Prognóstico

Eis a minha aposta para vencedor do Prémio Nobel de Literatura 2014:

kundera

Milan Kundera

Heróis sem filhos

«É ao reler Cem Anos de Solidão que me ocorre uma ideia estranha: os protagonistas dos grandes romances não têm filhos. Só um por cento da população não tem filhos, mas pelo menos cinquenta por cento das grandes personagens romanescas chegam ao fim do romance sem se terem reproduzido. Nem Pantagruel, nem Panurgo, nem Dom Quixote têm progenitura. Nem Valmont, nem a marquesa de Merteuil, nem a virtuosa Presidenta das Ligações Perigosas. Nem Tom Jones, o mais célebre herói de Fielding. Nem Werther. Nenhum dos protagonistas de Stendhal tem filhos; acontece o mesmo com muitos dos de Balzac; e de Dostoievski; e, no século que recentemente chegou ao fim, Marcel, o narrador de Em Busca do Tempo Perdido, e, como é óbvio, todas as grandes personagens de Musil, Ulrich e a irmã, Agathe, Walter e a mulher, Clarisse, e Diotime; e Chveik; e os protagonistas de Kafka, com excepção do muito jovem Karl Rossmann, que engravidou uma criada, mas é precisamente por isso, a fim de esquecer o filho da sua vida, que foge para a América, e que o romance pode desenvolver-se. Esta infertilidade não resulta de uma intenção consciente dos romancistas; é o espírito da arte do romance (ou o subconsciente dessa arte) que abomina a procriação.»

[in Um Encontro, de Milan Kundera, trad. de Isabel St. Aubyn, Dom Quixote, 2011]

Kundera na Pléiade

Em breve, Milan Kundera vai tornar-se o único escritor vivo a constar na colecção La Pléiade, da Gallimard. Mais do que o Nobel, isto sim é a glória literária.

Kundera e o passado

Um historiador checo, Adam Hradilek, acusa Milan Kundera de ter denunciado às autoridades comunistas, em 1950, Miroslav Dvoracek, um agente secreto que trabalhava em Praga ao serviço dos norte-americanos. O escritor, chocado, nega veementemente as acusações e garante que tudo não passa de um «assassinato de carácter».
Até agora, o ónus da traição recaía numa mulher, Iva Militka, hoje com 79 anos:

«”The feeling I had to live with afterwards was dreadful,” Militka told Hradilek. According to his research Militka told her boyfriend and future husband, Miroslav Dlask, not to visit her that evening as Dvoracek would be with her. He passed the information onto Kundera, who allegedly passed it onto the police. Kundera, argues Hradilek, possibly needed to curry favour with the communist authorities in order to get into the Prague Film Academy, where he studied.»

E aqui eu vejo um embrião de ficção romanesca, mesmo ao jeito, bom, mesmo ao jeito do próprio Kundera.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges