O novo Kindle, segundo Miguel Esteves Cardoso

Excerto da crónica de MEC, hoje no Público:

«O Kindle é sumptuosamente cinzento e preto. Não há grafismo, não há ilustrações – vai tudo a direito, como num livro. Parece uma máquina muito antiquada para ler textos. Não é para quem não gosta de ler.
Um iPad é um computador de colo colorido e brilhante. Um Kindle é como um livro de capa dura, com páginas pequenas e letras grandes. Lê-se ao sol e não reflecte nem emite luz nenhuma, descansando os olhos e a cabeça.
(…) A grande vantagem deste novo Kindle sobre o anterior é ser fácil carregá-lo de pdfs e lê-los com maior nitidez do que outros leitores de e-books. O meu velho BeBook, lamento dizer, morreu de vez.»

Destaques da leitura matinal

Estão ambos nas colunas de opinião do Público:

«É como uma nuvem, a História: gigantesca e cheia de delicadeza. Uma coisa grande que parece mudar lentamente; mas distraímo-nos e já está inteiramente diferente. Uma nuvem agora é cinzenta e anuncia tempestade, logo depois é de âmbar e deixa passar raios de sol, um crepúsculo tonaliza-a de ocres, laranjas e rosas como um fresco de Tiepolo.
Peguem em quaisquer cinquenta anos da História da Europa, do século XVIII até hoje. Em nenhum dos casos, um europeu de 1780 imaginaria 1830, ou um de 1905 julgaria 1955 possível, ou o de 1960 acreditaria em 2010. Desfaz-se império, nasce país, há guerras quentes e guerra fria, ergue-se muro, cai muro.»
Rui Tavares

e

«Nunca tive coragem de experimentar as drogas duras (que devem ser boas demais), nem paciência para aturar as moles (que não são suficientemente boas). As minhas drogas foram sempre as moderadas: as centrais; as divertidas; as que sabem bem; as que ajudam a trabalhar; as que nos matam sem darmos por isso.
O mar português é exactamente como uma dessas drogas – a cocaína; o álcool; as anfetaminas. É um perigo e um prazer. Faz medo mas faz bem. Mata bastante mas dá-nos sempre uma sensação de viver. O engano de acharmos que começou a época da praia é como o feitiço da toxicodependência. É uma estupidez profunda da qual temos consciência mas nem por isso nos liberta.
Bem-vinda seja, a traidora.»
Miguel Esteves Cardoso

Uma frase à MEC, escrita pelo próprio

«Desejo sinceramente que a Leya se foda.»

Assim termina a crónica assinada hoje por Miguel Esteves Cardoso, no Público, a propósito da transformação em pasta de papel de muitos milhares de livros editados pela ASA (entre os quais obras de Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço e Vasco Graça Moura).
O texto completo pode ser lido aqui.

Encher páginas

A 4 de Janeiro de 1991, nos tempos áureos de O Independente, Miguel Esteves Cardoso assinou uma daquelas crónicas que só ele tinha coragem, lata, génio, discernimento ou falta de vergonha na cara para fazer. O texto intitulava-se 1991. Calendário da Depressão (lembro-me bem dos pormenores porque a vi recentemente emoldurada numa casa particular) e começava assim: «um de janeiro. depois, dois de janeiro. depois, três de janeiro. depois, quatro de janeiro. depois, cinco de janeiro. depois, seis de janeiro. depois, sete de janeiro.»; etc. Um etc. que ia até ao final de Dezembro: «depois, vinte e oito de dezembro. depois, vinte e nove de dezembro. depois, trinta de dezembro. depois, trinta e um de dezembro.» Lembrei-me dessa crónica ao folhear, ontem à tarde, o último romance de Douglas Coupland editado em Portugal: jPod (Teorema), uma «versão de Inforscravos para a geração Google», escrita de forma a replicar as experiências de leitura na Web 2.0. Imperam por isso as brincadeiras gráficas: listas para todos os gostos, caracteres chineses ampliados, variações sobre a linguagem das mensagens de spam, etc. Às tantas, a meio da história, passada numa empresa de videojogos, alguém se lembra de enviar aos colegas os cem mil primeiros dígitos do número pi: 3,141592653589793238462643383279502884197169, etc. Um etc. que se estende por mais de 20 páginas, logo seguido por outra série de algarismos, desta vez gerados aleatoriamente, que ocupam outras 21 páginas.
Enfim, tudo isto pode parecer gratuito ou uma mera provocação pós-moderna, mas prefiro os desaforos do MEC e de Coupland às páginas cheias de trabalhosa e trabalhada palha com que muitos esforçados cronistas e romancistas nos contemplam.

E eu assino por baixo

«Ler é a melhor forma de conhecer alguém. (…) Passo 15 horas por dia a ler. Consegui organizar a minha vida para que possa ler tanto, mas não posso ler tudo. (…) Quanto mais precisas para viver, mais tens de trabalhar e menos tempo tens para ti. O maior dos luxos é o tempo. O tempo é o meu maior património.»

[Miguel Esteves Cardoso, entrevistado por Fernando Esteves, na edição de hoje da revista Sábado]

MEC (preview)

As primeiras 24 páginas do novo livro de Miguel Esteves Cardoso, Em Portugal Não Se Come Mal (Assírio & Alvim), podem ser lidas aqui.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges