Arte de matar

Crimes Exemplares
Autor: Max Aub
Título original: Crímenes Ejemplares
Tradução: Jorge Lima Alves
Editora: Antígona
N.º de páginas: 141
ISBN: 978-972-608-201-9
Ano de publicação: 2008

«Espanhol por decisão própria», Max Aub (1903-1972) deve muito da sua fama literária a este volume de «confissões espontâneas», supostamente recolhidas em Espanha, França e México (onde viveu, exilado, as três últimas décadas de vida). Aub coloca-se no lugar do antropólogo que regista variações de um gesto humano – neste caso, o acto de matar o seu semelhante pelos motivos mais fúteis –, devolvendo-o intacto, sem quaisquer melhoramentos (explicação dada para «a sua banalidade»). É justamente a ilusão de um rigor quase científico que faz deste catálogo de impulsos assassinos, narrados na primeira pessoa, um dos mais divertidos e glosados exercícios de humor negro da literatura do século XX.
O que todas as personagens de Crimes Exemplares têm em comum, além de uma perigosíssima mistura de intransigência e ingenuidade, é uma radical obliteração do superego, essa instância psíquica que nos obriga a resistir aos instintos mais básicos. Neste universo, até os mais ínfimos pecadilhos merecem o castigo máximo. Mata-se literalmente por tudo e por nada: porque alguém palita os dentes em público, porque ressona, porque tem borbulhas, porque pisa uns sapatos novos, porque faz barulho a mexer o café com leite, porque chega escandalosamente atrasado, porque é melhor e mais bonito, porque é demasiado feio, porque se engana a satisfazer um pedido, porque não pára de falar, porque dança mal, ou apenas porque teve a pouca sorte de mostrar-se ingrato, casmurro, egoísta, desastrado, indiferente. Qualquer pretexto é bom para transformar o outro em vítima; o que, se descontarmos os exageros e a violência cega, não anda assim tão longe de corresponder ao que os seres humanos à nossa volta fazem (ou, pelo menos, pensam).
Esta nova edição, maliciosamente anunciada pela Antígona como «aposta para o Natal», recupera a tradução de Jorge Lima Alves (1982) e enxerta-a na versão publicada pela editora espanhola Media Vaca, em 2001, com 32 belíssimas ilustrações a vermelho (de sangue) e negro (de morte) feitas por artistas ibero-americanos, como Arnal Ballester, Mariana Chiesa, Paco Giménez, Isidro Ferrer, Pep Monserrat, Eduardo Muñoz Bachs ou Santiago Sequeiros.

Avaliação: 7,5/10

[Texto publicado no n.º 76 da revista Ler]

‘Crimes Exemplares’ (booktrailer)

O segundo crime seleccionado pela equipa da Antígona para o booktrailer é um clássico: a cena em que um homem enlouquece, no café, ao ouvir o tilintar constante de uma colher de metal. Em 1997, foi também esse um dos crimes escolhidos pela realizadora Rita Nunes para a sua curta-metragem de estreia, Menos 9. João Grosso, barbudo, faz de assassino (reparem no sorriso de prazer/alívio, depois do disparo).

Três crimes exemplares de Max Aub

«Convidou-me para dançar sete vezes de seguida. E não valia a pena estar com manhas: os meus pais não tiravam os olhos de mim. O imbecil não tinha a menor noção de ritmo. E suava das mãos. E eu tinha um alfinete, comprido, comprido.

***

Ela falava, e falava, e falava, e falava. Falava pelos cotovelos. E continuava a falar. Eu sou a dona da casa. Mas aquela empregada gorda só sabia era falar, falar, falar. Onde quer que eu estivesse, lá vinha ela e começava a falar. De tudo e de nada, disto e daquilo, para ela tanto fazia. Despedi-la por causa disso? Teria que lhe dar três meses de indemnização. Ainda por cima, seria bem capaz de me rogar uma praga. Até na casa de banho: e assim e assado, e frito e cozido. Enfiei-lhe a toalha na boca para que se calasse. Não morreu por causa disso, mas por já não poder falar: as palavras rebentaram-na toda por dentro.

***

FICHA 342

NOME DO DOENTE: Agrasot, Luisa.
IDADE: 24 anos.
NATURALIDADE: Veracruz, Ver.
DIAGNÓSTICO: Erupção cutânea, provavelmente de origem polibacilar.
TRATAMENTO: 2.000.000 unidades de penicilina.
RESULTADO: Nulo.
OBSERVAÇÕES: Caso único. Recalcitrante. Sem precedentes.
A partir do décimo quinto dia senti-me vencido. O diagnóstico era perfeitamente claro. Impossível ter a menor dúvida. Perante o fracasso da penicilina, tentei em vão toda a espécie de medicamentos, não sabia o que fazer. Dei voltas ao miolo dia e noite, durante semanas e semanas, até que lhe administrei uma dose de cianeto de potássio. A paciência – mesmo com os pacientes – tem limites.»

[in Crimes Exemplares, de Max Aub, versão ilustrada, trad. de Jorge Lima Alves, Antígona, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges