Um espanto oculto

Ensinar o Caminho ao Diabo
Autor: Miguel-Manso
Editora: edição de autor
N.º de páginas: 95
ISBN: 978-989-96644-2-5
Ano de publicação: 2012
Avaliação: 8/10

Um lugar a menos
Autor: Miguel-Manso
Editora: edição de autor
N.º de páginas: 90
ISBN: 978-989-96644-1-8
Ano de publicação: 2012
Avaliação: 7/10

Colocado voluntariamente à margem do mundo editorial, Miguel-Manso é um caso singular na literatura portuguesa contemporânea. Desde 2008 vem publicando, a expensas próprias, os seus livros de poemas: volumes simples, brancos, com grafismo sóbrio e paratexto fotográfico, uma série em curso (são já cinco) que o poeta apelidou «Os Carimbos de Gent», porque nas capas são reproduzidas imagens de carimbos comprados numa loja de velharias daquela cidade belga. Embora razoavelmente diferentes entre si, os livros partilham um mesmo tom, uma escrita atentíssima à pulsação caótica do mundo, pródiga em «entusiasmos verbais», em «proezas de linguagem», e com uma certa queda para as palavras raras (um verdadeiro festim para quem gosta de vocabulário arcaico, daquele há muito enterrado no fundo dos dicionários). Com edição simultânea, Um Lugar a Menos e Ensinar o Caminho ao Diabo são as obras mais recentes de Manso, confirmando as qualidades que já lhe reconhecíamos nos três primeiros livros.
Um Lugar a Menos é composto por algumas dezenas de textos curtos, em prosa, parágrafos bem lapidados que estão mais perto da reflexão aforística do que do lirismo. O título é um trocadilho com o locus amoenus, tópico da literatura clássica, mas os lugares que aqui se revelam e questionam são os da própria escrita, na sua difícil tarefa de olhar pela janela «os vestígios do mundo» e esconjurar a paisagem. Afirma Miguel-Manso: «A qualquer poemário devemos atribuir uma estrutura que permita todas as perplexidades.» É o que acontece neste livro exigente, umas vezes opaco, outras irónico (a variação de Cesariny para autarcas: «Ama como a rotunda começa»), outras tangencialmente próximo da realidade quotidiana (a história da mulher que esteve nove anos morta em casa). «Que o texto seja não o texto consumado mas o caminho para a consumação do texto», sugere o início de um dos fragmentos. E os outros fragmentos obedecem-lhe.
Menos hermético, Ensinar o Caminho ao Diabo é o livro de um poeta nocturno e invernal, um flâneur que «caminha de um lugar que não sabe / a um lugar que não pode», saltando de cidade em cidade (Lisboa, São Paulo, Londres, Évora, Veneza), rabiscando versos e suas cicatrizes («o caderno é a máquina fotográfica»), em busca do «espanto oculto» do poema, esse amontoado de palavras em deslocação que «é a coisa mais triste que há». Coisa triste mas necessária, capaz de dizer tudo com quase nada. Como prova este dístico escrito no Mindelo, Cabo Verde: «estão a construir um bar / e começaram pela música».

[Texto publicado no n.º 113 da revista Ler]

Vamos lá ajudar os irmãos Manso

Apelando ao crowdfunding, João e Miguel Manso (poeta também conhecido como Miguel-Manso) vão tentar produzir, rodar e montar um primeiro filme (documentário) para o qual ainda não têm as verbas necessárias. O projecto intitula-se Bibliografia e está todo explicadinho aqui.

Ajudem, ajudem como puderem, porque acho que temos aqui em preparação um magnífico «naufrágio».

Quatro poemas de Miguel-Manso

ANTIMUNDO

Para o João Diogo

plágio manhoso do big-bang
a matéria do poema expande, arrefece
tão estranhamente se demora e permanece
semelhando o Universo

o poema é a imagem-espelho de um corpo
sem reflexo: a poesia

oco assimétrico, residual desse princípio
colocada em lugar dubitativo, separada quase sempre
do buraco negro a que chamam literatura

poder-se-á supor que poucos são os poetas
capazes de acelerar partículas
de modo a ver-se não só o que a luz já percorreu
mas a região mais central do nada, o pátio
furioso da potência

e neste lugar de substâncias, de objectos
as palavras são figuras do imundo, coisas que
sobraram do estampido inaugural desse ‘dia inicial inteiro
e limpo’ que culminou no lugar a menos deste texto
breve logaritmo sem aplicação ou saída

resta ao poeta o embuste
de afirmar o que propende para o infindo
espiar o acesso que cada coisa consente pela fissura do milagre
e dá pelo nome de imprevisto, ou acidente

a criança na rua abrindo o caixote do lixo
onde alguém sem saber depositou o assombro de um
balão de hélio branco ainda cheio
que se soltou e subiu à laia de lua ao fim da tarde
ao pé de casa

a criança pasmou, entristeceu depois
mais tarde lembrou-se: ‘tens de escrever um poema sobre o balão
que voou do lixo e não agarrámos’

um poema é a coisa mais triste que há
e escrevi

***

PIAZZA SAN MARCO – ACQUA ALTA

às Musas não interessam
drenagens, deixam alagar livremente
com o que sobrevém: a água do instante
subjectivo

quando o poeta era uma fera luminosa
e Veneza, sobre a laguna, a porta para o Levante
com seu tráfego de peregrinos imateriais – que também traziam
as laranjas douradas, a seda, a musselina
porcelanas, aço, pimenta
incenso e alívios

a cidade detinha um colégio de sábios
que sabia, em dialecto próprio, ser a magia
este palácio mergulhado nos silêncios
meio submersos

e que apenas a ciência da leitura paulatina
poderá ser o escafandro glotal e sinal que soltará
da grosseria eloquente

o espanto oculto do poema

***

POEM NOT FOUND

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***

NEM TANTA COISA DEPENDE

preferes o canto, o lugar oculto
a folhagem, a sombra, o quarto, este
saco de trigo: ouro de um texto
sobre a velha escrivaninha do real

lá fora o clarão do arvoredo
atalhos para a tingidura da paisagem
cá dentro menos caminho, outro

panorama: a presença tão-só
desabitada de uma pessoa, mistério sem
atributo ou função

sempre a desfeita de um coração
o cultivo intensivo das figuras
e sobram tristeza e dias ao corpo que escreve
no calabouço de uma manhã muito larga

reluzente de gotas de mel
enquanto os gatos lambem o sábado
e sentado, sapo de ouro, permites-te pôr no mundo
(mas porquê) outro poema

[in Ensinar o Caminho ao Diabo, edição do autor, 2012]

Separados à nascença

Miguel-Manso

Herman Melville

Se me permitem

Quero apenas dizer que o último dos poemas de Miguel-Manso transcritos no post anterior (intitulado Na morte da avó) é um dos melhores que me foi dado ler nos últimos 365 dias. Ou mais ainda.

Quatro poemas de Miguel-Manso

TÚMULO

para uma compreensão
mineral do poema
permanecer sempre
no mesmo sítio

***

A BASÍLICA DE NOTRE-DAME DU SAINT-CORDON

Na cidade de Valenciennes, no norte de França, há uma pequena basílica do século XIX que mais parece uma peça de barro lambujada, ou um desses montinhos de areia molhada que erguemos à beira-mar. Tem o aspecto de um sólido que liquesce devagar, as arestas boleadas, os elementos esboroados, tudo ameaça desfazer-se a um breve tocar e não resta outra solução que não seja impedir as pessoas de entrar, esperar que de uma vez por todas o monumento se esfarele. A razão de tudo isto é evidente: o uso, na construção, de uma pedra imprópria para templos que se querem pelos tempos.
Olho a fotografia de dois amantes, abraçados, sorrindo-se, com a Notre-Dame de Valenciennes em pano de fundo. É o começo do Outono, a julgar pelas roupas, o chão molhado, a cor do céu. A basílica, creio, ainda lá está, nessa cidade desengraçada e triste que nenhum turista, com o juízo inteiro, se lembrará de visitar duas vezes. Demoliram primeiro que tudo os amantes.
À fotografia guardo-a de novo, mas agora mais fundo dentro da caixa.

***

A QUEDA

para a Catarina Barros

resta, de Agosto, esta fotografia
iluminada

onde tudo permanece ainda no lugar:
a boca no artifício dos sabores
a lentidão dos açúcares
mãos suadas dissipando pântanos
interiores
pernas brancas, vestido colado ao clima
dessas pernas
o cio vibrante do Astro, por cima
por baixo, umas sandálias

às primeiras evidências outonais
levantaram as esplanadas

***

NA MORTE DA AVÓ

não bastasse a humilhação pública de morrer
espera-se do corpo que cumpra com indiscutível
pompa o intolerável protocolo de ausentar-se

a penosa execução circular e nocturna do velório
a presença inconveniente dos agentes funerários
os adereços lutuosos a obscena maquilhagem

no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa
cerimónia (não há muito a dizer, sejamos honestos
e soa até a insulto que se pronuncie o nome de

Lázaro) o caixão é fechado, o dia põe-se bonito
– é quase tão imoral como alguém ter trazido uma
gravata com motivos facetos, uma camisa florida –

depois, em casa, parece que as vozes ressoam como numa
sala a que tivessem subtraído os móveis e houvesse, por isso
a estranheza de uma extensão desprovida, dissemelhante

o avô vai buscar as memórias da infância (por que
razão obscura omite ele as lembranças de casado?) há
na sua voz qualquer coisa de paciente melancolia

como se aceitasse, com constrangedora submissão, que
o tempo não se detenha nunca, que os anos nos empurrem
para um buraco na terra, nos sujeitem a tão bruta descortesia

a prontidão da morte, a ligeireza do tempo, a estupidez
da vida que nunca vai encontrar cura e razão para ela própria
contra tudo isso eu alardeio o poema, antecipo a derrota

[in Santo Subito, edição do autor, 2010]

Dois versos de Miguel-Manso

insisto no escusado, mal pago, fantasioso
exercício da beleza

Estão no novo livro, Santo Subito (edição de autor), do qual amanhã partilharei aqui três ou quatro poemas completos.

Moleskine do poeta

Miguel-Manso deixa que espreitemos os seus cadernos de apontamentos (desenhos, versos soltos), aqui, mesmo por baixo de uma frase do Cesariny. Um marujo ou a Vieira da Silva é um blogue, uma coisa a ganhar forma, mas «não será um site oficial». Ainda bem.

Três poemas de Miguel-Manso

MAREÓGRAFO

a folhagem
agita-se sobre os bastidores
deste texto

leio:
“quem passa o cabo Maleia abandona a pátria”
na esplanada do Príncipe Real a copa
oferece uma folha à mesa onde reúno ruína e Agosto
reorganizo a rota o plano de voos

belas são as rosas deste mês quente nas bermas
em todos os quintais das casas
na estrada para Góis
sobrevivem ao tráfego violento
dos motards

vejo-as excessivas junto ao lago do Jardim da Estrela
quando corro para o eléctrico que tardará como tu
nesta holocénica época da minha espera

dentro da noite

tomo nota de dispersas canções em guardanapos
palavras estrangeiras o comércio dos olhares
a água doce dos gestos o latido de um cão

Lisboa caminha em geral para o Oriente Próximo
do Outono

na mesa atrás alguém nomeia os sábios do Séc. XVI
esses que considerariam escandaloso o erotismo sonoro
da palavra Macintosh

leio hora a hora o desenho dos polígrafos
meço marés com o rigor nefelibata dos amantes
espalho na superfície interior dos lugares
barómetros, barógrafos, anemómetros

insisto em espiar o gelo da Antárctida
mas a vida segue o seu ciclo desmedido
na completa ignorância deste poema


CANÇÃO DO DIA 1 DE SETEMBRO

o jornalista
repara no mar que ali
se faz contra tudo (conta
tudo)

documento
reaberto não sei em que linha
texto em cima do

joelho apontado ao mar

ela diz: estou mesmo infeliz desde aqui

quem se lembraria de escurecer agora
que todos os risos explodem dentro dele
ela entorna o galão no jornal de sábado
felizmente nas páginas que já leu

no Jardim da Parada
o template do telemóvel mudou
para o desenho e cores do Outono
é dia 1 de Setembro

(uma manhã estranha como Camilo Pessanha)

repara na forma desajustada deste
poema cheio de adjectivação
impublicável calenda
sobre a qual os pássaros
ainda teimam alheios ao YouTube

ela recuou em transumância ao mês passado
para fumar outra vez contra o

grande
silêncio entrecortado pelo
bater do sino

o sinal horário
devolveu-lhe a clara substância pura
do sol de Agosto

dando no renque seco

dos carvalhos
pés sobre a terra
mãos aproximando-se do princípio
celestial das

roseiras

DESDE ARTAUD: UM E-MAIL

à décima noite em Paris
sonhei que viajava enfim para
Paris

chove
a noite entra na casa
na mesa de trabalho dois copos vazios de Suze
à frente de um poster de Artaud que demorei a
decifrar

à direita
um desproporcionado mapa-mundo onde
quase só há oceano (custar-te-ia crer também
no intricado jogo de palavras de um cartaz
na parede do lado esquerdo)

a imaginação
pode ser fatal
lembro a primeira frase de Os passos em volta
onde

querendo
se enlouquece

a estranha posição de um homem fotografado junto à
Torre de Saint-Jacques que se apresenta há muito
tapada em lento trabalho de restauro

há uma baleia perdida
subindo o rio Amazonas em direcção a quê

uma multidão em Bagdad rising from the
typewriter of William S. Burroughs

é tarde
a noite tomou esta sala de silêncio como se
fosse crude devagar pelo casco de um navio
no fundo do mar

escrevo-te desde Artaud até à saudosa
casa nos arredores de Amesterdão onde terás chegado hoje
uma casa que conheces bem onde sabes o lugar
dos pratos dos talheres a tonalidade

das estações nas janelas

a casa já não é tua mas
reconheces o conforto dos sofás
o prazer antigo de estar na sala
o avançar tímido da luz no soalho

como dizia
sonhei que viajava enfim
para Paris

falo de um tempo de espera
de um delay entre a matéria e a consciência
o éter o tempo em que vão cair as pétalas a

todas as palavras a
todas as palavras
a todas as
palavras

[in Contra a Manhã Burra, Mariposa Azual, 2009]

O guerrilheiro

Aos 29 anos, Miguel-Manso – com o hífen a tornar artístico o seu nome verdadeiro – veio agitar as águas algo paradas da poesia portuguesa. Dois livros em poucos meses, o primeiro em Maio de 2008 (Contra a Manhã Burra, edição de autor), o segundo em Novembro (Quando Escreve Descalça-se, Trama), mereceram elogios dos críticos do Expresso e deram-lhe o estatuto de revelação «segura». O que o próprio agradece, claro, mas não valoriza por aí além. Diz que a poesia lhe surgiu como um impulso, uma necessidade. «Tinha a urgência de escrever. Neste momento, é ao contrário: preciso de não escrever. Estou um bocado farto das minhas palavras e à procura de outra coisa.»
Quando veio para Lisboa, este ribatejano de Almeirim, nascido em Santarém, inscreveu-se em Design de Comunicação, mas faltava às aulas. Saltou para a Ar.Co, onde aprendeu desenho durante três anos. Abstractos, os seus traços começaram a ficar cada vez mais pequenos, em folhas cada vez maiores. Um dia, desapareceram completamente e com eles o desejo de desenhar. Foi então que surgiu a poesia, de que desistira uns anos antes, mas a que voltou de repente, quando se cruzou com a obra de João Miguel Fernandes Jorge e «houve um clique». Na altura, meados de 2006, Miguel-Manso escrevia em blogues: Largo do Karma e Rua Luxuriano, sucessores do Baixa-Shiatsu (o único que não conseguiu apagar, porque se esqueceu do username). «Foram o treino, em prosa, para a poesia», admite. Aberto o caminho, a escrita na Internet eclipsou-se, como se eclipsara antes o desenho. Agora não tem poiso na blogosfera, nem vontade de ter.

«Sou muito ansioso», diz o rapaz de barba antiga, cabelo revolto e casaco à Corto Maltese. Uma ansiedade que se reflecte no seu percurso profissional, se é que se pode chamar percurso profissional à sequência de trabalhos fugazes por onde passou como cão por vinha vindimada: bibliotecário em Odivelas, responsável pelo centro de documentação da galeria ZDB, vigilante no Museu do Chiado («é óptimo para ler, se não te importares de ler em pé»), tarefeiro na Ellipse Foundation (onde fez, «durante um período muito curto», o levantamento das obras de arte nas reservas) e porteiro do Hotel des Artistes da Casa d’Os Dias da Água («era óptimo: tinha um quartinho, com uma mesa para escrever, e só precisava de estar atento à campainha»).
Hoje, embora saiba que mais tarde ou mais cedo terá que arranjar um emprego normal, vive de biscates – como fazer textos para companhias de teatro independente – que lhe dão o pouco dinheiro de que precisa. «Moro numa casa de família, sem pagar renda. E abdico voluntariamente de grandes luxos. Cinema, só às vezes. O que gasto, gasto em livros.» Mesmo assim, quando quis acabar o primeiro volume de poemas, conseguiu ir para fora. Escolheu Paris, «único lugar onde tinha dois ou três sofás onde dormir». E lá passou parte do Inverno, a escrever na cozinha de um amigo, perto do canal Saint-Martin.
No regresso, com o dinheiro que sobrou da viagem (350 euros) pagou os 200 exemplares da edição de autor. Como está fora dos círculos literários, nem tentou publicar o livro numa editora estabelecida. «Interessava-me despachar a coisa.» E despachou-a, para logo dar início ao opus 2, que também reproduz na capa, como o primeiro livro, um carimbo comprado numa loja de velharias em Gent. A ideia é fazer uma série, justamente intitulada “Os Carimbos de Gent”, capaz de durar uns bons anos e chegar aos 12 volumes: «Tenho para lá mais uns dez carimbos que ainda posso usar.»
Dos seus dois livros, diz que são «cartas de amor». E são, de facto. Eis como termina um dos poemas:

«incorro em certos delicados actos de guerrilha
por exemplo deixo poemas em cafés ou em pequenas
livrarias que ainda apoiam em segredo esta causa

revolucionária
depois mando as coordenadas sigilosas à amada
que no dia seguinte quase sempre
pela tarde os vai buscar
»

O título do poema é O PREC em 2008 mas não há nele ponta de ironia. «Acredito mesmo nisto como causa revolucionária e deixo mesmo poemas em cafés para a minha amada.»

[Perfil publicado no suplemento Actual, do Expresso, em Janeiro de 2009]

Uma baleia subindo o rio Amazonas

Eis a explicação, em jeito de prefácio, que Miguel-Manso resolveu introduzir na nova edição, pela Mariposa Azual, do seu primeiro livro, Contra a Manhã Burra:

«UMA BALEIA SUBINDO O RIO AMAZONAS

Usei num destes poemas uma imagem roubada a uma notícia lida na imprensa. Dava conta de uma baleia encontrada a mais de mil quilómetros do oceano Atlântico, no coração da Amazónia. Volto à baleia, antepondo-a como introdução a esta 2.ª edição, para me apropriar da metáfora e com ela indicar com um pouco mais de precisão as minhas coordenadas actuais.
Assinalo a imponderabilidade desse trajecto, o erro estreito, rigoroso, o desnorteio, a morte por encalhamento num banco de areia do rio Tapajós, como se no coração das trevas – “Oh! Estas minhas incorrigíveis alusões culturais” – quem sabe se por acidente ou por intenção, a água doce, as surpresas ribeirinhas. Reparo só agora, voltando à notícia, que a cidade brasileira mais próxima (150 km) tem o nome de Santarém.
Não passou um ano entre a publicação deste primeiro livro, em edição de autor, e a sua reedição. É por isso difícil posicionar-me perante ele. Inclino-me, para já, para um crescente desassossego, antevendo cada vez maiores reservas face a alguns destes textos. Dizem-me que é bom sinal. O que talvez não o seja é dar por mim em um eirado para o qual não vinha preparado: o da poesia portuguesa.
Nesta edição levei a cabo a amputação do primeiro texto. Pareceu-me, como se diz em botânica (ou em jardinagem?) que esse poema, de um verso só, cresceu ali como um “ladrão”, termo que designa o rebento, ou a ramada, que se avantajou demasiado em relação à uniformidade da copa e lhe suga a seiva. Afinei depois um ou outro verso, corrigi alguns delitos e retirei a maior parte das notas, deixando apenas aquela que faz referência à minha descoberta de Alî Quli Jabbedâr.
Passou quase um ano, há um livro de permeio, o desconforto progride. Mas sinto-me – até eu, também eu – capaz de me declarar solidário com estes poemas.»

Como quem não quer a coisa, fui à primeira edição resgatar o tal poema amputado. É este:

N.º 0

sonho japonês néon reflectido em vidro duplo e mar

Miguel-Manso nas Quintas de Leitura

É hoje, na última sessão das Quintas antes das férias: “Quando escreve descalça-se” (título do segundo livro do poeta). Para além de Miguel-Manso, que falará com Helena Vieira (da editora Mariposa Azual, que acaba de reeditar o primeiro livro: Contra a Manhã Burra), passarão pelo auditório do Teatro do Campo Alegre (Porto), a partir das 22h00, Pedro Lamares, Isaque Ferreira e o também poeta Nuno Moura, que lerão 20 poemas; Elisabete Magalhães (dança); Filipa Francisco e Bruno Cochat (performers); e o músico B Fachada, que «apresentará ao piano, à guitarra e à viola braguesa, canções do seu último disco, Um Fim-de-semana no Pónei Dourado».

Miguel-Manso nas ‘Quintas de Leitura’

O poeta Miguel-Manso é o convidado principal da próxima sessão das ‘Quintas de Leitura’, que acontecerá a 9 de Julho, pelas 22h00, no Teatro do Campo Alegre (Porto). Além de uma conversa entre o autor de Quando Escreve Descalça-se e Helena Vieira, haverá leitura de poemas (por Isaque Ferreira, Nuno Moura, Pedro Lamares e pelo autor), uma performance de Filipa Francisco e Bruno Cochat, concluindo-se o espectáculo com um pequeno concerto de B Fachada (voz, viola e viola braguesa).

(Re)lançamento

Um palco para gestos simples

Quando escreve descalça-se
Autor: Miguel-Manso
Editora: Trama
N.º de páginas: 91
ISBN: 978-989-20-1403-6
Ano de publicação: 2008

Ao publicar dois livros num intervalo de poucos meses, primeiro Contra a Manhã Burra (edição de autor, Maio de 2008) e logo depois este Quando escreve descalça-se (Trama, Novembro de 2008), ambos com tiragens baixíssimas, Miguel-Manso (n. 1979) conseguiu dar um safanão valente na algo amodorrada poesia portuguesa, que há muito não assistia a uma estreia com tanta qualidade e potencial.
Circunscrever este autor não é fácil, tão vasto se revela o espectro dos seus temas e modos de escrita, mas há pelo menos três características que se mantêm de um livro para o outro: 1) o diálogo frutuoso com outros autores (agora Cesariny, Cortázar, Sebastião Alba e, sobretudo, Ruy Belo); 2) a desconcertante arquitectura dos poemas e a sua respiração; 3) uma irónica desconfiança quanto ao lugar que a poesia ocupa na incerta ordem das coisas. Vale a pena determo-nos neste último ponto, porque Miguel-Manso insiste numa espécie de sabotagem sistemática do seu próprio discurso. Na página 19, por exemplo, refere-se ao «erro juvenil que é fechar um poema / com a palavra morte», quando é precisamente com a palavra «morte» que fecham o poema da página anterior e também o da página 65. Outras vezes, o sujeito poético dirige-se directamente ao leitor, aconselhando-o a avançar «para o poema seguinte / sem grandes remorsos».
Esta aparente descrença tem qualquer coisa de paradoxal, pois coexiste com a noção do poder infinito das palavras, capazes de explosões líricas que abalam os próprios alicerces do universo (veja-se o poema cosmogónico sobre a «presença volátil da amada»). Seja a descrever um café húngaro ou uma aldeia ribatejana, as tainhas de Veneza, uma melodia ouvida no auto-rádio ou o fragmento de um diário inventado, Miguel-Manso procura sempre a beleza que há nas ruínas. Aqui e ali, a sua perícia vocabular descamba em virtuosismo gratuito («o nímio céu nimbou de pez o nimbífero dia») ou em versos tão cifrados que se tornam inacessíveis. Os melhores poemas, pelo contrário, são «um palco para gestos simples», até porque «o poeta trabalha com o que tem // um muro com hortênsias / ao fim da tarde um punhado de / estrelas sobre a baía».

Avaliação: 8/10

[Texto publicado no n.º 79 da revista Ler]

Três poemas de Miguel-Manso

POEMETO

O paradoxo de fermi
a hipótese da terra rara
o poeta trabalha com o que tem

um muro com hortênsias
ao fim da tarde um punhado de
estrelas sobre a baía

ainda assim
a poesia é aquilo que neste
desalinho todo se apresenta

tão exacto como a morte

CADERNO DO PORTO VELHO

escrevo o espaço que vai das
tuas mãos ao renque de alfazemas
sombra aprendida em aromáticos versos

desconheço ainda esta cidade
depois de tantos anos
mas aprecio

pela tarde o lento rir das áleas
avenidas de timbre meridional
casas onde ainda se pode descascar a fruta

atirar a casca para um alguidar partido
e onde na trégua do calor maior as crianças costeiras
tomam o alcatrão das ruas a areia das praias

rompem este silêncio de vagar portuário
de palavras como ruína que envolvem
o sentido do que escrevo

as tuas mãos ou o espaço que vai das
tuas mãos ao renque de alfazemas


O PREC EM 2008

o deus Silêncio ostenta as Inumeráveis
águas nesta apertada livraria de Lisboa
também ainda o primeiro título (poesia) de Manuel
António Pina em ano de revolução que

nesse tempo eram mesmo
a sério as revoluções e podíamos acrescentar-lhes pela rua
o nosso carme as madrugadas flores

agora um amigo diz-me: “esta
revolução não dá um passo!”

concedo, mas não desisto

incorro em certos delicados actos de guerrilha
por exemplo deixo poemas em cafés ou em pequenas
livrarias que ainda apoiam em segredo esta causa

revolucionária
depois mando as coordenadas sigilosas à amada
que no dia seguinte quase sempre
pela tarde os vai buscar

[in Quando escreve descalça-se, Trama, 2008]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges