Quatro poemas de Amy Lowell (traduzidos por Miguel Martins)

MÚSICA

O vizinho está sentado à janela tocando flauta.
Da minha cama consigo ouvi-lo,
E as notas suaves agitam-se e tamborilam pelo quarto,
E entrechocam-se,
Esbatendo-se em acordes inesperados.
É muito belo,
Com as pequenas notas de flauta à minha volta,
No escuro.

Durante o dia,
O vizinho come pão e cebola com uma mão
E copia música com a outra.
É gordo e tem a cabeça careca,
Pelo que não olho para ele,
E passo a correr frente à sua janela.
Há sempre o céu para olhar,
Ou a água no poço!

Mas quando chega a noite e ele toca a sua flauta,
Penso nele como um jovem,
Com medalhas de ouro pendendo do relógio,
E um casaco azul com botões de prata.
Deitada na minha cama,
As notas de flauta encostam-se-me aos ouvidos e aos lábios,
E adormeço, sonhando.

***

PROPORÇÃO

No céu há uma lua e estrelas,
E no meu jardim há mariposas amarelas
Agitando-se em torno do arbusto de azáleas brancas.

***

O RETIRO DE HSIEH KUNG POR LI T’AI-PO

O sol está a pôr-se – pôs-se – na Montanha Verde-Primavera.
O retiro de Hsieh Kung está solitário e quedo.
Nenhum som humano no campo de bambu.
A branca lua brilha no centro do lago do jardim abandonado.
À volta da Casa de Verão desabitada há relva apodrecida,
Musgo cinzento abafa o poço em ruínas.
Há, apenas, o vento livre, claro
Uma vez e outra passando sobre as pedras da fonte.

***

UMA OFERENDA QUEIMADA

Porque não havia vento,
O fumo das tuas cartas pairou no ar
Por muito tempo;
E a sua forma
Era a forma do teu rosto,
Minha Amada.

[in revista Telhados de Vidro, n.º 14, Setembro de 2010]

Um poema de Miguel Martins

IGNIS FATUUS

Vem a lume uma ideia luminosa
um chá de lúcia-lima fumegante
inalação de folhagem capitosa
num bule de feldspato crepitante

Disfarçada de paz fortificante
de miasma benigno, inspirativo
é a estultícia que naquele instante
rebrilha num fogacho transitivo

É o Futuro que pede, apreensivo
um cisma com as crenças abaladas
uma balada ao coração cativo
dos sismos e dos contos-de-fadas

que são suas madrastas desveladas
numa fumigação protelatória
da descoberta das portas encerradas
em chaleiras sem mago, sem memória

do aprisionamento nessa história
em que um afago acendia um fogo
que num segundo alcandorava à glória
uma vitória assegurada ao jogo

Mas na derrogatória a nosso rogo
restolha uma seara, seca a fonte
por se encontrar, apenas, muro e mogo
onde tanto aguardou o horizonte.

[in O Taberneiro, Poesia Incompleta, 2010]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges