Um ensaio bicéfalo

Nova Teoria do Mal
Autor: Miguel Real
Editora: Dom Quixote
N.º de páginas: 185
ISBN: 978-972-20-4895-8
Ano de publicação: 2012

Professor de Filosofia no ensino secundário, Miguel Real foi escrevendo nos comboios da linha de Sintra («entre as negras suadas dos serviços de limpeza dos escritórios de Lisboa») esta Nova Teoria do Mal. Nascido de um agudo «sentido de revolta» diante do que se está a passar no nosso país, assolado pelo descalabro económico, pela traição das elites e pela brutal austeridade imposta de fora, o livro começa por ser um grito de alerta de pendor humanista (nas 14 páginas da «Apresentação»), transformando-se depois numa densa e por vezes fastidiosa abordagem estritamente filosófica à questão do «Mal».
É duvidoso que o leitor entusiasmado com a emoção panfletária inicial aprecie os vagares do processo analítico (o labirinto teórico de alíneas e sub-alíneas que atravessa a obra). Em si mesmas, as teses recapitulam conceitos conhecidos: o «mal» como substância do universo, enquanto o «bem» é «acidental» e «provisório»; o primeiro assumindo «o centro ontológico», relegando o segundo para «a periferia»; e a Política como instrumento que não visa «fazer o bem», mas antes «evitar, prevenir ou minimizar o mal».
Para o autor, a humanidade tem vivido uma «fase infantil e bárbara», fruto do falhanço das «éticas cristã e mercantilista», mas passível de ser redimida por uma «fase adulta» em que o «sentimento do sagrado» se deslocaria do antropocentrismo para o «biocentrismo». A fundamentação deste novo paradigma, porém, é escassa, para não dizer nula. Na pele de cidadão inquieto com o estado de um «país sonâmbulo» e a precisar de quem o acorde, Miguel Real é talvez excessivo mas pertinente. Como filósofo, seria de esperar outro arcaboiço ideológico, além de uma maior robustez argumentativa.

Avaliação: 6/10

[Texto publicado no suplemento Actual, do semanário Expresso]

Primeiros parágrafos

«Rachando o alcatrão, massas esverdeadas de ferro, de mira apontada para a madrugada, sulcavam as ruas irregulares de Lisboa, escoltadas por cáfilas desordenadas e esfuziantes de braços endemoninhados, gargantas ululantes festejando a Revolução, viva a revolução, viva a revolução, viva a revolução, clamava-se, os tanques cobriam-se de mãos ofertando cravos vermelhos aos soldados, que, desarvorados, as mãos libertas, prevenindo possíveis ataques, os depunham na ponta das espingardas inactivas, empregados de escritório recatados faltavam ao trabalho, soltando impropérios velhacos contra antigos patrões, caixeiros de armazém, despidos das batas azuis de ganga, juravam vingança sobre humilhações recalcadas, um oficial das finanças, atarracado e corcovado, vociferava de punho alçado e pernas tensas contra o malvado capitalismo, filho da injustiça e neto da opressão, pai da desigualdade, bancários pernaltas e janotas, de calças à-boca-de-sino, ameaçavam entregar o dinheiro da “caixa” ao povo explorado, professores, de boca salivada, óculos pretos quadrados e longa cabeleira suja, praguejavam contra os reitores dos liceus, hospedeiras da TAP denunciavam os comandantes, relembrando abusos na pernoita de hotel, operários siderúrgicos, as mãos apretalhadas de fuligem, sequestravam os administradores em salas alcatifadas, apaineladas a folha de nogueira, furtando-lhes o whisky e o gin do minibar, jornalistas descobriam inesperadamente a verdade, exponda-a em títulos matinais para educação do povo, cobradores de impostos recusavam receber o dinheiro dos contribuintes, reclamando justiça do Estado, soldados despromoviam capitães e capitães generais, alunos ocupavam a sala de aula, operários as fábricas e famílias casas vagas, sindicalistas apoderavam-se do aparelho produtivo e comissões de trabalhadores de indústrias e máquinas, ceifeiras invadiam propriedades agrícolas e os passageiros autocarros, comboios e cacilheiros, reinvindicando-os para o povo, doentes controlavam os hospitais, professores as escolas, trabalhadores as empresas, soldados os quartéis, marinheiros os navios, mercantes e de guerra, e o povo todo o País, Portugal era do povo como o ar do céu, a água do mar e as árvores da terra.»

[in As Memórias Secretas da Rainha D. Amélia, de Miguel Real, D. Quixote, 2010]

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges