Arte de amonas

engenhos

Os Engenhos Necessários
Autor: Miguel Cardoso
Editora: &etc
N.º de páginas: 88
ISBN: 978-989-671-213-6
Ano de publicação: 2014

Os livros de Miguel Cardoso são animais difíceis de aprisionar na jaula de um texto. Por natureza, resistem ao exercício da domesticação crítica e mais ainda à paráfrase. É preciso ir lá, olhá-los de frente, ler o poema a arder na página. Assim com Os Engenhos Necessários, um bom exemplo da verve torrencial de MC. O poeta fala, o poeta observa, o poeta lembra outros poetas (pedindo versos emprestados a Whitman, Luiza Neto Jorge, Rimbaud), o poeta não sabe muito bem para onde vai, embaladíssimo, mas vai, o poeta deixa-se ir.
Entre inspirações e aspirações, há um sentido de urgência, uma necessidade de escrever «à pressa no meio da afasia», uma procura ávida de oxigénio para pulmões cheios de ferrugem: «a poesia é arte de amonas // o ofício de custar a respirar». À medida que avança, o poema rasga-se e vai sendo remendado, um «tecer do que é tecido», sempre consciente da «malha na meia». Cardoso gosta de acidentes e desvios, de interrupções, apartes e recomeços, de um coloquialismo que por vezes lembra Assis Pacheco, mas a tudo isto assistimos do alto da sua maquinaria verbal, em cujas entranhas pulsam potentíssimos «motores líricos».
O poema sabe que é poema e a auto-referencialidade explora os limites da ironia: «(três a doze linhas / as últimas duas tipo / toma e embrulha / ou toma lá que já almoçaste / a chamada anagnórise) // e haverá um estudioso que dirá // “Não está nada mal visto / Deixou só o nervo / É um talhante ao contrário”». Excelente definição de um poeta para quem a poesia é o reflexo de uma vontade de dizer o mundo. E se entre o mundo e os versos algo se perde, quando não se perde tudo, ao menos «um gajo tenta».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do Expresso]

Uma coça bem dada

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Pleno Emprego
Autor: Miguel Cardoso
Editora: Douda Correria
N.º de páginas: 21
ISBN: 978-989-20-4383-8
Ano de publicação: 2013

Não é fácil construir um discurso sobre a poesia de Miguel Cardoso porque ela nunca abandona a sua condição de objecto em fuga, de coisa que se ergue assim, de repente, do nada, com uma energia cinética espantosa, e nos leva pela longa escadaria dos versos, ou pelos labirintos da prosa (como neste caso), sem que saibamos muito bem o que é isto afinal, ou para onde se dirige a imparável torrente de palavras, ideias e imagens.
Os seus poemas – quase sempre longos, feitos de acumulações, derivas, apartes, coloquialismos, interrupções – são paredes verbais a ir de encontro ao leitor para o derrubar. São uma coisa física. Um encontrão valente. Lê-los é levar porrada, é não conseguir agachar-se, à la Álvaro de Campos, «para fora da possibilidade do soco» (e curiosamente talvez ninguém se aproxime tanto da energia do Poema em Linha Recta, hoje, como Miguel Cardoso).
Pleno Emprego, um texto que começou por ser uma instalação sonora na casa de banho do bar Purex, é mais uma coça bem dada nos que se atreverem a entrar no seu torvelinho. O lirismo nasce do real em catadupa, esmiuçado como quem não quer a coisa – mas afinal quer, por muito que se desconverse. Por baixo e por cima do alarido está a miséria, o desemprego, o pérfido minguar das vidas e dos horizontes. Mesmo quando vai por partes, e lhes dá a volta, é sempre disso que o poeta fala: «Sou pelos plenos pulmões, e por esvaziá-los até ao fim. (…) Sou pelo pleno emprego das razões, mas nunca das certas. Das revoluções, mas daquelas que, como aquele livro de poemas que andas há semanas a ler em voz alta no autocarro, podes levar a casa de amigos e de estranhos a qualquer hora».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso]

Poema a duas vozes

Miguel Cardoso e Catarina Nunes de Almeida lêem o poema As terríveis manhãs que se seguem, de Miguel Cardoso, no último ‘Verdes São os Cantos’ (sábado, 9 de Julho, no bar A Barraca).

Um feixe de sopros

Que se diga que vi como a faca corta
Autor: Miguel Cardoso
Editora: Mariposa Azual
N.º de páginas: 89
ISBN: 978-972-8481-10-9
Ano de publicação: 2010

Neste ano que tem sido pródigo em estreias poéticas fulgurantes – veja-se o caso de Margarida Vale de Gato, entre outros –, Miguel Cardoso (n. 1976) emerge como um dos novos autores que valerá a pena acompanhar mais de perto. O seu primeiro livro, Que se Diga que Vi como a Faca Corta, remete logo no título para a órbita de Herberto Helder. Todavia, os evidentes pontos de contacto com a escrita do autor de A Faca Não Corta o Fogo – poemas longos; imagens fortes; linguagem ao mesmo tempo obscura e exaltante, densa, visceral – nunca o reduzem à condição de epígono. E ainda bem, porque os epígonos de Herberto costumam ser meras caricaturas de Herberto.
O que mais impressiona neste livro é o seu tremendo fôlego lírico e o modo ávido como a escrita parece querer devorar a realidade palpável do mundo (através de um «feixe de sopros / e sons e olhos soltos»). Miguel Cardoso delimita desde logo um espaço poético: precário, ameaçado, sujeito a contínuos recomeços e «ténues colapsos». Um espaço que se desmancha e refaz no fim de cada estrofe, de cada poema, deixando de lado quaisquer ilusões de demiurgo: «Nem êxtase nem furor / nem devastação, nem nada. / Compõe ainda assim / como se houvesse».
Mais do que encontrar um sentido para as coisas, o que importa é a exploração do poder incalculável da linguagem, com as suas descontinuidades e abismos, parêntesis e cesuras, frinchas e nesgas, dobras e vincos. O programa é claríssimo: «trabalhar a espessura, a tracção subtil». Como? Trazendo «as palavras de volta ao esforço», fazendo da «imprecisão» a «mais exacta ciência» e não tendo medo de assumir, em diálogo cifrado com outros artistas (Sophia acima de todos, mas também Cézanne e as suas paisagens), uma espécie de vertigem: «A nós coube-nos a desmesura». Mesmo se a desmesura acaba por não conduzir a lado nenhum: «É preciso arrumar os despojos, correr as persianas. / Tenho agora o rosto em ruínas, a voz mais branda, // As mãos desfocadas. Esqueci-me dos caminhos / Onde procurámos o distraído ruído dos outros.»

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no número 94 da revista Ler]

2 x Francesca Woodman

Eis uma das vantagens do Facebook: descobrir que o Miguel Cardoso (ver post anterior) faz anos hoje (parabéns!) e que também tem um poema sobre a Francesca Woodman guardado para um livro futuro (encontrei-o num comentário a uma imagem da fotógrafa norte-americana). Digo também porque escrevi um poema sobre Francesca Woodman no meu primeiro livro, Nuvens & Labirintos. E para celebrar a coincidência junto aqui os dois poemas:

FRANCESCA WOODMAN

Uma rapariga
que roda
a cabeça
na sombra
e os pés
no bordo
tremendo
da madeira
desfoca
o centro do amor.
Uma rapariga
que enrola
as tripas
na luz
que afaga
as paredes
e roça
os vestidos
nas costuras
das casas
cristaliza
o poroso poder
do cimento
Uma rapariga
que ventoinha
nua
mostra
os dentes
e traça
quadrados
de arame
no ar
enrodilha
os corpos
no medo.

Ah como a carne
saltita
macilenta
nas fotografias
e como é bom saltar
à corda
sobre sombras.

O tempo sustém
roupas e cabelos
com pinças delicadas.

Não é fácil fingir que se paira,
que não se vai morrer.

Pode-se acreditar nos lugares
onde uma rapariga adia o corpo mortal,
nos lugares onde a pele chupa a luz
e se afunda no umbigo
dos lugares.

Pode-se acreditar no reverso
dos corpos, no negativo aguçado
do lugar que nos foi dado.


Miguel Cardoso (inédito)

RETRATO [FRANCESCA WOODMAN]

Antes da morte, houve ilusões de óptica:
a geometria interior do medo, espelhos,
flores barrocas, casas que são corpos em
ruínas e a janela violenta, temível, aberta.

Antes da morte, houve súbitas revelações:
espanto, dor, luz vermelha, molas da roupa,
tantos gestos a meio caminho, eclipses, fugas,
talvez já este olhar que atrai todas as sombras.


José Mário Silva

Quatro versos de Miguel Cardoso

«Coube-nos começar, mas não do princípio.
Coube-nos amarfanhar todos os mapas
(Ainda que os tenhamos desenhado
a canivete, ao de leve, na palma das mãos).
»

[in Que se Diga que Vi como a Faca Corta, Mariposa Azual, 2010]

Lançamento de ‘Que se diga que vi como a faca corta’

É mais uma revelação de 2010, na poesia portuguesa contemporânea: Que se diga que vi como a faca corta, de Miguel Cardoso (edição Mariposa Azual). O lançamento do livro acontecerá hoje, ao fim da tarde (19h00), na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa. Alguns dos poemas serão lidos pelo autor e por Nuno Moura. Num mundo como deve de ser, a presença não seria facultativa. Como este não é um mundo como deve de ser, há quem deixe o aviso: «Aqueles que estiverem de papo para o ar na praia, estejam atentos aos aviõezinhos de propaganda com frases admoestadoras.»
O convite electrónico saiu assim:

que_se_diga

Um bocadinho confuso (demasiado texto) mas com uma imagem que capta, vim a descobrir, a biblioteca de poesia de Miguel Cardoso. Um consolo, isto de saber que não sou o único feliz proprietário de Billys brancas, ajoujadas e caóticas.

Uma ‘canção para voz e lâmina’ de Miguel Cardoso

Ensina-me a revirar a língua.
Mas não tão subitamente.

Preciso destas poeiras e ventos
(e não só para que me arranhem)

Ensina-me o vagar da língua
que não estranha as estranhas ranhuras
da saliva ou o assobiar do respirar
nos contornos murmurados
do cinzento, a inclemência
dos objectos lisos nas escuras câmaras
da minha lucidez. Sôfregas,
mundanas.
O incalculável, sobretudo.
A ressaca de estar tão rente
ao presente, de ter as têmporas tão
enroscadas em mim.

Ou lá o que é isto.

Ensina-me o canto que verga
incomodamente a excitação da língua.
O que é certamente uma maneira
de apressar a reticência do futuro.

Ensina-me esse mastigar
só com a sua ondulação de músculo
e porventura a refinar
o cuspo azedo que fabrico.

São ensaios.
Para ir treinando a urgência.

Guardarei os dentes para outras tarefas,
outros verbos, sentidos menos restritos.

Ensina-me uma língua
que arranhe.
É só isso.

Como cambalhotas no asfalto:
felizes, ainda que necessárias.

Mais: que arranhe o próprio arranhar.
Uma língua
como a falam os homens
mesmo que nem sempre o saibam
(que eu o saiba e o não saiba
ao mesmo tempo)

Como a cospem
os que vezes sem conta cuspiram
o belo, porque era levemente implacável.
Como aqueles a quem foi ensinado
que as horas que assim
suaves batem as certezas
nos agarram a este solo
e que essa é a única canção.
Todos eles têm outro obscuro
canto a assobiar entredentes.

A voz em esforço
pois passa esfolada e indecisa
um pouco pelas frinchas do necessário
– a ele voltamos sempre
ao espreitar pelas nesgas da raiva.

Dizem-me que a língua
pertence ao obscuro e húmido.
Ou vice-versa.
Que os poetas portanto a têm
particularmente retorcida
e golpejada pelas sombras.
Mas não é isso:
que se foda a língua dos poetas.
As suas pregas dão-se mal com o meio-dia.
Eu dou-me mal com estes dias
mas insisto em lhes lamber o pó.

Ensina-me a lamber o pó
de outra maneira.

Quero a língua de todos
os aflitos, as espirais toscas
da lâmina desvairada que é o mundo.

Areja-a ao sol,
contorce-a sob a luz
desatina-a para que encontre
a fala desencontrada.
O torcer esforçado
que se esgueira pelos lugares
que nos deu este tempo.

Ensina-me a dobrar a dor
a estirar o corpo e o embaraço
dos gestos quase possíveis
Nesta língua, neste prenúncio
zumbido de quase futuros.

Ensina-me, musa, a música impraticável

[in Que se Diga que Vi como a Faca Corta, Mariposa Azual, 2010]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges