Negócios de fim de ano

Não foi só Miguel Pais do Amaral que esteve activo na recta final de 2007. A Bertelsmann, que já detém o Círculo de Leitores e a Bertrand, também anunciou ontem a compra da Pergaminho (editora que há umas semanas deu tampa a Pais do Amaral). Falta, para fechar o ciclo dos negócios anunciados, que a Explorer Investments confirme a aquisição da Gradiva.

A notícia mais esperada

Finalmente, ficou tudo preto no branco. A compra da Dom Quixote por Miguel Pais do Amaral, sem sombra de dúvida o negócio do ano, deixou de ser mera especulação.
Embora ainda se desconheça por que verbas foi selado o acordo, vale a pena ler alguns excertos do comunicado de imprensa:

O Grupo Editorial de Miguel Pais do Amaral fechou hoje, ao final da manhã, a aquisição da editora Dom Quixote ao grupo editorial espanhol Planeta, a quem a empresa tinha sido alienada em 1999. Esta aquisição vem completar o portfólio de empresas editoriais adquiridas por Miguel Pais do Amaral em 2007, processo que teve inicio em Março deste ano com a aquisição da Texto Editores e que evoluiu durante o ano com as aquisições da Caminho, ASA e Gailivro.
(…) A Dom Quixote assume-se como a «A Casa dos Autores Portugueses». Para além de ter no seu portfólio alguns dos mais importantes autores nacionais, ao longo dos seus quarenta anos de vida a Dom Quixote publicou cerca de 5000 títulos originais, tendo colocado em casa dos leitores portugueses mais de 20 milhões de livros.
Para Miguel Pais do Amaral, a compra da Dom Quixote «finaliza o primeiro ciclo de aquisições com vista à criação de um grupo editorial líder de mercado em Portugal e nos países africanos de expressão portuguesa. Seguir-se-á uma fase de reorganização interna e de crescimento orgânico, que a médio prazo permitirá criar um grupo suficientemente forte para iniciar um segundo ciclo de aquisições fora de Portugal, nomeadamente no mercado brasileiro»(…) [O negrito é meu]

Ontem, o grupo de Pais do Amaral formalizou igualmente a compra da editora Nova Gaia, acordada desde 18 de Setembro mas que aguardou um parecer positivo da Autoridade da Concorrência. Esta aquisição permitirá ao grupo alcançar a vice-liderança no segmento das edições escolares, com uma quota de mercado próxima dos 30% (ainda assim distante da hegemónica Porto Editora).

Confirmada a compra da Dom Quixote por Miguel Pais do Amaral

Segundo uma informação difundida há cinco minutos pela agência de comunicação Lift Consulting, o Grupo Editorial de Miguel Pais do Amaral “acabou de finalizar a aquisição das Publicações Dom Quixote”, colocando-se “na liderança em edições gerais e vice-liderança em edições escolares”.

Uma bomba

Se isto se confirmar, vai ser o bom e o bonito. Além da balcanização do mercado editorial, numa lógica de grupos que tenderá a mimetizar o que se passa actualmente com a imprensa, arriscamo-nos a ver entronizado um novo herói capitalista: Miguel Paes do Amaral, o homem que resgatou aos espanhóis uma editora que eles nos tinham roubado, os malandros.
O pior é que estes cenários não auguram nada de bom quanto à qualidade média dos livros que se vão publicando, às catrefadas, no nosso país. E temo bem que as editoras mais pequenas e alternativas, as que remam convictamente contra o processo de best-sellerização em curso, vejam a sua mera sobrevivência ameaçada pelo vendaval que se aproxima.

Os rumores confirmam-se

Notícia de hoje, no DN:

“A Gradiva é uma jóia e há muita gente interessada. Como não vou deixá-la aos meus filhos, pode ser que seja este o momento.” Guilherme Valente, editor e proprietário da Gradiva, confirmou desta forma, à Lusa, que pode estar para breve a venda da editora que fundou e que este pode ser o momento ideal para formalizar um negócio, por haver muita procura e muitos grupos interessados na concentração.
Guilherme Valente reagia a uma notícia publicada ontem no DN que dava conta de negociações avançadas entre a Gradiva e o grupo Explorer, negando, para já, a existência de qualquer decisão. “A Explorer é um grupo de pessoas sérias e correctas que gostam da Gradiva e eu gosto delas, mas não há nada de concreto”, acrescentou, declarando, sem revelar qual, que há um grupo a que jamais venderá a editora que dirige.

Só aqui entre nós, não é muito difícil imaginar qual é o tal grupo a que Valente “jamais venderá” a Gradiva, pois não?

Manobras em curso no meio editorial português

As coisas no mercado do livro estão mesmo a mexer. Depois do furor de Miguel Paes do Amaral, que comprou quase de rajada a ASA, a Caminho, a Texto e a Gailivro, entre outras, as movimentações não cessam. Segundo notícias publicadas na edição de hoje do DN, a Gradiva está prestes a ser comprada pela Explorer Investments, uma empresa de capital de risco que adquiriu esta semana 75% da Oficina do Livro (mais as chancelas associadas: Casa das Letras e Estrela Polar). Como é óbvio, o que interessa à Explorer na editora de Guilherme Valente não é propriamente a colecção Ciência Aberta, mas o catálogo de best-sellers de José Rodrigues dos Santos, um dos autores que mais vendeu em Portugal nos últimos anos. Acontece que o ainda pivot da RTP pode não estar pelos ajustes, preferindo negociar contrato com uma nova editora em vez de “ser objecto de uma transferência para a qual não foi consultado e pela qual não irá auferir qualquer benefício financeiro”. Resta saber se uma eventual saída de Rodrigues dos Santos não arruinará o negócio, como a temida saída de Saramago poderia ter arruínado a venda da Caminho a Paes do Amaral.
Entretanto, prevêem-se mais novidades para breve. Depois de um momento de acalmia, Paes do Amaral, que também andou a namorar a Gradiva e falhou o “ataque” à Pergaminho, estará em vias de comprar, ainda segundo o DN, “as últimas editoras que pretende juntar ao seu já enorme lote de empresas”. O futuro perfil do grupo deve ser anunciado em Janeiro, quando as negociações em curso estiverem concluídas.
Se dúvidas houvesse, dissiparam-se: 2008 vai ser um ano de profundas mudanças (de estratégia, de paradigma comercial e de relações de poder) no mercado livreiro português.

«Tenho a suspeita de que a espécie humana - a única - está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta» Jorge Luis Borges