Prosa do Transiberiano

maylis

Linha de Fuga para Leste
Autora: Maylis de Kerangal
Título original: Tangente vers l’est
Tradução: Carlos Correia Monteiro de Oliveira
Editora: Teodolito
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-8580-29-0
Ano de publicação: 2014

Em Junho de 2010, quinze escritores franceses participaram numa viagem de três semanas no Transiberiano. Da delegação faziam parte, entre outros, Jean Echenoz, Olivier Rolin, Dominique Fernandez, Mathias Énard e Maylis de Kerangal, uma escritora que a Teorema deu a conhecer ao público português em 2011, com Nascimento de uma Ponte, um belíssimo romance. No regresso do périplo através da Rússia, Kerangal lançou-se imediatamente na escrita, correspondendo a uma encomenda da France Culture, que lhe pediu um texto que cobrisse duas horas e meia de tempo radiofónico. Dessa prosa inicial, trabalhada para ser lida em voz alta, nasceria depois Linha de Fuga para Leste”, uma novela de ritmo e musicalidade exemplares.
Entre Krasnoiarsk e Vladivostoque, acompanhamos o momento em que se tocam duas trajectórias de vida quase opostas. Começamos por descobrir Aliocha, um russo de 20 anos, perdido na pequena multidão de mancebos que partem de Moscovo num comboio. O destino exacto da viagem foi-lhes ocultado, mas é indiferente: à chegada, sabem que os espera uma recruta violenta, «experiência limite» em «terra de desterro», algures na Sibéria, para lá de Novosibirsk. Órfão, Aliocha vive com a avó e não tem dinheiro para pagar um certificado médico falso, ou qualquer outro esquema de corrupção. É introvertido e virgem, incapaz de seduzir uma rapariga para a engravidar – último recurso para se conseguir uma dispensa, quando tudo o resto falha.
Na última carruagem, testa colada ao vidro traseiro do Transiberiano, «hipnotizado pelos carris», o rapaz tenta não pensar na lendária brutalidade das praxes a que submetem os caloiros (não os deixam dormir, forçam-nos a lamber sanitas, sodomizam-nos, queimam-lhes «a ponta do sexo com cigarros»). A ideia de fuga materializa-se durante esses devaneios, uma decisão que o ambiente concentracionário do comboio, sob a estrita vigilância do «sádico» sargento Letchov, só reforça. Cruza-se então com Hélène, uma francesa de trinta e tal anos, também ela a escapar de alguma coisa, a querer afastar-se de Anton («Anton, como Tchekov»), o amante russo, «filho de Gogol e de Estaline», chefe de uma barragem no coração de um país a que ela não se consegue habituar. Entre o desertor «potencial» e a mulher perdida na desmesura das planícies siberianas, estabelece-se um vínculo, uma cumplicidade. Partilham cigarros, vodca, e uma janela que é como um ecrã de cinema, «onde tudo se move lentamente, molecular como o terror e o desejo». Sem língua comum, falam por gestos, «um início de mímica», mas entendem-se. Ajudam-se um ao outro. E hão-de chegar ao Pacífico, a tempo de perceber que são muito mais semelhantes do que poderiam imaginar.
Kerangal consegue gerir, com assinalável mestria, a estranheza do improvável encontro entre dois mundos que em princípio nunca se deveriam cruzar (ela no conforto relativo da primeira classe, onde pode dormir sozinha; ele no caos da terceira, onde não há compartimentos e os passageiros se espalham ao deus dará). Tanto estamos de um lado como do outro. Entramos nas histórias, traumas e fantasias dos dois, à vez, tal como assistimos de fora ao espanto mútuo. E à curva ascendente de uma tensão sexual que se dissolve, quase no fim, numa cena extraordinária em que Hélène lava o corpo de Aliocha no aperto da casa de banho minúscula, e depois ele retribui. Há entre os dois algo de precioso, algo que a insensatez de um gesto a mais não chega a quebrar.
Esta é uma história simples, narrada com intensidade e subtileza. Mas o triunfo de Kerangal está na linguagem, nas longas frases buriladas até à perfeição, na prosa dúctil que mimetiza o clangor do comboio em movimento («os carris irreversíveis desenrolam o país, desembalam, desembalam, desembalam a Rússia»), dando forma a «uma temporalidade desconhecida, elástica e flutuante». A prosa acolhe a paisagem, reflecte-a, absorve-a. E acabamos a ver nela o esplendor do Baikal: «tanto mar interior como céu invertido, precipício e santuário, abismo e pureza, tabernáculo e diamante, é o olho azul da Terra, a beleza do mundo».

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado na revista E, do semanário Expresso]

Memorial do estaleiro

Nascimento de uma Ponte
Autora: Maylis de Kerangal
Título original: Naissance d’un pont
Tradução: Isabel St. Aubyn
Editora: Teorema
N.º de páginas: 278
ISBN: 978-972-695-971-7
Ano de publicação: 2011

Durante muitos anos, houve quem explicasse o declínio do estatuto e influência da literatura francesa em Portugal – enormes há meio século, quase nulos hoje – com a conjugação de dois factores. Por um lado, a hegemonia cada vez mais notória da língua inglesa nos principais circuitos de consumo cultural. Por outro, um fechamento de horizontes dos próprios autores do Hexágono, incapazes de fugir a um certo pendor solipsista (como se a realidade não fosse além dos dilemas existenciais de quem vive em apartamentos modernos na rîve gauche parisiense). Se o primeiro factor é indesmentível, o segundo nem por isso. Aliás, o estereótipo do umbiguismo à solta em Saint-Germain des Prés não passa disso mesmo: de um estereótipo. Ou de uma parte tomada pelo todo. Além dos consagrados que são excepções à suposta regra (Le Clézio, Quignard, Echenoz, entre outros), há muitos novos autores que demonstram a vitalidade e diversidade da ficção francesa contemporânea. Felizmente, alguns deles começam a ser publicados por cá. Depois de Mathias Énard (Zona, Dom Quixote) e Laurent Binet (HHhH, Sextante), duas magníficas surpresas, apareceu de rompante este notável Nascimento de uma Ponte, de Maylis de Kerangal, justíssimo vencedor do Prémio Médicis de 2010.
A ponte a que o título se refere é um projecto de enorme envergadura (seis faixas de rodagem, quase dois quilómetros de comprimento, torres altíssimas, tabuleiro suspenso, tudo desenhado por um arquitecto de renome), obra de rasgo que promete colocar no mapa a imaginária cidade californiana de Coca, da qual «nunca ninguém ouviu falar». Fascinado com o novo-riquismo urbanístico do Dubai, o mayor aposta forte na ideia de expansão, acredita que é uma espécie de Médicis, um «príncipe mecenas de capa de veludo», e quer vencer a barreira que separa as duas margens em tudo opostas: de um lado, o crescimento económico vertiginoso; do outro, a floresta quase virgem, ainda habitada por tribos de índios. Paisagem dentro da paisagem, aquele «bloco de energia bruta» é um hino à engenharia e um delírio de grandeza («como um enorme desejo num corpo muito pequeno»).
Nas mãos de Kerangal, a ponte assume-se como uma metáfora da globalização, um íman que atrai operários especializados vindos de todo o mundo – dezenas de personagens que existem enquanto unidades narrativas autónomas, mesmo se nalguns casos reduzidas à escala mínima do parágrafo. O livro organiza-se como o relato exaustivo de uma «epopeia técnica», com a sua «movimentação colectiva», mas a autora, para lá da «mecânica gigantesca» do estaleiro, também nos oferece uma espécie de poética do trabalho, visível no modo como o texto assimila, nas suas frases longas, muito bem cinzeladas, as dinâmicas e ritmos próprios da construção (a prosa é pulsátil, voluptuosa, belíssima).
Enquanto crescem os pilares da ponte, alarga-se o alcance da gesta narrada. Kerangal não se limita a descrever as contingências da obra: múltiplos atrasos (por causa do clima agreste ou da nidificação de aves migratórias); acidentes; ameaças de greve; uma hipótese de atentado. Vai mais longe, recuperando a história mítica da cidade, hoje «dopada pelo suor e pelo dinheiro», mas outrora apenas a materialização do sonho árduo dos pioneiros que desbravavam a natureza, a caminho do mirífico Oeste. E vai também mais fundo, aproximando-se em zoom das personagens, entrando nelas, nos seus pensamentos e memórias, nas suas histórias passadas, nos seus amores improváveis. Há em Nascimento de uma Ponte um sopro épico, mas o fulgor da escrita nunca ofusca a sua dimensão humana.

Avaliação: 8,5/10

[Texto publicado no n.º 106 da revista Ler]

Maylis de Kerangal: “Gosto de ver as personagens a desmontar as suas vidas”

Conhecido por Jibóia, John Johnson é o mayor de Coca, cidade californiana em franca expansão económica. Ao regressar de uma visita ao Dubai, o paraíso da construção civil (capaz de atrair «um terço das gruas existentes à superfície do globo»), o autarca decide empreender a sua própria revolução urbanística: «Vou libertar a cidade e inscrevê-la no mundo.» O que se segue é uma orgia de betão: o erguer de arranha-céus, a multiplicação de complexos comerciais, a feia arquitetura da prosperidade. Jibóia não olha a meios para «livrar Coca do anonimato provinciano» e «convertê-la à economia mundial, fazer dela a cidade do terceiro milénio, polifónica e omnívora». Símbolo da expansão, eis o projeto de uma enorme ponte suspensa, com seis vias, verdadeira «autoestrada por cima do rio», a unir duas margens radicalmente opostas: de um lado, a civilização do dinheiro, rápida, voraz, com aspirações cosmopolitas; do outro, a natureza bruta da floresta impenetrável, onde ainda vivem tribos índias.
É a história desta obra megalómana que atravessa o romance Nascimento de uma Ponte (Teorema), com o qual Maylis de Kerangal, 44 anos, ganhou por unanimidade o Prémio Médicis em 2010. Consequência desta consagração, a escritora francesa, até aqui bastante discreta, vê-se finalmente empurrada, ao sétimo livro, para o intenso circuito da exposição mediática internacional — as entrevistas sucessivas no estrangeiro, que para muitos escritores são uma forma de tortura, mas ela encara como um necessário «sacrifício humano». No bar de um hotel em Lisboa, garrafa de água mineral à frente e um sorriso de orgulho (acabara de saber, por telefone, que o filho completara o ensino secundário com boas notas), Kerangal defendeu durante quase uma hora esta outra cria, reflectindo enquanto falava, os olhos por vezes perdidos no tecto, à procura da formulação mais precisa.
«O que eu pretendia mesmo era trabalhar a ideia de epopeia», começou por explicar. «Não uma imitação de Homero, claro. Apenas o relato de um desígnio colectivo: homens e mulheres, mas também forças e materiais, convergindo para um mesmo perímetro. Aquele estaleiro. Aquela ponte. Queria que o livro se desenrolasse à medida que a obra cresce, tendo em fundo o discurso mítico da construção da cidade, quase como num western.» Projecto ambicioso, alternando as grandes panorâmicas em cinemascope com as histórias de muitas personagens (dezenas), cujas vidas e trajectos completos por vezes cabem num único parágrafo. A partir dos casos individuais de trabalhadores especializados vindos de todos os continentes, Kerangal aborda as tensões económicas, mas também políticas, do mundo em que vivemos. Ou seja, a lógica da globalização.
Uma lógica perfeitamente encarnada por um dos protagonistas do livro: Georges Diderot, o homem do terreno, o engenheiro mercenário que destrói paisagens, o pragmático com os pés fincados no real, trabalhador incapaz de questionar a finalidade do seu trabalho. Embora a ponte seja o eixo que estrutura toda a narrativa, Kerangal nunca afasta o foco das figuras humanas: «Este é um livro de personagens. A todas elas atribuí uma certa carga heróica — e por isso comecei por falar no sentido da epopeia. A carga heróica nasce de serem confrontadas com qualquer coisa que as ultrapassa. Qualquer coisa que não dominam completamente. Elas têm de se defrontar com a complexidade do mundo e colocar-se em causa. Gosto disso. Gosto de ver as personagens a desmontar as suas vidas, a encontrar pontos de fuga.» Quanto ao estaleiro, acaba por ser mais interessante do que a ponte em si mesma. «O estaleiro é o microcosmos, a sociedade em miniatura, todas aquelas relações de poder. E depois há essa característica melancólica: o facto de ser desmanchado quando a obra acaba. O estaleiro é efémero. Está limitado não só no espaço mas também no tempo.»

Se o processo de escrita do romance foi rápido (seis meses), para trás ficaram vários anos de maturação. «Escrevi as primeiras páginas em 2005. Depois andei às apalpadelas, fui fazendo outras coisas (reportagens e artigos para as revistas Geo e Inculte, outros dois romances, criação da editora Baron Perché), mas nunca deixei de pensar nos problemas que este livro me colocava.» Foi durante uma viagem a São Francisco, perto do território onde localizou a sua cidade imaginária, que começaram a surgir as soluções de que necessitava. Reunida uma extensa documentação técnica que lhe permitiu garantir «efeitos de real», concentrou-se na escrita propriamente dita, uma prosa de grande densidade e beleza que é o verdadeiro triunfo deste romance.
O principal desafio, a maior dificuldade, consistiu em incorporar o léxico técnico na matéria romanesca, criando uma espécie de «poética do estaleiro», com a sua energia cinética contaminando o ritmo das longas frases, muito bem articuladas, torrenciais, avançando em sucessivas acumulações de ângulos e perspetivas («são como um travelling que vai para a frente e para trás»). Com um brilho nos olhos, Kerangal entusiasma-se ao falar da subestrutura do romance: os momentos de aceleração e aqueles em que o tempo se dilata; as diferentes «zonas de intensidade»; os núcleos narrativos que se interligam em rizoma; as palavras raras que funcionam como «bombas de fragmentação»; a alternância dos níveis de linguagem (da trivialidade quase vulgar ao maneirismo barroco).
Se houve, de início, a tentação de escrever um romance puramente conceptual e pós-moderno, essa ideia foi logo posta de parte. «Não está na minha natureza. Não sou esse tipo de escritora.» Por muito que Nascimento de uma Ponte seja um tour de force estilístico (e é), o seu fulgor nasce da dimensão humana das histórias. Não por acaso, o livro fecha com a imagem da ponte construída, mas «ao longe», enquanto em primeiro plano vemos um improvável par amoroso, nadando no fluxo do rio, reconciliando o que parecia irreconciliável.

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges