeza necessária. É então que ocorre uma transformação, à medida que se aprofunda a amizade «tão forte quanto discreta» com Mesihi de Pristina, um grande poeta de «olhar sombrio» que o leva para as tabernas, onde corre o vinho e dançam beldades andróginas. Uma destas bailarinas, vinda do Al-Andaluz (depois de os reis católicos terem destruído aquele lugar de coexistência pacífica entre muçulmanos, judeus e cristãos), acaba por enfeitiçá-lo, reduzida a «uma voz na escuridão» que o abre ao sortilégio do amor, mesmo se este não passa de um reflexo dos sentimentos de Mesihi.
Em capítulos muito curtos, de grande intensidade expressiva e lírica, acompanhamos o modo como Miguel Ângelo supera os bloqueios, conseguindo desenhar a ponte sonhada pelo sultão, mas sem se dar conta da rede apertada de maquinações e desenlaces trágicos que foi sendo urdida à sua volta, antes do regresso intempestivo a Florença. «São belas as pontes, se perdurarem», diz-se, mas esta ruirá no terramoto verdadeiro de 1509, permitindo a Énard fechar a sua realidade alternativa, sincronizando-a com os registos históricos. Ao morrer, quase nonagenário, Miguel Ângelo ainda guarda de Constantinopla «uma vaga luz, uma doçura subtil mesclada de amargura, uma música distante». É a música sublime que atravessa este romance, tão harmonioso e inesquecível quanto a ponte que nunca existiu.

Avaliação: 9/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Mathias Énard: “Apoiei-me em Homero, não para escrever como ele, mas com ele”

Durante quase duas décadas, Mathias Énard (n. 1972), um escritor francês com estudos de árabe e persa, atravessou a bacia mediterrânica em todos os sentidos, do Médio Oriente aos Balcãs, de Itália ao Magrebe. Antes de se instalar em Barcelona, onde vive actualmente, passou por Teerão, Cairo, Veneza, Damasco, Zagreb, Istambul, Argel, Beirute, e encontrou dezenas de pessoas que partilharam com ele memórias dos conflitos militares que desde sempre foram moldando, com fogo, sangue e cinzas, as fronteiras deste espaço geográfico. Ou desta Zona, como Énard lhe chama no seu quarto livro, um romance monumental, de fôlego épico, grande revelação da rentrée literária francesa de 2008, em boa hora editado pela Dom Quixote (e magistralmente traduzido por Pedro Tamen).
Num bar de hotel, em Lisboa, quase a regressar a casa após a participação no Festival Silêncio!, o escritor explicou-nos, com uma voz que parecia gravilha pisada, a génese de Zona: «Nas minhas muitas viagens, recolhi imensas histórias de pessoas que viveram na pele a violência da guerra. Fiz entrevistas, enchi cadernos de notas, mas não sabia muito bem o que fazer com aquele material todo.» Primeiro, pensou escrever um ensaio. «Seria uma análise da forma como os antigos combatentes contam as suas guerras, as palavras que utilizam e as narrativas que criam.» Mas as montanhas de informação recolhida não ganhavam forma e o projecto foi sendo adiado. Em 2005, Énard vivia na capital italiana e um dia, ao apanhar o comboio na gare de Milão, intuiu o que viria a ser a estrutura de Zona: um homem dentro de uma carruagem, numa viagem ao fim da noite e ao fim do mundo, com uma maleta cheia de segredos e a cabeça a abarrotar de histórias cruzadas, sobrepostas, enredadas umas nas outras. «Nesse momento, tive a certeza de que encontrara a ideia certa – o monólogo interior de Francis, o protagonista – e o modo de encaixar no romance todos os testemunhos soltos que tinha juntado. O resto foi uma questão de trabalho.»
Embora Zona deva ser lido como um livro de ficção, as histórias em que se inspira são quase todas verdadeiras. Ao recolhê-las, Énard sentiu-se mais um etnólogo do que um jornalista. «Há certamente pontos comuns entre as guerras, que no fundo são todas parecidas, mas cada um dos homens que inspiraram as personagens do livro é único.» Um dos aspectos que mais impressionaram o escritor foi o facto destas pessoas terem quase todas a sua idade: «Mas enquanto eles viviam a guerra, sentiam de perto as suas consequências e se arrastavam nos campos de batalha, eu gozava a minha juventude dourada e quase inútil. De certa maneira, quis embrenhar-me nessas vidas que não tive mas que poderia ter tido, caso fosse outro o meu lugar de nascimento.» E se há no livro uma grandeza e uma desmesura que remetem para a noção de epopeia (neste caso uma epopeia negra, sem heróis, consciente de que não há canto que redima o horror absoluto), Énard nunca deixa de centrar a sua atenção na experiência individual, muito nítida e recortada contra o fundo dos grandes movimentos colectivos da História. «O que me interessa são as intersecções entre trajectórias humanas autónomas, esses encontros tantas vezes fortuitos, casuais, surgidos do acaso.»

Num livro em que abundam as referências literárias, explícitas ou implícitas, é impossível ignorar o diálogo com a Ilíada. Tal como o poema de Homero, dividido em 24 cantos, Zona é composto por 24 secções. E há personagens do cerco de Tróia que invadem a longa frase contínua que Francis vai desdobrando na sua mente, durante a travessia nocturna de Itália. Não se procure, porém, analogias directas como as que Joyce estabeleceu com a Odisseia no seu Ulisses. Aqui, a intenção era outra: «Quis mostrar que existe de facto uma certa continuidade, pelo menos no plano literário, entre a forma como Homero mostrou a guerra na Ilíada e a guerra tal como ela é vivida pelos combatentes actuais. Claro que em Homero já encontramos tudo: a coragem, a cobardia, a dor, as feridas, a grande excitação que o combate provoca. Os códigos sociológicos é que não são os mesmos. Deixámos de viver num mundo governado pelos deuses, mas muitas coisas permanecem.» Mais do que paradigmas narrativos, Énard procurou um elo com o passado mais remoto da nossa civilização: «Apoiei-me em Homero, não para escrever como ele, mas com ele.»
O título do livro, defendido com unhas e dentes no processo de edição, remete para um poema de Apollinaire, «talvez o primeiro poema da modernidade em França», cujos temas e ritmos vão permeando o texto do romance. Além disso, a palavra «zona» interessava a Énard pelo seu «lado de incerteza». Em termos geográficos, designa «um lugar que existe, porque ocupa espaço num mapa, mas ao mesmo tempo não tem fronteiras bem definidas». Na etimologia grega, zona é o mesmo que cintura, «aquilo que cerca as coisas». E no fundo é isso que este romance faz: cercar todo o tipo de coisas. Dos factos históricos (batalhas, atentados, etc.) às misérias incógnitas, das memórias perecíveis às imagens que nunca mais nos abandonam (as cabeças decapitadas dos quadros de Caravaggio, por exemplo, repetindo-se no obscuro rol das muitas vítimas do século XX).
Para não se perder nas dobras de uma frase interminável, que se estende por mais de 400 páginas, Énard cobriu uma parede com post-its de várias cores (uma para cada tempo histórico), onde resumia os vários episódios que se vão intercalando na narrativa. «A dificuldade estava nas transições, mas como tinha o conjunto do livro ali à minha frente, na parede, podia transferir facilmente segmentos inteiros de um lado para o outro, sem perder o fio à meada.» E pode dizer-se que na construção do livro há uma espécie de impulso wagneriano? «Sim. Como na ópera total, aqui não há recitativos, só música contínua, com leitmotivs, ressonâncias de umas partes para outras e mudanças súbitas de ritmo.»
O sucessor de Zona, entretanto, já existe. Tem publicação prevista para Setembro, em França, narra um episódio da vida do escultor Miguel Ângelo e é uma espécie de reverso da medalha, tanto na escala como no estilo: «Será breve, umas 150 páginas. E terá muitas frases, quase todas curtinhas.»

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

O meu primeiro tiro

«Tenho a impressão de que ando aos tiros desde sempre, mas na verdade faço-o há pouco mais de três anos e, quando volto a pensar nos meus começos, sinto vergonha. Tudo se aprende. O alvo do meu primeiro tiro foi um homem ao volante de um táxi, no princípio da guerra. Acreditei que o tinha atingido porque o automóvel chocou a direito contra uma parede. Fiquei à espera, para o caso de o condutor sair. Todo eu tremia, apontando a minha espingarda para um lado e para o outro, a tentar perceber se alguém chegava para o socorrer. Disparei duas balas ao acaso, na direcção da porta da frente do lado esquerdo, mas era evidente que ele não saía e ninguém se aproximava. Eu tinha lágrimas nos olhos, não sabia o que fazer, não via sequer o homem a sangrar por causa do tecto do automóvel, que me obstruía a visão, e comecei a entrar em pânico, no meu prédio a quinhentos metros. É o efeito da mira. Tinha a impressão de estar lá em baixo e já não me reconhecia. Já não sabia se eu era aquele que dispara ou aquele sobre o qual se dispara. Tinha medo, estava tão agarrado à minha espingarda que era como se estivesse fundido com ela. Para dificultar ainda mais as coisas, havia uma casa relativamente alta, do lado direito do automóvel, que me tapava a porta do passageiro. Alguém se aproximou de repente, a correr, no meu ângulo morto, disparei por reflexo na direcção do movimento e evidentemente falhei e atingi o automóvel, porque ainda não tinha compreendido que no visor avaliamos mal as distâncias entre os objectos. Fui obrigado a recarregar a arma, perdendo momentaneamente de vista o que se passava à minha frente; e, como antes não prestara a devida atenção ao lugar que tinha debaixo de olho, perdi algum tempo a reencontrar o automóvel no meio dos prédios, por causa do pânico. Transpirava, fazia muito calor, era verão, o início da guerra, e o suor que me escorria da cara impedia-me de olhar pela mira. Quando reencontrei o lugar, esperei um quarto de hora mas ninguém saiu do pior lado do automóvel. Estava frustrado, não sabia se o homem estava morto, e se tinha sido eu a matá-lo ou o acidente. Foi nesse momento que disse a mim mesmo que era um cobarde, porque escolhera o tiro mais difícil, um homem protegido em três quartos do seu corpo, dentro de um automóvel em movimento. No fundo, acho que queria dar-lhe uma hipótese, o que é uma cobardia. Ou se dispara, ou não se dispara. É preciso escolher, ou então somos cobardes. Mas isso só o compreendi mais tarde.»

[in La Perfection du tir, de Mathias Énard, Actes Sud, 2003; inédito em português, tradução de José Mário Silva]

Um palimpsesto prodigioso

Zona
Autor: Mathias Énard
Tradução: Pedro Tamen
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 469
ISBN: 978-972-20-4035-8
Ano de publicação: 2010

Francis Servain Mirković, espião de origem croata, sobe para o comboio Milão-Roma como quem prepara um apocalipse pessoal (revelação e fim do mundo). Na sua maleta transporta documentos com milhares de nomes: os nomes de carrascos e vítimas das muitas guerras a que a orla mediterrânica assistiu nas últimas décadas. São segredos acumulados durante anos de trabalho nos serviços secretos franceses, informação de que pretende desfazer-se, vendendo-a ao Vaticano para depois iniciar uma vida nova.
Ele define-se como um «historiador da sombra», um «arqueólogo da loucura» que sondou «coisas desaparecidas, enterradas, para delas fazer brotar cadáveres, esqueletos, fragmentos, restos de histórias». E é tudo isso, a densa rede de experiências pessoais e alheias, sobrepostas como «uma teia de aranha em redor do vazio», é tudo isso que converge para a sua cabeça insone, na travessia da noite e da memória. No longo monólogo interior de Francis (só interrompido pela leitura de um livro dentro do livro, também ele sobre a guerra e suas devastações), cabe um inventário bastante completo do horror no século XX, mas também no passado mais remoto, de Tróia a Lepanto, de Homero a Cervantes.
Ao longo da viagem, a maleta esvazia-se como a caixa de Pandora, um catálogo de males sem direito à esperança. E a imensa frase única, que atravessa as quase 500 páginas deste prodigioso palimpsesto, cerca-nos e morde-nos e esmaga-nos, até à rendição incondicional.

Avaliação: 9,5/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

A magia dos explosivos

«(…) o Ghassan belo guerreiro, óculos de sol, farda nova, M16 na mão, campeava numa barricada ou vagueava pela praia em Jounieh com os camaradas, os confrontos eram violentos e rápidos, a guerra durava há dez anos e já estava bem rodada, como ele dizia, a única batalha verdadeira em que ele participou foi contra o exército libanês em Fevereiro de 1990 no Metn e em Nahr el-Kalb, sangrenta carnificina final, de colina para colina a artilharia massacrava os civis em fuga, os combatentes lançavam-se uns contra os outros numa mistura furiosa: o Ghassan contou-me como matara o seu próprio primo, cabo no exército, com uma granada atirada para o seu jipe que transportava munições, os três ocupantes tinham voado num feixe de carne, metal e fogo, por lá ninguém sabe que fui eu que lancei aquela granada, dizia o Ghassan, como queres tu que eu fale com a minha tia normalmente depois daquilo, recordava-se de ter calcorreado colinas aos berros para ganhar coragem, de ter mijado sobre o cano de uma metralhadora para a esfriar, sem o conseguir, de ter posto fora de combate um blindado com um LAW a duzentos metros e de ter visto o comandante do carro conseguir extrair-se da carcaça para se consumir como uma velha sola enegrecida dobrada em dois sobre o cano, de ter chorado horas sem remissão (contava isto a rir) depois da morte de um cavalo, ceifado acidentalmente por uma rajada, e sobretudo, sobretudo contava como fora ferido, como se julgara morto, de repente retalhado por dezenas de estilhaços após a explosão de uma granada de obus, vira o casaco do seu fato de combate abrir-se, inchar de impactos de metralha, estava de repente coberto de sangue perfurado do tornozelo até ao ombro por inúmeras mordeduras, uma matéria infecta e viscosa cobria-lhe todo o lado direito, o Ghassan ruíra em espasmos de dor e de pânico, persuadido de que era o fim, a granada caíra apenas a alguns metros, os médicos retiraram-lhe do corpo oito dentes alheios e dezassete fragmentos de ossos incrustados na carne, destroços do pobre tipo que estava à sua frente volatilizado pela explosão e transformado em granada humana, pedaços de crânio fumegantes atirados num penacho de sangue, cujo único estilhaço metálico era um pré-molar de ouro, o Ghassan livrara-se de boa, ainda sentia arrepios nas costas e náuseas de nojo, dizia ele, só de pensar naquilo fico com pele de galinha, eu não sabia se era de rir se de lamentar aquela história, o Ghassan transformado em sepultura viva recebendo as relíquias do mártir directamente encastoadas na pele, a união dos guerreiros realizada pela magia dos explosivos.»

[in Zona, de Mathias Énard, tradução de Pedro Tamen, Dom Quixote, 2010]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges